9 de junho de 2014 | Edição #3, Ensaio fotográfico | Texto: | Ilustração:
Quem manda em nossos corpos?
Por Helena Zelic

A rapper Luana Hansen diz, em uma de suas músicas, que “lutar pela legalização do aborto é lutar pela saúde da mulher”.

As mulheres, organizadas em grupos feministas, vêm lutando há anos pela legalização do aborto. É por que as feministas são malvadas e querem matar bebês? É por que as feministas só pensam em si mesmas? É por que as feministas são umas loucas sem coração?

Não. É porque o direito à escolha sobre o próprio corpo é algo que deve ser assegurado a todas. É porque não queremos mais mulheres morrendo por terem que apelar para abortos inseguros, clandestinos, que muitas vezes levam à morte. Queremos poder escolher, e mais: queremos que haja atendimento legal por todo o país, de forma acessível.

Mas a situação hoje é diferente. O aborto é legalizado até a 20ª semana de gestação em casos de estupro, risco de vida à mulher ou se o feto for anencéfalo. Não é tudo o que queremos, mas já é um avanço. Porém, das 5.570 cidades do país, apenas 65 possuem atendimento. Isso exclui realmente muitas mulheres, torna o aborto possível apenas para quem está perto das tais cidades e, ainda, quem tem informação sobre o assunto.

Os direitos das mulheres passaram por uma reviravolta nas últimas semanas. A deputada Iara Bernardi (PT) fez o projeto de lei que tornava obrigatório o atendimento adequado para aborto legal – nos casos já citados – em toda a rede SUS. Isso foi aprovado em 2013. No último 22 de maio, tornou-se oficial a portaria 415/2014, que inclui o serviço do aborto legal no SUS, com um repasse de R$443 a cada operação.

A lei foi aprovada. As feministas vibraram. Mas, em questão de uma semana, setores religiosos pressionaram fortemente pela revogação da lei. O ministro da saúde bambeou as pernas e fez tal vontade.

Acho que o ponto não está exatamente na religião. Não queremos que, com a legalização, todas as mulheres do mundo abortem e odeiem deus (qualquer que seja ele). Como já disse: queremos poder escolher. Por uma questão de autonomia das mulheres e também de saúde pública. O aborto diz respeito às mulheres, e nós, organizadas, é que devemos ter voz sobre o que nos diz respeito.

Estivemos, eu e Gabriela Sakata, no ato pelo aborto legal, na Praça da Sé, em São Paulo. Estava meio vazio, pela greve dos metroviários (a greve é justa, não estou falando mal), mas deu para marcar presença e para registrarmos alguns momentos. As fotos estão aí embaixo.

Vale lembrar que no Uruguai, nosso país hermano, o aborto é legal em qualquer situação, desde que não ultrapasse a 12ª semana de gestação. Em um ano, ocorreram 6.676 abortos seguros. Nenhuma mulher morreu. Que nos sirva de exemplo.

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Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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