8 de outubro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Bárbara Carneiro
Questão de valor

A competição não nasce e morre dentro de suas arenas. Ou, melhor dizendo, não é só dentro de estádios de futebol, quadras de tênis e campos de golfe que acontecem premiações e pódios para os atletas. Todos os anos, listas com os atletas mais bem pagos do mundo são divulgadas e eu decidi dar uma olhada nelas.

O interesse, já explico, não veio do nada. E vale até contar o que acontece nos vestiários da editoria de Esportes aqui da Capitolina. Começou com uma conversa entre mim e Carolina sobre uma foto no Instagram do jogador do Paris Saint-German, o brasileiro Lucas Moura. Será que ele aparecer ao lado de Cristiane e Érika ajuda a fortalecer o futebol feminino, deixa tudo na mesma ou atrapalha, pela associação com um homem quando o assunto é futebol com mulheres? A partir daí surgiu a vontade de tratar sobre a diferença na valorização dos atletas por seus gêneros.

Atletas profissionais, como o próprio nome indica, trabalham “apenas” com seus esportes. A gente sabe que a Marta já foi reconhecida muitas vezes como a melhor jogadora do mundo, mas isso, por algum motivo, não a coloca no mesmo patamar que o Neymar, por exemplo, em termos de apelo comercial. A gente pode, e eu pessoalmente aprovo, romper com essa mania de rankear tudo o tempo todo. Nada menos produtivo do que uma discussão de quem é melhor: Messi ou Cristiano Ronaldo, Pelé ou Maradona. Mas não é por eu não gostar desse foco em suas personalidades que o mundo deixa de valorizá-las e, inclusive, capitalizá-las. Esse é o ponto aqui.

Se Ronda Rousey treina pesado e está até hoje invicta no octógono do UFC, por que ela recebe tão menos do que os competidores homens? Estima-se que por uma vitória em uma luta que durou apenas 34 segundos, Ronda recebeu US$ 120 mil (cerca de R$ 480 mil). Na mesma noite, dois homens lutaram na mesma modalidade e o campeão ganhou US$ 450 mil, (cerca de R$ 1,8 milhão) e o perdedor ainda saiu com US$ 200 mil, ou seja, aproximadamente R$ 800 mil. Se as esportistas que são consideradas as melhores em suas modalidades recebem menos dinheiro do que seus colegas homens, imaginemos as que não chegaram a esses patamares.

Na lista de atletas mais bem pagos do mundo, a primeira mulher aparece apenas na 26ª colocação, e se trata de Maria Sharapova, do tênis. Acima dela, estão três tenistas homens. Mas não se trata apenas de dizer “paguem mais às atletas!”, e sim entender que isso não apenas se reflete em suas contas bancárias. Isso está no cinema e no resto do mundo do trabalho. No ambiente dos esportes profissionais, as mulheres serem menos valorizadas do que os homens reflete no interesse geral por suas modalidades e pela possibilidade de elas conseguirem patrocínio e estrelarem campanhas publicitárias.

Em meados dos anos 1990, o jogador mais famoso da liga americana de basquete, Michael Jordan, esteve em um comercial na televisão junto com a jogadora de futebol Mia Hamm. É interessante ver como a campanha não desqualifica nenhum dos dois e os coloca como atletas de alto rendimento, em que um desafia o outro em diferentes modalidades. Muito se diz de como essa campanha ajudou a dar visibilidade ao futebol feminino no país, onde o esporte é bastante praticado por garotas.

Estamos absolutamente acostumadas com propagandas com ícones dos esportes reunidos, mesmo aqueles que nunca tínhamos visto antes. Por que parece tão difícil colocar homens e mulheres no mesmo patamar, na mesma narrativa sobre vitória ou superação? Dias atrás foram Cristiano Ronaldo e Marcelo que apontaram quem é a boa no rolê. O problema talvez seja que para ser mulher, atleta e ser valorizada com igualdade não é suficiente ser boa, e sequer basta ser apenas a melhor.

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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