8 de outubro de 2015 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Quem vem lá festejando? Maracatu: Patrimônio imaterial do Brasil!

Reis e rainhas tomam as ruas no Carnaval. O estandarte abre os caminhos altivo e a dama do paço brinca primeiro, deslumbrante nas roupas e gestos. Ela não vem só. Traz consigo a calunga, que pode parecer apenas uma boneca, mas é um símbolo de resistência, ancestralidade e fé. Já sabe o que vem aí? Isso mesmo! Vamos falar de Maracatu, essa festa que tem muito de luta, e se cerca muitos mistérios. Começando pela própria palavra!

O termo maracatu não tem uma origem definida, embora se especule algumas possibilidades. Uma das versões aceitáveis é que seja uma onomatopeia do som dos tambores que embalam a numerosa corte brincante. Dançam rei, a rainha, a dama de honra da rainha, a dama de honra do rei, o príncipe, a princesa, o ministro, o embaixador, o duque, a duquesa, o conde, a condessa, os vassalos, as damas de paço, o porta-estandarte, o escravo, os animais, o guarda-coroa, o corneteiro, a baliza, o secretário, os lanceiros, o brasabundo, os batuqueiros, as baianas e os caboclos de pena. Mas por que uma corte? Segundo muitos historiadores, os desfiles de maracatu eram antes festas que celebravam a coroação do Rei Congo – uma forma que os colonizadores portugueses encontraram de apaziguar os povos negros escravizados, nomeando figuras administrativas entre eles. Esse ato, que em primeira instância homogenizava a diversidade étnica que aqui se encontrava, foi apropriada lindamente pelos escravizados como ato de resistência, consciência política e louvor aos seus ancestrais (orixás cultuados na Jurema, Candomblé e Xangô Pernambucano).

Se o nome e a origem da festa tem muitas versões, de onde ela vem sabemos direitinho: Pernambuco. De lá o folguedo se espalhou por todo Brasil tomando novos ares e se incorporando às culturas locais. O maracatu é uma manifestação cultural afro-brasileira que mistura perfeitamente dança, performance musical, teatro, rito religioso (sendo alvo de muita intolerância por isso) lindo de se ver!

Um fato interessante é que esse nome pode ser dado a muitas manifestações de formato e evolução diferentes. O que apresentamos aqui é o maracatu de baque virado ou nação. Ser uma nação não é apenas reunir-se grupo. Envolve muitos sentidos especiais, além da compreensão racionalizante. Aliás, há muitas discussões sobre o que seria uma nação de maracatu (geralmente integrada por pessoas negras) e grupos percussivos (voltados para o ritmo, sem cortejo/definições de funções ou com versões dos papéis originais, na maioria formados por jovens brancos e de classe média. Alguns dirão que essa divisão é um purismo. Mas é importante colocar isso em debate! Vemos muitos desfiles nos eixos Rio-São Paulo com poucos ou nenhum integrante negro e mensalidades inacessíveis a grande parte da população. De que maneira isso, de fato, preserva a cultura popular? Ou estaríamos transformando essa cultura em um tipo de consumo elitista? São muitos pontos a se pensar. Nações famosas como Estrela Brilhante do Recife, Estrela Brilhante de garassu, Leão Coroado, Chão de Estrelas, Elefante, Sol Nascente levantaram bandeiras importantes contra o racismo, intolerância religiosa, a homofobia, lesbofobia e transfobia.

Em 2014, o Maracatu de Baque Virado foi nomeado patrimônio imaterial brasileiro e a importância disso é imensa! Registrar essas expressões é essencial para que o que é produzido cotidianamente nesses grupos não se perca. Também é necessário incentivar e garantir que os tradicionais brincantes continuem a realizar sua festa, não “engessando” a expressão e valorizando a pluralidade. Afinal, essa força tem que estar nas ruas! Vivendo! Viva o Maracatu do Baque Virado! Viva a resistência negra no Brasil!

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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