28 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração:
Que poder é esse de outras culturas?
Ilustração: Gabriela Sakata.
Ilustração: Gabriela Sakata.

Ilustração: Gabriela Sakata.

Desde pequena, sempre fui massacrada de cultura, de todos os tipos, de todos os lugares. Ou melhor, de QUASE todos os lugares. Cresci sendo apaixonada por tudo o que me apresentavam: filmes de animação da Disney, desenhos animados do Cartoon Network, animes da Toei Animation, Harry Potter, entre outras coisas. Isso sem contar com os pintores e escultores que já me fascinavam quando criança: Salvador Dalí, Edgar Degas e Van Gogh.

Qual a característica básica que cada um desses exemplos que usei partilham? Nenhum é brasileiro. Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Espanha, França e Holanda, todos são países que, com mais ou menos intensidade, influenciam nossa maneira de agir e de pensar. Nunca diria que a cultura brasileira é pobre e sem influência, mas por que tantas de nós acabam por se afeiçoar tanto ao que é externo ao invés de procurar referências culturais dentro do nosso próprio país?

É claro que o que coloco em voga não é algo assertivo, não é algo que 100% das pessoas fazem. Entretanto, se olharmos por aí, perceberemos que direta ou indiretamente estamos consumindo muito mais a cultura alheia do que a nossa própria. E são coisas que já estão tão entranhadas que fica difícil para nós, no dia a dia, percebermos isso.

Quando estamos com fome e queremos um lanchinho rápido, recorremos aos famosos fast foods, que já começa americano pelo nome. Parte de nós decide ir a qualquer lugar, menos o Bob’s, sendo que o mesmo é o único de origem brasileira. Muitos inclusive dizem que, por ser brasileiro, não é tão gostoso quanto os outros.

O mesmo acontece em diversos âmbitos por aí: em outros tipos de restaurantes, com música, com filmes, com artistas. A cultura nacional muitas vezes não tem o mesmo encanto que tantas outras culturas que nos são vendidas diariamente. Eu falo isso como uma pessoa que foi, sim, conquistada por esse imperialismo cultural que está tão intrínseco ao nosso viver. Minha banda favorita é britânica, meu livro favorito é britânico, meu pintor favorito é espanhol, e por aí vai.

Por que será que a cultura brasileira acaba sendo tão desvalorizada? Não é como se eu não gostasse de nada daqui. Ney Matogrosso, Chico Buarque, Carlos Drummond de Andrade, Tom Jobim, Vinícius de Moraes… gosto muito de todos. Só que eu tenho esse problema muito grande de aderir a essa cultura brasileira nos meus atos diários e nos meus gostos que são trabalhados diariamente, na música que eu ouço, no livro que eu leio no dia a dia.

Por trabalhar com algo mais artístico (afinal, sou designer em formação), eu não deveria ter um olhar e o coração mais aberto para a cultura brasileira? Isso me ajudaria mais a entender a minha profissão dentro do meu país. Por que continua sendo tão difícil para mim me sentir pertencendo à nossa cultura? Por que eu me autodenomino “um acidente geográfico”, que deveria ter caído na Europa, mas caí aqui no Brasil?

Acredito que a principal questão é o porquê de não nos abrirmos mais ao que vem do nosso próprio berço cultural. Se estivéssemos mais abertos, e eu incluo a mim mesma nesse coletivo, não aproveitaríamos mais dos dois mundos? O que eu estou propondo a mim mesma e a todo o resto das pessoas que se sentem assim não é que fechem as portas para a cultura americana, ou a argentina, ou a japonesa, ou qualquer outra. O que proponho é que todas as culturas tenham a mesma chance de absorção dentro de nós.

Eu não preciso odiar a cultura britânica para amar a brasileira, assim como eu não necessito barrar tudo que é do meu país por supor que é mais desinteressante. Às vezes, perdemos o interesse porque achamos sem graça já que está tão vinculado àquilo que vivemos todo dia, e não por ser ruim. Ou acabamos por dizer que é ruim sem conhecer, por uma pré-concepção nossa ou de outros ao nosso redor. Estou me propondo a adicionar cada vez mais e mais cultura, seja ela visual, gustativa, auditiva ou sensorial, na minha vida, seja lá qual for a fonte. E você, se é como eu, vai dar uma chance para a cultura brasileira?

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Paola Rodrigues

    Amorzinho por Johnny Hooker!

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