22 de julho de 2016 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Bárbara Carneiro
Quanto custam os megaeventos esportivos?

Foi em 2009 que o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou na Dinamarca que a cidade do Rio de Janeiro seria responsável por receber os Jogos Olímpicos de 2016. Dois anos antes, os Jogos Pan-Americanos tinham sido realizados por ali e já indicavam alguns problemas que podiam se repetir no futuro — mas que foram entendidos como erros que não seriam cometidos de novo, como o aumento dos gastos previstos. Algumas pessoas supunham que a realização da Copa do Mundo de 2014 ia ajudar a cidade a se organizar para esse outro megaevento esportivo. Parece que não foi o caso.

Candidatura Rio 2016 from Midia Filmes on Vimeo.

As Olimpíadas foram criadas no finalzinho do século 19 e a primeira cidade a receber o evento foi Atenas, na Grécia, em 1896. A escolha pela Grécia não foi à toa: a ideia de jogos olímpicos foi criada pelos antigos gregos. Em 2004, as Olimpíadas voltaram a acontecer em Atenas, só que com um custo que ainda não deu conta de pagar. Muita gente diz que a crise econômica com aumento do desemprego na Grécia lá por 2008 tem a ver com os gastos para as Olimpíadas e a falta de retorno esperado. Muitos dos locais de competição estão abandonados ou recebem eventos que não tem nada a ver com esportes.

Daí a gente pode pensar que as Olimpíadas só deixam maus legados a países que estão na periferia. Só que países ditos desenvolvidos também tem populações pobres. As Olimpíadas de Londres (2012) e Sidney (2000) podem ser fonte de memórias esportivas maravilhosas, mas não estiveram livres de práticas terríveis do mercado de imóveis. Os megaeventos trazem às cidades uma visibilidade que se traduz em aumento de aluguéis e a impossibilidade de muita gente de arcar com novos valores. Além disso, não é privilégio nosso um maior uso das forças policiais contra civis, constrangimentos às pessoas sem-teto (uma vontade de, digamos, esconder esse fenômeno típico em grandes cidades do mundo) e remoções de moradores.

Não é nem um pouco nova a vontade de governantes de transformar suas cidades em lugares mais bonitos, excluindo as populações pobres de qualquer grande projeto urbanístico. Por exemplo, a reforma urbana de Pereira Passos no Rio de Janeiro de começo do século 20 se inspirou na Paris do século anterior.Ao buscar a modernização (às vezes com coisas que eram importantes para todos da cidade, como um sistema de saneamento e esgoto) acabou expulsando os mais pobres da região central e favorecendo as construções precárias de casas em morros da cidade.

Talvez a gente só não imaginasse que mais de cem anos depois ainda fossem utilizadas as mesmas práticas. No Rio de Janeiro de 2016, linhas de ônibus foram alteradas dificultando ainda mais o deslocamento entre as regiões mais ricas e as mais pobres da cidade. Obras de transporte como a Transolímpica e a Transcarioca tiveram gastos acima do previsto e motivações bem específicas. Com o argumento de viverem em zona de risco, milhares de pessoas foram removidas de suas casas, podendo ou não receber indenização por essas remoções. A Vila Autódromo, na zona oeste, tem sido símbolo de resistência a essa política da prefeitura. Muitos dos espaços desocupados serviram para construções relacionadas aos Jogos Olímpicos.

Há quem diga que os megaeventos podem ter efeitos positivos nas populações locais, desde que acompanhados de políticas públicas que garantam esse bem-estar. Mas, sem esse esforço, as Olimpíadas aparecem para a população como atitudes constantes dos governantes de esconder seus pobres com muros> de remover milhares de pessoas de seus lares, além de um estado de exceção em que abusos de autoridade são postos dentro da normalidade.

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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