13 de outubro de 2015 | Cinema & TV | Texto: and | Ilustração: Sarah Roque
Que horas ela volta? + Entrevista com Anna Muylaert

Que horas ela volta? (2015), dirigido por Anna Muylaert, é um filme sobre a relação de mãe e filha, mas é também um filme sobre o Brasil. Talvez um de seus grandes méritos seja exatamente falar sobre algo tão amplo quanto a realidade em transformação do país não através de discursos e teses prontas, mas através da convivência de personagens bem construídas, principalmente de Val (Regina Casé), que já nasceu sabendo o que pode e o que não pode fazer e de sua filha Jéssica (Camila Márdila), que, segundo as palavras da mãe, não tem juízo. O enfoque central – e com isso, sua crítica – se dá na forma em que a sociedade hoje se estrutura: verticalizada em todos os seus aspectos. A relação entre Val e os patrões não se distingue muito do que encontramos em muitas casas da classe média atual. A naturalização frente a esse modelo tenta esvaziar o contexto de uma forte desigualdade, transposta em diversas lutas que são “travadas” principalmente decorrente do bloqueio imposto aos conflitos e contradições, um silenciamento dos oprimidos.

Um grande exemplo da consequência dessa naturalização é a risada. Dependendo do local e da sessão, surpreendentemente vemos pessoas achando graça da situação em que Val se encontra (em momentos que não era a intenção da direção legitimar uma piada): ora por sotaque, ora por costumes, ora até pela condição imposta à personagem, situações que vemos no dia a dia. Risos nervosos, em choque, mas risos também banais, naturalizados.

O filme conta a história de Val, que se mudou para São Paulo para trabalhar como babá de Fabinho, morando na casa dos patrões. Enquanto isso, sua filha Jéssica ficou sendo criada por parentes em Pernambuco. Muitos anos depois, Jéssica também vai a São Paulo, mas para prestar vestibular. A diferença de visão do mundo das duas gera conflitos entre elas e também abala a relação estabelecida na casa dos patrões. Enquanto a própria Val apreende a naturalização imposta através de um acordo taciturno de mando-obediência, Jéssica é exatamente essa quebra: ela não aceita a condição imposta.

Desde o figurino até os diálogos, cada detalhe do filme dá pano na manga para muitas discussões. Repare, por exemplo, nas diversas cenas em que Val usa camisas turísticas de outros países, lugares que, apesar de ser “praticamente da família”, ela provavelmente nunca visitou. Ou logo no início, quando ela está servindo a comida na festa de aniversário da patroa e nenhum dos convidados se dá o trabalho nem de fazer contato visual, muito menos de agradecer. É como se não houvesse uma pessoa ali.

Uma cena dessas que te deixa pensando tempos depois de já ter saído no cinema acontece já no final do filme (e, se você ainda não o viu, isso é um spoiler). Fabinho não passa no vestibular, mas resiste às tentativas da mãe de tentar consolá-lo, até que Val entra no quarto sem conseguir controlar a felicidade, com a notícia de que Jéssica passou. Quando ela sai, o menino finalmente se rende aos cuidados da mãe, como quem diz que o que o fez desabar não foi seu próprio resultado ruim, mas sim o fato de ter ido pior do que “a filha da empregada”.

A Val, assim como muitas mulheres no nosso país, teve seus motivos para acreditar que seu lugar no mundo era limitado, mas talvez o encanto maior do filme seja nos permitir ver o surgimento de uma geração que prefere encarar a chuva de cabeça em pé  – ou entrar numa piscina, a grande metáfora do filme – do que aceitar que seu lugar é “da cozinha para dentro”.

Para falar melhor sobre o filme e todas as questões que o cercam, fizemos uma entrevista com a diretora Anna Muylaert, que você pode conferir abaixo:

 

1) Você já trabalhou como roteirista em diversos trabalhos, dos quais alguns deles você dirigiu. Seu processo de escrita muda quando você sabe que é você quem vai dirigir determinado roteiro?

Sim, claro. Quando trabalho pra outra pessoa tento entender o que ela quer e trabalhar com sua cabeça. Eu colaboro para que suas ideias funcionem o melhor possível, mas tenho consciência que estou a serviço de outra cabeça. Quando trabalho para mim mesma sou mais rigorosa, ainda porque estou trabalhando a serviço das coisas que eu acho importantes.

 

2) Em relação a Que horas ela volta?, você pretendia ser a diretora desde o início do processo de escrita?

Sim. Este sempre foi o projeto da minha vida.

 

3) Ainda em relação ao roteiro, você já disse que começou a escrever o filme há 20 anos, o que me chamou atenção, já que é um filme muito atual. Nesse período, tivemos muitas transformações no país. Eu gostaria de saber como você foi incorporando essas mudanças no seu roteiro e se você pensa que esse filme poderia ter sido feito em outra época. O que nele te parece atemporal e o que te parece retrato de um momento do país?

Sim, o roteiro foi mudando ao longo dos anos assim como eu – que fui adquirindo experiência e simplificando meu estilo – e o país. Fui absorvendo tudo isso, sem falar nas conversas que fui tendo com outras pessoas.  Acho que a figura da Jessica fala de um Brasil contemporâneo, mas o amor de mãe foi a semente do projeto e creio que este sentimento ainda é bem forte no resultado final.

 

4) Além dos elogios da crítica, o filme tem obtido um bom público no cinema. Você acha que está havendo um maior interesse do público por temas sociais no cinema brasileiro?

Não sei dizer. O grande número de espectadores brasileiros ainda está ligado e somente ligado na tela da Globo. Espero que meu filme contribua para começar a mudar isso.

 

5) Que horas ela volta? foi exibido em festivais internacionais e, dentro do Brasil, tem sido visto por pessoas de diferentes classes sociais. Como você percebe a recepção do filme nesses diferentes grupos?

Totalmente diferente. Na periferia tem cena que o povo aplaude enquanto no jardim paulista esta mesma cena é motivo de risada. A percepção da Jessica também muda muito de acordo com a ideologia do espectador. Para uns, ela é uma grande heroína, para outros, um entojo.

 

6) Depois do seu debate com Cláudio Assis e Lírio Ferreira, muito se discutiu sobre o papel da mulher no cinema. A sua equipe tem uma composição muito interessante nesse sentido, com mulheres ocupando cargos tradicionalmente ocupados por homens, como a direção de fotografia e a coordenação da pós-produção. Isso foi uma escolha pensada ou uma coincidência?

Não foi pensado. Escolhi e tive a sorte de conseguir ter as melhores pessoas em cada área. Sou apaixonada pelo trabalho da fotógrafa Barbara Alvarez desde que vi Whisky – e eu nem sabia que ela era mulher. A montadora deste filme, Karen Harley é, para mim, a melhor montadora do Brasil. Na arte tive dois homens que considero também os melhores do pais. Escolhi os meus favoritos e a maioria eram mulheres. Talvez pudéssemos discutir a partir daí porque considero os melhores profissionais do cinema mulheres. Mas dai já é um assunto mais complexo.

 

7) Na sua experiência, é mais fácil dirigir uma equipe predominantemente feminina?

Acho que em geral as mulheres são mais sinceras e menos autoritárias que os homens. Sinto que são mais objetivas e menos narcisistas. Nesse sentido, é mais fácil. Mas a Barbara ou a Karen, por exemplo, são bastante bravas e não são fáceis de lidar. Não são fáceis porque não estão ali pra brincadeira. Elas defendem suas ideias como se o filme fosse delas. É por isso que são feras.

 

8) Ainda sobre essa questão, seu filme tem, além de uma protagonista mulher, um enfoque no olhar feminino. Você acredita que quando o roteiro, a direção e os outros cargos são ocupados por mulheres, a representação feminina fica mais realista?

Creio que sim, mas não obrigatoriamente. Acho que os gays também sabem enxergar a mulher, um bom exemplo é o Pedro Almodóvar.

 

9) O que você falaria para meninas que estão entrando agora no mercado de cinema e se deparando com situações machistas, em espaços que tradicionalmente não são ocupados por elas? Como não desanimar nessas situações?

Eu escolhi ter paciência. Paciência no sentido de acumular experiência até minha hora chegar. Quero dizer, os machistas , os coronéis, os homens que desrespeitam mulher não vão longe. Eles ficam estagnados rápido. E quem trabalha sério e não desrespeita o próximo, segue evoluindo. O meu conselho seria: siga se fortalecendo, siga estudando, seja dedicada. Tenha confiança.

 

10) Por fim, gostaríamos de saber que filmes foram fundamentais para sua formação cinematográfica e que você nos recomendaria?

Essas listas sempre mudam, mas aqui vão alguns:

Amarcord (1973)

Teorema (Theorem, 1968)

O inquilino (The Tenant, 1978)

O acossado (Breathless, 1960)

Laranja mecânica (A Clockwork Orange, 1971)

Nascido para matar (Full Metal Jacket, 1987)

Down by Law (1986)

Pulp Fiction (1994)

Apocalipse Now (1979)

Whisky (2004)

Cama adentro (2004)

Santiago (2007)

Festa (1989)

Baixio das bestas (2006)

Madame satã (2002)

O pagador de promessas (1962)

Deus e o diabo na terra do sol (1964)

Índia, filha do sol (1982)

O marido da cabeleireira (1990)

Segredos e mentiras (Secrets and Lies, 1996)

Elephant (2003)

A excêntrica família de Antônia (Antonia, 1995)

Terra de ninguém (No Man’s Land, 2001)

O balão branco (Badkonake Sefid, 1995)

Match Point (2005)

A era do rádio (Radio Days, 1987)

A lira do delírio (1978)

Ônibus 174 (2002)

São Paulo, sociedade anônima (1965)

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

Sofia Brayner
  • Colaboradora de Cinema & TV

Sofia tem 18 anos e mora em São Paulo, apesar de ter um coração alagoano fruto de sua moradia de 7 anos na capital. Estuda Cinema e tenta escrever ora ou outra umas histórias mirabolantes que aparecem na sua cabeça fantasiosa. Ela canta Beatles, dança sem motivo, é louca por jogo de terror e fala demais. Ah, e sonha, sonha muito...

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Me apaixonei pelo filme. Assim que li sobre ele fiquei morrendo de vontade de assistir. Foi muito além do que esperava, vi cenas que já tinha presenciado muitas vezes na vida real. Se te uma palavra que define bem o filme é “real”, impressionante! Torço muito para que mais e mais pessoas vejam por aí e ajudem a mudar essa realidade

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