11 de agosto de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Quando rabisco cria vida: entrevista com Suryara Bernardi

Conhecia o nome da Suryara do mundo dos livros infantis. O nome dela rondava por aí como uma dessas pessoas incríveis e novas que deviam estar na lista dos 30 under 30 da Forbes, se a Forbes prestasse atenção em ilustradores brasileiros. E não à toa! As ilustrações dela são as coisas mais lindinhas, daquelas que dá vontade de você estar dentro daquele universo – mesmo você sabendo racionalmente que aquele mundo é estático, porque não parece; na verdade, tudo parece extremamente vivo.

Como vocês podem ver, eu já era uma fã quando conheci ao vivo a Suryara. Eu nunca tinha visto foto dela, o que fez com que eu me surpreendesse um pouco quando vi que a pessoa por trás das ilustrações fofinhas estava quase toda de preto, mochilão nas costas e um tênis cheio de spikes numa onda punk rock maravilhosa. Obviamente, fiquei mais fã ainda. E aí que acabamos conversando um tempo e a primeira coisa que aprendi sobre a Sury é que ela não sabe aceitar elogios. A conversa foi mais ou menos assim:

– Seus desenhos são tão lindos! – eu disse.

– Ah… Eu não sei aceitar elogios… – ela disse.

– Você diz assim: “são lindos mesmo, sou maravilhosa”. – eu disse.

E foi assim que tudo levou a essa entrevista de hoje. Porque existe um mundão enorme de pessoas que ilustram e ninguém conta disso pra gente. Porque essas pessoas arrasam muito, mas não saem na lista dos 30 under 30 da Forbes. Porque a Suryara é maravilhosa e topou conversar sobre o misterioso mundo das ilustrações com a gente.

Clara: Normalmente, desenhar começa mais como um hobby do que como um possível trabalho. Pelo menos, nosso sistema educacional não incentiva quase nada as artes plásticas, de uma forma geral, a serem vistas como profissão. Como você percebeu que desenhar deixou de ser hobby e passou a ser algo a mais?

Suryara: Eu na verdade nunca enxerguei outra opção. Se fosse tentar fazer um curso em outra área, eu provavelmente iria me esforçar em vão.

Clara: Sério? Mesmo quando pequena? Sempre foi “vou ilustrar”?

Suryara: Eu queria trabalhar com desenho animado. Eu tinha uns 10, 11 anos e vi O Estranho Mundo de Jack e pensei que trabalhar com aquilo deveria ser muito legal. Mais tarde descobri que aquilo era animação em Stop Motion e continuei pensando que aquilo era o que eu tinha que fazer; mas quando prestei o vestibular, a única faculdade que oferecia o curso de animação era a UFMG e ainda era um curso de um bacharel em artes visuais com habilitação em Cinema de Animação. A prova para design gráfico da UFG era no mesmo dia da UFMG, acabei prestando na UFG e pensei em tentar uma transferência depois, o que nunca aconteceu.

Clara: E como foi seu trajeto em design? Você já começou ilustrando ou fez outras coisas? Como isso refletiu depois no seu trabalho?

Suryara: No curso de Design Gráfico da UFG, tem uma matéria de ilustração. A disciplina é ministrada pela Ciça Fittipaldi, que é uma ilustradora renomada e com uma carreira consolidada. Durante o curso, conheci muita gente que também era apaixonado por animação, mas acabei percebendo que eu gostava muito mais de fazer a parte de pré-produção de filmes que animar em si, e essa pré-produção era a área de concept art – que é dar cara do filme com base no roteiro e nas expectativas da produção. Disso para a ilustração de livros, incentivada pela Ciça, foi um pulinho. Eu já gostava de ler e desenhar, era a união perfeita.

Clara: E como você vê esse trajeto refletido nas suas ilustrações hoje em dia?

Suryara: Eu vejo algumas particularidades do curso que fiz e desse meu interesse pela animação. O design é, de uma forma geral, é um curso que te ensina a projetar e resolver problemas visuais. Isso, obviamente, sendo meio simplista… então isso influencia um pouco a forma como trato as imagens, eu penso no livro como um todo e o formato determina muito da forma como vou trabalhar a construção narrativa. E a animação também tem esse lado de projeto, você tem que tomar conta de muitos aspectos para a animação funcione. Mas a animação me influencia, por exemplo, na forma de construir personagens, na dinâmica das poses, na construção de cenários para as minhas histórias.

Clara: Você, hoje em dia, só ilustra a história, né? Você também não escreve?

Suryara: Aí vem mais uma vez o tal do caminho natural. Foi natural eu procurar um curso ligado a imagem e que tivesse alguma ligação com a arte, mesmo que não diretamente. Agora, ilustrando livros, comecei a sentir a necessidade de escrever minhas próprias histórias. É um caminho bem novo para mim. Não tenho nada publicado ainda. Ainda.

Clara Browne: E quais as suas influências? Pensando tanto em outros artistas como também em coisas aleatórias, tipo, sei lá, girassóis e chá verde.

Suryara: (risos) chá verde? (Mais risos) A música é uma grande influência para o meu trabalho. Sem música eu não faço nada. Eu procuro muita inspiração na fotografia e nos livros de literatura. Quanto mais você lê, mais ideias você tem, mais desejo você tem. É uma beleza! Ah, e nos cachorros (risos)

Clara: Você tem livros ou músicas que gosta mais ou que recorre mais vezes?

Suryara: Tenho sim! Na música eu costumo escutar bandas que partilhem de um mesmo sentimento meu. Normalmente letras que reforcem que a gente é igual, que o mundo pode ser um lugar menos podre e que a gente tem que participar ativamente da nossa sociedade. Então normalmente para eu me sentir inspirada eu preciso me sentir parte de um todo, por isso tem duas bandas que eu sempre escuto: Anti Flag e Against me!

Nos livros eu gosto de escapar um pouco mais. Eu gosto de literatura fantástica por exemplo. Leio sempre Neil Gaiman, Allan Poe e o Kafka. Mas gosto também da Agatha Christie e do Conan Doyle, porque eu gosto de tentar resolver os mistérios (risos).

Clara: Engraçado esse lance de fantástico, porque vejo muito do seu trabalho mais voltado pro mundo real. Tipo, mesmo tratando de universos diferentes, todos são dentro do plano real.

Suryara: É porque você não leu meus textos! (risos)

Clara: (risos) Muito justo!

Suryara: Eu concordo que isso acontece mesmo, de alguma forma eu acho que me podei em perder a estribeiras, mas a gente passa por fases.

Clara: Já que começamos a falar mais do seu ~portfólio~, me encomendaram a seguinte pergunta: o que você mais gosta de ilustrar?

Suryara: Nossa, que pergunta difícil. Eu gosto de ilustrar boas histórias. Algo que toque em algum ponto o sentimento de alguém, algo que comunique sentimento, independente de qual é esse sentimento.

Clara: E como você trabalha com isso? Tipo, como você pega um texto, um sentimento, uma coisa mais abstrata e torna isso imagem?

Suryara: Sabe aquela coisa meio de tentar fazer pequenas revoluções? Eu não sei se consegui ainda, mas eu gostaria que uma pessoa ao ver uma imagem, ou ler um texto meu, conseguisse se pôr no lugar do outro e exercitasse a empatia.Suas perguntas estão ficando difíceis (risos).

Essa pergunta que você fez agora é muito difícil de responder porque eu teria que analisar em retrospecto toda minha vida. Passa pelo filtro individual, de como eu percebo o mundo a minha volta e como eu me percebo no mundo.

Clara: Ok, tentando ir pra um outro plano… Como você pensa a representatividade (dos diversos tipos de pessoas, seja em questão de raça, gênero, cultura etc.) no seu trabalho?

Suryara: Bom, antes de mais nada, eu acho que a gente tem que derrubar algumas barreiras. Como por exemplo caracterizar que existe literatura feminina e literatura “séria” que é a masculina. Ou literatura infantil e Literatura com L maiúsculo que é a adulta. Eu desenho para todos e escrevo para todos, independentemente de quem seja. Mas eu tendo a representar mulheres fortes, pois é o que eu vejo a minha volta.

Gosto também de chamar atenção para injustiças sociais, mas eu faço isso mais no meu trabalho pessoal, que me permite mais liberdade. E qualquer escolha que a gente faça é uma escolha política, então por mais que eu pense que todos merecemos os mesmos espaços e somos iguais, eu sei que infelizmente o ritmo que toca não é esse.

Clara: Aí chegamos na grande pergunta: como funciona o mercado de trabalho?

Suryara: Com sangue, suor e lágrimas (risos).

Bom, eu vou falar com base na minha experiência, que a que posso explicar com mais propriedade. Não sei se é assim para todo mundo, mas quando eu falei que é com base de sangue, suor e lágrimas é porque a dedicação que você tem que ter é bem alta. Só gostar de desenhar não basta. Só gostar de ler também não. Essa dedicação é estudar bastante, se encher de referências, abstrair isso tudo e praticar muito.

Para você chegar em uma editora, você tem que ter um portfólio. E a editora quer saber se você consegue ser consistente no traço e na narrativa de um livro. Uma sugestão é treinar. pegar textos que você goste por exemplo e ilustrar ele todo – para você sentir onde estão as suas dificuldades, para você treinar a leitura e saber escolher os pontos marcantes do texto para ilustrar, essas coisas. Quando você já tiver um certo volume desses estudos, você seleciona o que é melhor, monta um portfólio e vai atrás dos catálogos (online mesmo) das editoras que você acha que poderiam gostar daquilo que você tem pra mostrar.Num mundo ideal, você vai até a editora e mostra o trabalho lá. Mas se isso não for possível, faça um bom portfólio digital, com umas 20 imagens, leve, que não demore muito para carregar e envie para os contatos.

Clara: E se você não tem contatos?

Suryara: Tem algumas formas de conseguir. Você pode ir em eventos literários por exemplo. Você pode ligar nas editoras e pedir o email para envio de portfólio. Você as vezes consegue os contatos nos próprios sites, você aciona os amigos, você aciona os outros ilustradores mais experientes, você procura os editores no linkedin, no facebook.

Clara: E ilustração normalmente é por freela?

Suryara: Normalmente é. São por contratos de demanda, você normalmente não tem vínculo com a editora.

Clara: Como você administra seu tempo com freelas?

Suryara: Eu tento ser bem organizada. Tanto com a ordem de trabalhos e seus prazos, encaixando tudo na agenda, quanto com os meus arquivos, manter os arquivos organizados economiza tempo. Eu trabalho como se fosse em um escritório, eu tenho um horário para começar, horário para intervalos e mais ou menos um horário para parar. Criar uma certa rotina, me ajuda a não perder prazos e criar um ritmo de trabalho.

Clara: Mas como você consegue se disciplinar nessa rotina? Tipo, realmente levantar na hora e parar quando é pra parar, voltar depois etc.? Particularmente, acho muito difícil isso!

Suryara: É bem difícil mesmo, principalmente a hora de parar. Quando se trabalha em casa tudo te distrai, telefone, televisão, vídeo game, pestaninha da tarde. Eu criei uma divisão em casa do meu ambiente de sossego para o meu ambiente de trabalho. Isso ajuda um pouco. Mas eu costumo acordar sempre em um mesmo horário, tenho sempre organizado, mesmo que mentalmente quais são minhas obrigações no dia… Não funciona 100% perfeito, mas é algo para eu me basear.

Ah, e coloco horários. Por exemplo, não tenho costumado passar das 10 da noite. Fazendo isso sempre você se acostuma com um ritmo. É tentar ter uma certa disciplina mesmo

Clara: Não lembro se já perguntei, mas… Seja sincera, como ficam os dinheiros?

Suryara: Cobrar também não é uma tarefa fácil, você colocar preço em algo subjetivo é bem complicado. Mas eu sei mais ou menos quanto que eu tenho que ganhar por mês para viver… então eu sei que não posso cobrar menos que X por trabalho. Outra coisa é que quando um trabalho grande aparece e eu recebo mais que esse X necessário por mês, eu distribuo esse valor para mais meses. Como sou freelancer, nem todo mês recebo uma renda igual, então faço esse exercício de distribuição dos ganhos.

Clara: E, Sury, pra terminar, qual ilustra que você tem como xodó e qual ilustra você ainda quer fazer na vida?

Suryara: Tenho sim, eu gosto muito de uma que tem uma menina deitada na cama com um cachorro olhando.

E tem muita ilustração que eu quero fazer na vida, muitos livros e muitas histórias.

Para conhecer mais o trabalho da Suryara, você pode ver seu portfólio online ou procurar nas livrarias!

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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