24 de junho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Quando a sala de aula não é mais segura
Ilustração por Helena Zelic

Ilustração por Helena Zelic

Toda menina, em determinado momento da vida, começa a perceber que é diferente dos meninos, seja porque usam banheiros diferentes, porque vestem diferentes tipos de roupa ou porque tendem a ser separados na hora da educação física (no meu colégio, meninas jogavam vôlei enquanto os meninos iam jogar futebol). Aí passamos a ver também como tem vários lugares onde existem homens e não existem mulheres, ou o contrário. Vemos que a maioria dos protagonistas de filmes importantes são homens…e os que tem protagonista mulheres são classificados como sendo especificamente para mulheres. Já no salão, as manicures são, em sua maioria, mulheres. Quando pensamos nos políticos, apesar de termos uma Presidenta, podemos facilmente ver a que a maioria são homens. O professor mais popular, aquele que todo mundo admira e fica feliz em ir pra aula? Geralmente é homem.

Essa diferenciação se reproduz também entre alunos em sala de aula. Mesmo em colégios mistos (pasmem, ainda existe colégio só de meninos!) meninas e meninos são tratadas de maneiras diferentes, assim como o são no resto da sociedade. Hoje em dia isso está sendo muito questionado e a própria Revista Capitolina se engaja na luta pela transformação dessa realidade, mas continuamos vivendo em um mundo onde homens são privilegiados. Todas nós acreditamos que não precisa ser assim. Muito pelo contrário, queremos um mundo onde homens e mulheres, assim como pessoas não-binárias, tenham as mesmas oportunidades e sejam reconhecidos pelo que são – pessoas, independente de gênero, cor, orientação sexual, ideologia ou religião.

Enquanto isso não acontece, ficamos indignadas com relatos de situações que ouvimos, lemos e, infelizmente, presenciamos e vivenciamos, em que pessoas se tornam vítimas exclusivamente por serem mulheres. Só esse ano, nós da Capitolina ouvimos histórias de deixar os cabelos em pé. O mais triste é que a maioria delas ocorreu em ambientes que muitas de nós achávamos ser seguro, um lugar para crescer e abrir a cabeça para novas ideias: instituições de ensino, sejam Universidades ou Escolas. Parece ser comum rolarem comentários machistas em sala de aula, piadas sexistas e pequenas insinuações que “não querem fazer mal”. Mas elas fazem. E quando elas evoluem para coisas mais sérias? Aí que começamos realmente a ter medo. No ambiente que era para ser de aprendizado, teoricamente seguro, de repente nos sentimos inseguras, temos medo e receio de abrir a boca – deixamos de participar, simplesmente porque nos sentimos, enquanto meninas e mulheres, objetificadas por “brincadeiras inocentes” e “comentários informais”.

Estamos aqui para dizer que não está tudo bem e que essa situação não pode continuar, principalmente em sala de aula e no meio educacional. O machismo e o sexismo não podem ter lugar nesse ambiente que também é nosso e não pode nos excluir por sermos mulheres. O caso da Maria Clara Bubna ilustra perfeitamente essa situação. Ela sofreu com a acusação de um professor que, depois de fazer comentários machistas em redes sociais, sofreu uma reação de seus alunos de outra faculdade, onde também lecionava. Diante de um coletivo de vozes que se levantava contra sua postura, esse professor resolveu escolher Maria Clara como alvo, como culpada pela reação contrária a seus comentários. E o resto virou caso de jornal, onde foram publicados textos que mais atrapalhavam do que ajudavam, pois insistiam em colocar Maria Clara como, de novo, culpada.

Depois de um mês em silêncio, acuada, como várias dentre nós também ficamos depois de casos desse tipo, Maria Clara resolveu falar. Achamos importante trazer esse relato para vocês porque, infelizmente, nenhuma de nós está imune. E é muito importante saber que, caso isso esteja acontecendo com alguma de vocês, você não está sozinha (e nós da Capitolina cá estamos para apoiar e ajudar vocês, leitoras, sempre que for necessário, ok?). Você não precisa se sujeitar a qualquer abuso, seja ele por qual motivo for, de professores. Basta. Como cantava Nara Leão: “podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião”.

***

 

“SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ

Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.

Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.

Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.

Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”.

No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona. A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.

Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.

Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.

Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.

Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.

No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco. Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.

O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.

Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.

No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.

Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.

A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.

Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.

Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.

Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.

Abrace e empodere sua voz.

Maria Clara Bubna

Rio de Janeiro, junho de 2014.”

 

 

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

  • Louise NB

    Durante o meu pré-vestibular eu estava animada com a aula de literatura – minha matéria favorita – mas encontrei um professor machista que dizia que o estupro não era culpa dos homens, pois eles não conseguiam se controlar e que era dever dar mulheres não estimular isso, em outras palavras, as mulheres que se vestiam com roupas curtas, estavam propositalmente se exibindo para os homens e logo não poderiam reclamar depois que o estupro aconteceu. Soube que o mesmo homem que disse estas coisas absurdas, e que em todas as suas aulas chamavam as mulheres de hipócritas, pois segundo ele elas realmente desejavam este tipo de abuso, era pai de família e tinha duas filhas. Como um homem com essa mentalidade pode cuidar do bem-estar de uma mulher?

    • Ana Paula Pellegrino

      Poxa, Louise, sinto muito que você tenha tido que ouvir isso de um professor. Vira e mexe encontramos pessoas assim na vida. Mas ó, não desanime não. Aproveite e tire dessa sua indignação força para tentar construir um mundo onde ninguém pense mais assim!

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  • roberto quintas

    a situação dessa aluna derruba um mito muito difundido: o de que a faculdade/universidade é um ambiente de “doutrinação marxista”. com tanto professor/graduado/estudante que defende ideais fascistas e reacionários, o mais provavel é que há um predominio de doutrinação olaviana…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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