5 de junho de 2016 | Ano 3, Edição #27 | Texto: | Ilustração: Izadora Luz
Quem ama não grita: o perigo do autoritarismo nas relações paternais
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É comum que em 2016, jovens mulheres de diferentes idades, desde adolescentes de 14 anos até mulheres de 26 ainda estejam vivendo diariamente dentro de um núcleo familiar conservador no qual foram criadas e estejam aos poucos buscando se desfazerem dessas amarras que são invisíveis aos olhos, mas que nós mulheres sentimos no fundo da alma. É fato que, no Brasil, milhares de crianças crescem sem pais, o número de mães que precisam criar seus filhos sozinhas é enorme, no entanto o número de famílias consideradas “padrões” é grande, uma família onde existe um pai, uma mãe, as filhas ou filhos e onde todos convivem dentro de um mesmo lar onde é construído não apenas os alicerces familiares como também a maneira que aquela criança e jovem vai adotar para se relacionar com o restante do mundo quando decidir sair de seu nicho.

É ali que começamos a desenvolver padrões ou meios de nos relacionarmos com as demais pessoas e é através dessas relações interpessoais construídas em nossos lares que nós, mulheres, temos nossos primeiros contatos com aquilo que consideramos sadio, aceitável, agradável (ou não) em um relacionamento com outra pessoa. Mas o que acontece quando essa compreensão do que é “bom” ou “ruim” é falha? O que ocorre a nós quando nossa compreensão de valor é invertida devido a figuras masculinas autoritárias? É nesse cenário conservador e considerado “dentro do padrão” que temos contato com a nossa primeira figura masculina.

O Pai  —  Proteção ou poder? 

No dicionário Michaelis encontramos diversas definições para o termo pai. Entre muitas, a figura paterna aparece como sinônimo de autoridade, chefia e poder, como podemos observar nas definições:

“Homem que gerou um ou mais filhos em relação a estes; genitor; homem colocado no primeiro grau da linha ascendente de parentesco. Benfeitor, protetor. Criador, fundador. Chefe da casa ou do grupo doméstico, haja ou não filhos.”

Nesse momento é importante notarmos que a figura paterna configura valores que somos ensinadas socialmente a admirar e buscar em companheiros. Valores como proteção, preocupação e amor que até certa idade são de fato fundamentais para o desenvolvimento de uma criança ou adolescente, mas que, após certo tempo, passam a se confundir e abrir espaço para o controle excessivo, autoritarismo e desrespeito. A ideia social de família como a coisa mais preciosa na vida de alguém ou como o ciclo social disposto a fazer “qualquer coisa” pelo seu bem se transformam em argumentos e defesas para subsequentes ações de abusos físicos e psicológicos realizadas comumente em nome não do amor e preocupação, mas sim do poder que um homem (pai ou padrasto) pode exercer na vida de uma mulher.

É natural que exista uma confusão e dificuldade de distinguir o que seria proteção de um pai preocupado e o que seria mais uma amostra de machismo e poder dentro de casa, e para conseguirmos distinguir isso precisamos ficar atentas as mais diversas pistas e é preciso também, acima de tudo nosso autoconhecimento para compreendermos o quanto o comportamento de uma pessoa que (deveria) ser querida para nós, pode na verdade estar sendo tóxico e prejudicial para nossa formação como mulheres.

Respeito é diferente de medo. E poder não é amor.

O autoritarismo da figura paterna pode configurar inúmeros problemas, dentre eles o medo da adolescente ou mulher de impor suas vontades diante das mais diversas situações. Isso acontece quando, durante anos, somos silenciadas e ensinadas a “respeitar” a vontade de um “superior” dentro de um lar. Eu realmente acredito que devemos sempre respeitar as pessoas mais velhas, afinal elas viveram mais que nós, quase sempre tem mais sabedoria e vivência ou vivências que nós jamais poderemos ter, são pessoas que têm muito a nos ensinar. Mas precisamos ter cuidado para não confundirmos o respeito com o medo.

Quando temos a imagem de um homem ou mulher, nossos pais, e admiramos aquelas pessoas mais velhas que nos inspiram e nos oferecem amor, automaticamente desenvolvemos um respeito por essas pessoas e assim tentamos de alguma forma não desagradá-las com o que fazemos, consultá-los para tomar decisões importantes, comunicar a respeito de mudanças de rotina, escolhas de vida, relacionamentos, amizades etc. Mas dentro dessas atitudes que parecem normais é necessário que haja um limite de intervenção e esse limite deve ser estipulado e compreendido por todos o mais cedo possível ou as consequências psicológicas para a filha em questão quando ao se tornar adulta podem ser devastadoras.

Dentro dessa perspectiva é necessário que um lar e uma relação principalmente de pai e filha seja pautada em respeito e diálogo. A convivência e afeto não podem e nem devem se tornar tóxicas. Quando pensamos em uma mulher, por exemplo, adulta e heterossexual as marcas de um relacionamento abusivo com seu pai ou pais durante a infância e adolescência podem ecoar por toda a sua vida, em seus relacionamentos de amizade ou romance, e aí que se encontra o perigo. A compreensão de que pessoas que você ama gritam e lhe desrespeitam em nome do “amor” pode ser poderosa e permear por anos em sua mente, e conseguir deter isso é fundamental. Não permitir que essa ideia se arraste para relações afetivas e amorosas, detectar abusos paternos e dialogar para pará-los é um trabalho árduo, muitas vezes doloroso, porém necessário para uma vida com mais respeito e felicidade.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • Dani

    Adorei teu texto Fabiana, infelizmente consegui me identificar.
    Apesar de considerar meu pai a melhor pessoa do mundo, reconheço as falhas.
    Nunca tivemos diálogo, sempre repreensão. “Que feio uma guria beber” “Guria não pode sair sozinha a noite” “Que vergonha pra família tu chegar nesse estado”
    O mais difícil, é fazê-lo entender do erro, pois muitas vezes comparo esse tratamento que me era submetido, com o que meu irmão recebe, e mesmo assim ele não compreende.

    • Fabiana Pinto

      Oi querida, muito obrigada pelo comentário e que bom que se identificou pois assim construímos juntas formas de dialogar e melhorar essas relações e nossa saúde mental.
      Abraço!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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