26 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: e | Ilustração:
Quem tem medo de… filme de terror?
Ilustração: Bárbara Fernandes.
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Texto de Julia Oliveira e Isadora Carangi.

Por que alguém gostaria de dar gritos de horror e pular do sofá derrubando pipoca no chão? Por que o prazer em se sentir aterrorizada? Ok, não temos a pretensão de chegar a uma resposta para essas perguntas… Mas vamos tentar encaixar algumas peças deste quebra-cabeça.

Os filmes de terror começaram a ganhar espaço na década de 20, ou seja, logo após o término da Primeira Guerra Mundial. Depois de quatro anos de horror real, com o clima mórbido e de morte ainda muito presente, a sociedade pareceu desenvolver um certo apreço pelos filmes de terror. Ao mesmo tempo que era algo próximo às pessoas, com o qual podiam se identificar, colocava o horror também como algo distante, ficcional. Por outro lado, podemos nos perguntar: cara, quatro anos de terror puro e a pessoa quer uma pitada a mais? Mas o terror real é uma coisa, o que a gente vê no filme é outra… É como mergulhar na água fervendo sem se queimar.

Grandes pioneiros (ou assim considerados por muitos) do gênero foram os alemães. Após serem derrotados na guerra, com um governo um tanto quanto instável e alto grau de violência nas disputas entre movimentos políticos, o povo alemão provavelmente não estava nada feliz. Nesse contexto nasce o expressionismo alemão e, dentro dessa corrente, o filme Gabinete do Dr. Caligari é um tem-que-ver, cheio de atributos tipicamente expressionistas, como o cenário incrível, atuações exageradas, preto e branco, muitos contrastes… O filme teve seu final modificado a pedidos das autoridades alemãs, que o consideraram “demasiado sombrio” ou algo do tipo, mas correm boatos que, na verdade, foi porque o filme continha uma crítica ao Estado alemão.

Aquele ditado “a curiosidade matou o gato” poderia ser “a curiosidade matou uma pessoa”, mesmo que não soe tão bem, porque sim, somos uma espécie de bicho muito curiosa, mas não podemos saber tudo, não é mesmo? E essas coisas desconhecidas, até místicas, causam grande fascínio em grande parte de nós. Fantasmas, espíritos, fatos inexplicáveis que se tornam lendas de monstros e, claro, a morte são ingredientes de inúmeros filmes de terror. Nas décadas de 1920 e 1930, monstros e lendas foram bastante explorados pela indústria cinematográfica com os clássicos Nosferatu, de Murnau, inspirado no romance Drácula, de Bram Stoker, e Frankenstein, de James Whale, baseado no romance de Mary Shelley que leva o mesmo nome.

Com o passar do tempo parece que os filmes de terror passaram a focar-se mais em medos mais próximos de nós, como assassinos em série, o que de maneira alguma significou abandono dos espíritos, monstros, vampiros e zumbis. Por exemplo, na década de 1950, aproveitou-se o tema da era atômica em diversos filmes, que desviavam para o gênero de ficção científica, o que trouxe ao mundo Godzilla. O monstro nascido de uma explosão atômica é a personificação do medo que se tinha dessa nova e incerta ciência e de que um desastre atômico assolasse todo o planeta.

Nos anos 1960 começa o que muitos chamam de a “era de ouro” do cinema. Nessa década nasce aqui no Brasil o personagem “Zé do Caixão”, interpretado pelo próprio diretor do filme, José Mojica Marins, que viria a se tornar uma referência dentro do gênero terror no cinema brasileiro e que caminhou um pouco pro lado do cinema trash (logo mais a gente explica melhor isso). Nesta década se consagra também um outro grande diretor, considerado o “mestre do suspense”: Alfred Hitchcock. Inovando nos enquadres e posições de filmagem, ele também passa a trazer o espectador para o filme quando, por exemplo, mostra mais da trama a quem assiste do que ao próprio personagem, isso é, há coisas que o espectador sabe que o personagem não. Hitchcock, como bom mestre do suspense, sabia que não só imagens podiam instigar nosso medo e também trabalhava muito bem as músicas de seus filmes (acho que ninguém vai esquecer a musiquinha da cena do banheiro de Psicose).

Em termos de música assustadora, podíamos premiar um tal compositor chamado Béla Bartók (gente, dão muito medo, de verdade, umas composições que ele faz!), que emprestou uma de suas músicas ao filme O iluminado, de Stanley Kubrick. Sim, sim, sim, chegamos a um dos pontos altos da história de um dos subgêneros do terror: o terror psicológico. Esses filmes exploram situações desconfortáveis e perturbadoras para a mente humana e, em vez de dar um susto aqui ou ali, é a tensão crescente no espectador que produz medo. Bom, agora parece que os medos retratados nos filmes estão ainda mais próximos de nós (eita, sai pra lá, satanás! Digo, mente!)!

E uma perguntinha: por que terror psicológico? Não há resposta certa pra isso, mas você consegue pensar em algo mais fascinante que nossas cabecinhas, esse buraco negro cheio de potencial? Quem não teve a curiosidade de entrar na mente de outra pessoa alguma vez? Talvez de um psicopata? Quão interessante pode ser acessar áreas de nossa mente que costumam ser abandonadas ou não usadas a pleno? Conhecer e testar os pontos fracos de nossa mente e, assim, quem sabe, desarmar certos medos? Ok, talvez tenhamos ido um pouco longe demais, mas por que não?

Também há uma categoria de filmes que surgiu sem intenção e se tonou muito popular principalmente nos anos 1980: o terror trash. “Trash” significa “lixo” em inglês. Esse tipo não definido de filme surgiu quando uma galera sem grana, mas com criatividade de sobra, resolveu botar em marcha um projeto cinematográfico de terror. Sem dinheiro para grandes produções o filme acaba por tornar-se meio tosco, porém muitos conseguem apropriar-se dessa característica e fazer algo realmente genial, até mais do que filmes que se propõem a serem mais “sérios”. De uns tempos para cá o subgênero passou a ser explorado também por produções mais abastadas, mas que preservam ainda o que poderiam ser consideradas suas características principais: efeitos especiais de quinta, litros de sangue falso e, de maneira geral, a construção de um filme que mira o terror mas acerta na comédia.

É claro que tem gosto pra tudo e, assim como tem gente que odeia filme romântico, também tem gente que não suporta filme de terror. As próprias autoras deste texto têm opiniões divididas nesse quesito!

Julia ficou traumatizada quando, aos 11 anos de idade, viu O chamado, seu primeiro filme de terror, bem no dia do Halloween. Ela só conseguiu dormir em completa paz de espírito oito anos depois, quando foi morar sozinha, por isso não concebia como alguém podia ser tão corajoso a ponto de gostar de sentir medo – ou ser imune ao medo. Fato é que há um tempo ela tem visto alguns filmes de terror e percebido que nem todos são tão do mal. Os japoneses e com temáticas sobrenaturais continuam soltando sua bexiga, mas os filmes trash e aqueles que são mais suspense que terror passam pela peneira e são até agradáveis. Ou seja: há esperança pra você, medrosa de plantão! Você não é obrigada a gostar de nada, obviamente, mas Julia gostaria de ter sido menos descontrolada a ponto de não ter que abandonar um rolê com os amigos porque ele incluía ver filmes de terror.

Isadora desde criancinha já via filme de terror, pois sua mãe os assistia e a pequena Isa gostava de vê-los com ela. Seu primeiro trauma de filme de horror foi com Chucky: brinquedo assassino. Ficou três dias achando que o boneco ia sair de seu baú de brinquedos. Na infância, seu filme preferido era O estranho mundo de Jack, de Tim Burton (xodó dela). Ela revê o filme até hoje, porque além de tudo acha stop motion de massinha a coisa mais linda e mágica do mundo.

Assim, desde pequenina curte essas paradas mais “sombrias”, mas nunca tinha questionado o porquê disso. Quando começou a tentar desenvolver esse porquês se pegou pensando algo na linha de: “O mundo é sombrio, há horror e medo dentro de nós, seria bom aprender a apreciar isso de alguma maneira…” Não, não era bem isso, mas talvez passasse por aí. Hoje em dia já não sabe dizer o motivo. Simplesmente ela se diverte sentindo medo e até chora de rir em muitos que nem são assim tããão trash. Agora, para ver um filme mais de terrorzão psicológico não é qualquer dia que rola para ela: tem que estar preparada, com os nervos firmes.

No final, talvez o que Isadora busque com esses filmes é se sentir sacudida, sair um pouco daquela (ás vezes) tão tediosa zona de conforto. Mesmo que seja só no psicológico, no ficcional, mesmo que seja para entrar na água fervendo sem se queimar (só um pouquinho, porque afinal todo filme te deixa uma marca, mesmo que pequena). Claro que isso também pode rolar com filmes de outros gêneros, mas por que não os de terror?

Passamos agora da relação das espectadoras com o gênero do horror para as personagens femininas que se encontram nele. Já chamamos atenção aqui na Capitolina para a baixa representatividade da mulher no cinema de modo geral, mas as personagens femininas que resistem no terror costumam se encaixar em alguns estereótipos, o que é muito comum em filmes de apelo mais popular: elas podem ser espíritos vingativos, corpos possuídos pelo demônio, vítimas frágeis que tremem ao som do próprio arroto ou heroínas badass que entortam cano de espingarda.

É com o espírito dessa heroína badass que entramos em uma pequena lista de recomendações pra você se aventurar nesse universo tenebroso – ou maravilhoso, depende do ponto de vista. Prepara pipoca, coberta, amigos, bichos de pelúcia e vem:

  • O Gabinete do Doutor Caligari
  • Nosferatu
  • Os Outros
  • O Iluminado
  • O Silêncio dos Inocentes
  • Psicose
  • Violência Gratuita
  • A Meia Noite Levarei Sua Alma
  • Drácula de BramStoker
  • O Mistério das Duas Irmãs
  • O Amigo Oculto
  • O Chamado
  • O Grito
  • Horror em Amityville
  • O Exorcismo de Emily Rose
  • Constantine
  • REC
  • Alien, o 8º Passageiro
  • Tubarão
  • Planeta Terror
  • Braindamage
Isadora Carangi
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Essas coisas de apresentação me deixam um pouco travada, mas: me chamo Isadora, na Capitolina tem várias, eu sou a Carangi ou Cheddar (longa história) nasci em São Paulo, mas atualmente moro em Buenos Aires, onde estudo design gráfico dentre outras cositas más nas quais vou tropeçando e acho legais :)

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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