19 de novembro de 2019 | Ano 5, Edição #49 | Texto: | Ilustração: Kethlenn Oliveira
Quando pertencer ainda é difícil, a gente cria alternativas

Nosso senso de pertencimento a um grupo de pessoas ou a uma instituição (escola, igreja, clube etc.) costuma depender de inúmeros fatores. Alguns deles são mais simples de serem percebidos, por serem relacionados muitas vezes a possuir um bem material ou não. Por exemplo, se você faz parte de um grupo de pessoas onde todos tem uma roupa de determinada marca cara e você não, em algum momento pode se sentir deslocado nesse ambiente. 

Outros fatores, porém, não são tão fáceis de identificar, por terem um caráter mais subjetivo. São o que um sociólogo francês bem famoso chamado Bourdieu (se pronuncia como “Burdiê”, hehe) chama de capital social e capital cultural. O capital social está ligado a rede de pessoas que você conhece e que podem facilitar a sua vida em alguma medida, seja para conseguir um emprego, uma vaga em uma escola/universidade ou qualquer experiência que você precisa de ajuda para adquirir. Já o capital cultural seria tudo aquilo que você sabe, seja porque aprendeu na escola de maneira formal ou pelo que aprendeu no convívio com sua família, amigos e vizinhos. 

Todo mundo tem um contexto social e cultural, mas na sociedade em que vivemos hoje esses contextos só viram “capital” quando considerados valiosos. E é justamente essa valoração do capital social e cultural de uma pessoa que pode fazer ela se sentir deslocada em alguma situação ou não. Um exemplo é quando em um evento a maior parte dos participantes já esteve em suas edições anteriores, ou quando no processo seletivo de uma instituição a maioria dos candidatos vêm da mesma escola/universidade e tem pais e mães que já trabalham naquela área. Alguém que está nesse evento ou concorrendo nesse processo, mas tem outra origem familiar e estudou em outro lugar, pode se sentir deslocado. 

Essas “barreiras de pertencimento” que não são materiais, são as mais difíceis de romper. Primeiro porque se não estivermos atentos, não conseguimos nem identificar o motivo de não nos sentirmos tão bem. Depois, por não dependerem apenas de esforço próprio para serem ultrapassadas, não é uma lógica de “eu preciso ir a uma loja e comprar algo”. É mais como um acúmulo de experiências e encontros que parecem nunca ser o suficiente quando estamos buscando.

Classe social, gênero e raça tem tudo a ver com esse assunto. Uma vez que as experiências e ciclos sociais mais valorizados parecem ter sido criados apenas para um grupo de pessoas: homens, brancos, ricos e heterossexuais. Pessoas que não se encaixam em todos esses padrões não deveriam fazer parte daquilo que a sociedade julga mais bonito, inteligente e bacana. Esse seria o caso das melhores escolas/universidades, das grandes empresas, das viagens interessantes e de todas as formas de arte. 

Por muito tempo, essa era única realidade possível, porém as coisas vem mudando. Materialmente, pessoas que não conseguiriam se encaixar em todos os padrões sociais considerados “perfeitos” estão conseguindo acessar espaços que antes não imaginavam ter o direito de serem seus. Negros, mulheres, LGBTs e pobres hoje frequentam espaços da universidade, da política, das artes. Viajam, produzem ciência e entretenimento. 

Em tese, deveriam pertencer e o discurso da diversidade deveria fazer com todos se sentissem incluídos, certo? A resposta é “quase”. Acontece que esses espaços não estão sendo ocupados sem uma resistência muito grande por parte daqueles a quem eles pertenciam, antes, exclusivamente (os homens,brancos, hetero, ricos…). E os capitais sociais e culturais são a barreira que mais insistem em manter.

Falando especificamente de negros e negras no Brasil, por exemplo, isso se reflete no fato de nossos antepassados nunca terem ocupado esses espaços antes. Nós quase nunca temos uma avó que foi pra universidade que queríamos cursar, um tio que é sócio no escritório que pretendemos trabalhar ou uma madrinha médica que pode ajudar em qualquer coisa. Sobre a cultura, muitas vezes, nunca vimos o filme que todo mundo viu, não crescemos ouvindo os clássicos da MPB/do Jazz/ do Blues (mesmo que isso seja originalmente nosso), não viajamos para conhecer os melhores museus e galerias de arte. 

Para alguns, portanto, “pertencer” requer muito esforço. Não basta ser um aluno aplicado, ler os textos obrigatórios e ir ao cinema de vez em quando pra ser alguém interessante e merecedor daquele espaço/ambiente. Você precisa ler mais para correr atrás do “tempo perdido”, precisa aprender mais sobre a arte das galerias, precisa se deslocar bastante pela cidade para conseguir participar de todos os eventos bacanas e torcer para serem gentis com você. Será que isso é, de fato, pertencer? Provar que merece estar em qualquer lugar é cansativo, afasta de tudo aquilo que você já conhece e concorda em desvalorizar o seu próprio contexto social e cultural. 

Uma alternativa a essa situação é lutar pela quebra dos estereótipos para que cada vez mais pessoas fora do padrão imposto ocupem lugares almejados e, mais do que isso, o capital cultural e social se torne amplo o suficiente para que pertencer deixe de ser doloroso. Isso não é fácil, é ir contra o racismo, sexismo e elitismo que subjugam há muitos anos. Porém não é impossível e tem muitas iniciativas com esse objetivo rolando. Aqui você verá só alguns exemplos que lembram que podemos pertencer ou criar e recriar nossa própria comunidade: 

  • Afrocuidado: página que trata de temas de saúde mental da população negra, desmistificando a psicologia e rompendo os padrões de força impostos à população negra nesta área.
  • Minas Programam: iniciativa que, desde 2015, oferece cursos de introdução a linguagem de programação direcionados, principalmente, para meninas negras e periféricas. Tenta modificar os estereótipos de gênero e de raça que influenciam nossa relação com as áreas de ciências, tecnologia e computação.
  • PerifaCon: evento organizado para quebrar barreiras e estereótipos no imaginário do mundo dos quadrinhos, cultura nerd, pop e geek, dando visibilidade a produtores e consumidores de cultura nerd na periferia.
  • Mulheres Negras Decidem: campanha criada em 2018, pela Rede Umunna, para unir mulheres negras que lutam pelo avanço dos direitos por meio do fortalecimento de processos eleitorais, divulgando dados sobre mulheres negras na política institucional e incentivando a educação política. 
Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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