21 de outubro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Quem você quer ser hoje?

O primeiro jogo de simulação com que tive contato foi Sim City. Eu simplesmente adorava ver a cidade ir crescendo e começando a se tornar funcional, mas não tanto quanto eu gostava de ser a responsável por aquilo. Eu não devia ter mais do que 10 anos e controlava uma cidade! Tinha pena do meu pai, que era síndico do nosso condomínio, mas não parecia ter a metade da diversão que eu tinha com aquele jogo dentro de uma máquina que – eu ainda não sabia – viria a se tornar presente em diversos aspectos de minha vida.

Um pouco depois, descobri o Flight Simulator, não lembro exatamente como, mas deduzo que através de meus primos. Pilotar um avião era legal, mas eu nunca me entendi muito bem com essa coisa de controles invertidos. Para cima é para baixo, para baixo é para cima. Até hoje perco as corridas de Sonic & All-Stars Racing Transformed quando tem fase aérea. De todo modo, parecia bem realista. Eliminou qualquer possível vontade que eu pudesse vir a ter de ser piloto da aeronáutica.

Há certo tempo estourou uma febre de jogos de simulação e tudo que eu via na minha Steam eram ofertas de jogos como Euro Truck Simulator e Goat Simulator (porque, afinal, quem não quer saber como é ser uma cabra?) e isso me levou a refletir sobre qual é a dessa fascinação que temos por simulações.

Ainda mais recentemente o Second Life, que iniciou como uma das maiores pirações sci-fi da tecnologia, retomou o projeto que estava morrendo com a inclusão de tecnologia de realidade virtual. Apesar de também ser piração, a remodelação do projeto me pareceu ter uma lógica a respeito da evolução tecnológica e a relação que costumamos ter com simuladores.

Eu sou amante de ficção científica em todos seus formatos – livros, filmes e games – e talvez estes referenciais me induzam a determinadas especulações do caminho que o Second Life decidiu percorrer.

Com a inclusão de suporte ao Oculus Rift, foi quase impossível não pensar no conto do Philip K. Dick, “Podemos recordar para você por um preço razoável”, que originou o maravilhoso filme O vingador do futuro (Total Recall, 1990) com o Arnold Schwarzenegger (não vi o remake, gente, desculpe!).

Voltando aos meus 10 anos e minha experiência com Sim City como exemplo, o que nos atrai a simuladores é a possibilidade de viver algo, mesmo que virtualmente, que não é possível ser vivida na nossa realidade física. Ser outra pessoa, seja um caminhoneiro com uma garagem na Alemanha, um piloto de avião ou até mesmo uma cabra!

Com tecnologias de realidade virtual, essa simulação fica um pouco mais próxima de uma experiência real e, assim como a Lúcia de 10 anos não tinha noção de como aquela tecnologia influenciaria a Lúcia de vinte e poucos, não temos como saber como estas novas tecnologias nos influenciarão no futuro.

Um programa de simulação de vida alternativa, como o Second Life, não está tão distante da inserção de memórias do conto de Phillip K. Dick. Ambos se baseiam numa mesma premissa: viver outra vida.

A história de Dick é tão marcante no universo sci-fi que além das adaptações de cinema, ganhou referência no game Shadowrun Returns, no qual pessoas ficam viciadas em uma tecnologia de simulação de memórias até alcançarem um estágio de zumbificação.

Sei que agora quem tá na piração sou eu, mas vamos ser sinceros, se já é sofrido ficarmos longe dos nossos celulares, é realmente tão difícil imaginar uma dependência a simulações de vidas que podem ter o melhor de uma vida real sem ter o pior? Fica a reflexão.

E agora que já disseminei minha paranóia socio-tecnológica, deixo vocês com o Arnoldinho. <3

 

Lúcia Dos Reis
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Colaboradora de Literatura

Lúcia dos Reis, pequena em tamanho e gigante em ambições. Não sabe se isso é bom ou ruim, mas tampouco se importa. Vive entre letras e códigos, entre o papel e o pixel. Ganhou aplausos na FLIP 2015 com comentário feminista sobre Star Wars e queria deixar isso registrado em algum lugar desse mundo maravilhoso das interwebs.

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