1 de outubro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração:
Quilombo mulheres negras – uma ação identitária

“Numa sociedade multirracial, racista, de hegemonia branca, o ‘a posteriori’ se produz no momento em que o negro enfrenta peito a peito as condições concretas de opressão em que está imerso. A mulher negra se empodera quando seus questionamentos são enfrentados e a condição de opressão mostra-se evidente e pronta para ser derrubada.” (SOUZA, 1983).

Esse texto segue com uma trajetória biográfica. É praticamente impossível nessas linhas falar de empoderamento da mulher negra sem olhar a minha própria história, que já uma outra história.

A palavra empoderar é usada com uma certa demanda, contribuindo para que sujeitos vejam seus processos de vida como lugares sociais de reexistência, formação e desconstrução de estereótipos.

A função empoderar está no quotidiano paulatino de muitas mulheres negras, que por situações adversas da estrutura da nossa sociedade.

O ato empoderar-se vem de costuras intrínsecas desde o falar até o olhar, construído pelas mulheres negras da família.

Aliadas às linhas do tecido, um fervor subia nos cabelos de várias mulheres negras da família, o que deixava os fios retos, paralelos ao rosto. O forma e fôrma de alisamento dos cabelos crespos foram percepções que muitas pessoas têm até hoje: cabelo ruim.

A desconstrução dessa lógica é processual e dolorosa. Isso sem falar de outras relações pejorativas vinculadas ao sujeito negro.

Ao encontrarmos pessoas que se identificam com essas relações, temos um sentimento de pertencimento e sororidade que aguça.

Bell Hooks (2005) feminista norte-americana, levanta algumas questões no texto “Alisando o nosso cabelo”, as quais:

Em uma cultura de dominação e anti-intimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nós mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que frequentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração. (HOOKS, 2005, p. 8)

Nessa luta quotidiana, encontrar lugares os quais sejam potencializadores para um reconhecimento e afirmação de si mesmo são fundamentais para ir de embate ao que já está imposto, construído e naturalizado.

Já nas Artes Visuais, estudos sobre a mulher negra são encontrados, por exemplo, em obras de arte de artistas como Albert Eckout, que retrata a mulher negra de forma exótica, diferente do padrão europeu, mais à frente nas pinturas de Di Cavalcanti, ressaltando a mestiçagem através da mulher “mulata”, uma forma sexualizada de retrato da mulher negra brasileira, cujo imaginário sensual permeia o quotidiano atual.

Mulher  Africana por Albert Eckout, 1644

Mulher Africana por Albert Eckout, 1644

Mulatas por Di Calvacanti, 1927

Mulatas por Di Calvacanti, 1927

Desconstruir esses conceitos, naturalizados socialmente, é um processo que precisa desconstruir toda linha histórica oficial. Pelo viés das Artes Visuais, a artista plástica Rosana Paulino discute através do corpo das amas de leite, o quanto o corpo dessas mulheres era apenas utilizado para o olhar do cuidado dos filhos dos senhores dos escravizados.

Ama de leite por Rosaria Paulino, 2005.

Ama de leite por Rosaria Paulino, 2005.

Ter esses espaços de potência, no qual essas mulheres  se aproximam do conceito de quilombo, estudado pela historiadora Beatriz Nascimento, que desde os meados dos anos de 1970, ao longo de 20 anos, se dedicou principalmente à realização de sua pesquisa de pós-graduação sobre “Sistemas sociais alternativos organizados pelos negros- dos quilombos às favelas”. Com mais pesquisas a autora colocou a palavra quilombo como espaços de resistência e reexistência da população negra.

Pensando no espaço da Universidade, o qual discussões que façam esse recorte, especificamente nas Artes Visuais, sejam dificilmente encontradas, quando são trazidas, esses momentos também são espaços de resistência e reexistência.

O Quilombo Mulheres Negras vem nesse sentido, ao ocupar um espaço acadêmico das artes, trazendo pautas antes pouco faladas pelos próprios sujeitos da história.

Nessa perspectiva, em 2014 foi realizado o I Seminário Quilombo Mulheres Negras, o qual discutia o empoderamento de mulheres negras em saraus periféricos de São Paulo. Durante uma semana, mulheres negras foram reunidas a fim de trazerem seus olhares sobre como o espaço dos saraus, em conjunto com a poesia, prosa, música, teatro entre outras expressões artísticas.

Em 2015 o evento vem à tona com mesas de discussão, oficinas, workshops, performances, formação para professores, expositores que permeiam o empoderamento de mulheres negras pelas artes visuais e como estas, através de sua poética problematizam o machismo, racismo, sexismo entre outras questões que envolvem o corpo da mulher negra.

O evento será realizado em São Paulo no Instituto de Artes Unesp na Barra Funda. Para quem estiver fora de SP, o evento será transmitido online, só ficar de olho na página

Mirella Maria
  • Colaboradora de Artes

Filha do seu Benedito e da dona Sonia, artista visual, educadora militante, colecionadora de amigos, fazeres e saberes.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos