4 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Quem tem medo de bruxa?
Ilustração: Dora Leroy.

Quando ainda era criança – há muito tempo, já que do alto dos meus 25 anos sou praticamente uma anciã nos escritórios virtuais da Capitolina –, minhas paixões resumiam-se a galáxias distantes, dinossauros e, principalmente, bruxas. O segredo para conquistar meu pequeno coração era um chapéu pontudo e um caldeirão cheio de coisas esquisitas. Magia sempre foi fonte de absoluto fascínio. E, como todo fruto dos anos 90, minhas referências eram as meninas fantásticas de W.I.T.C.H., a Sabrina, o Mágico de Oz e, óbvio, meu amor eterno e verdadeiro, Harry Potter. Mas conforme fui crescendo, aprendi que o universo da feitiçaria não se restringe à cultura pop. A fábula das bruxas de carne e osso tem menos abracadabra e mais sofrimento.

Para entender essa história, precisamos voltar bastante no tempo. A atração e o medo provocados por encantamentos não são novidade na trajetória do Ocidente. Documentos da Antiguidade Clássica (vai mais ou menos do século VIII a.C. até o século V d.C.) que sobreviveram ao tempo mostram que magia era um crime passível de punição na Grécia e na Roma antiga, ainda que bruxas fossem abundantes nas mitologias dessas sociedades. Os gregos falavam de Circe, de Hécate e das três Moiras, divindades femininas associadas à feitiçaria. Elas sempre estiveram por perto, ocultas nas sombras, manifestando seus poderes nas histórias transmitidas de mãe para filha e eternizadas em nossas tradições.

Bruxas também eram mencionadas de forma nada afetuosa tanto no Velho como no Novo Testamento da Bíblia. Com a cristianização dos povos, o cerco começou a apertar para nossas feiticeiras: práticas de culturas pagãs foram conectadas ao demônio, ritos de populações nativas foram proibidos, um véu de superstição e medo cobriu os olhos de muita gente. Mas foi só a partir do fim da Idade Média e início da Moderna, no finalzinho do século XV, que a situação se complicou. Foram construídas as bases para o pânico e a histeria de massa que resultaram em um genocídio e um feminicídio.

No início, a caça às bruxas foi feita paralelamente à perseguição a outros grupos acusados de heresia: Cátaros, Templários, homossexuais e um monte de gente que ia de encontro aos ideais da Igreja. Depois, o fenômeno ganhou vida própria e tomou proporções assustadoras. O estereótipo da bruxa praticante de magia negra que faz pactos com o diabo e come criancinhas se espalhou como fogo de palha, e tal fogo levou consigo as vidas de várias pessoas. O papa Inocêncio VIII deu a autorização para que a Inquisição fizesse o que fosse necessário para se livrar das feiticeiras, enquanto o monge Heinrich Kramer escreveu O martelo das bruxas, ensinando juízes a reconhecê-las, torturá-las e condená-las. Se a mulher não chorasse durante o brutal interrogatório, era automaticamente culpada.

O período ficou conhecido como The Great Witch Craze, que significa algo como “a grande histeria das bruxas”. E histeria é a palavra certa. Estima-se que quase 50.000 pessoas tenham sido condenadas à morte, embora alguns especialistas digam que os números devem ser ainda maiores. O historiador Robert Thurston acredita que 85% das vítimas eram mulheres. Ainda que existissem alguns acusados do sexo masculino, é impossível negar o caráter misógino da caça às bruxas. O pânico está ligado à estigmatização da mulher: falava-se do poder feminino, da maldade feminina, identificados especialmente naquelas mais velhas que viviam fora dos parâmetros da sociedade patriarcal. Há um trecho bem famoso do livro O martelo das bruxas que demonstra perfeitamente essa relação. Traduzimos para vocês: “Nenhuma maldade pode ser comparada à maldade de uma mulher… O que mais seria uma mulher além de uma inimiga da amizade, uma punição inescapável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um prejuízo deleitável, um mal da natureza pintado de cores atraentes.”

Um dos casos mais notórios da época aconteceu nos Estados Unidos, em 1692, quando o país ainda era uma colônia da Inglaterra. Em Salém, Massachusetts, a filha de um reverendo ficou severamente doente, tendo convulsões, produzindo sons incompreensíveis e agindo de forma agressiva. Outras meninas da região logo apresentaram os mesmos sintomas. Sem encontrar uma explicação plausível, os protestantes apelaram para o sobrenatural: bruxaria. As principais acusadas foram três mulheres. Elas eram uma pedinte, uma idosa pobre e uma escrava de etnia misteriosa chamada Tituba. As duas primeiras alegaram inocência, mas Tituba confessou e supostamente plantou a semente da paranoia na região, dizendo que havia muitas outras bruxas espalhadas por Massachusetts, prontas para derrubar os Puritanos. As três mulheres foram presas e dezenas de pessoas foram interrogadas. Vinte foram enforcadas em Gallows Hill.

Diz-se que o depoimento de Tituba foi o estopim para o pânico de Salém, mas ninguém conhece sua versão da história. Historiadores acreditam que a mulher confessou após ter sido espancada pelo reverendo Parris, a quem servia. A confissão também a livrou da sentença de morte, sendo uma das poucas sobreviventes do julgamento. Mais tarde, Tituba se retratou, alegando ter mentido. O juiz Samuel Sewall também admitiu que suas sentenças foram um erro. Rumores, superstições, questões políticas, preconceito étnico, misoginia e fanatismo religioso parecem mais prejudiciais do que a tão temida magia negra.

A caça às bruxas ainda acontece em algumas regiões do mundo, como a África Subsaariana, o norte da Índia e Papua-Nova Guiné. Contudo, depois de 1700, a perseguição foi drasticamente reduzida no Ocidente. Hoje, quando falamos de feiticeiras, pensamos nas adeptas da Wicca, do Xamanismo ou do Druidismo, religiões pagãs que pregam a comunhão com a natureza. As bruxas modernas são herdeiras de tradições fascinantes transmitidas através de uma história manchada de sangue, tudo isso graças ao medo do desconhecido. A fotógrafa Katarzyna Majak encontrou algumas dessas mulheres na Polônia e capturou suas essências em lindos retratos.
03 bea, the one who listens to the woods, from women of power seriesFonte da imagem
01. maria, a healer and a visionary, from women of power seriesFonte da imagem

Não faltam momentos de horror na história da nossa civilização, e tudo que podemos tirar do passado cruel é o aprendizado. O ser humano tende a dominar aquilo que não entende, costuma condenar aquilo que não conhece. Seu julgamento é imediato e implacável. Mas há muito a ser descoberto através do contato com o outro, se estivermos dispostos a ouvir. Acredite você em feitiçaria ou não, o essencial é respeitar nossas crenças individuais e perceber que o mundo é muito mais complexo e heterogêneo do que pensamos. E isso o torna mágico por si só.

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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