21 de março de 2017 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Reality shows: nem tão reais assim

No final do ano passado, eu comprei o maravilhoso livro Má Feminista da Roxane Gay. Além de seus textos sensacionais, a Roxane dá indicações incríveis de literatura, sites e entidades. Uma dessas indicações é o livro Reality Bites Back da autora Jeniffer Pozner (infelizmente sem tradução para o português). O livro da Jennifer discute como os reality shows (programas de realidade) retratam as pessoas – principalmente as mulheres.

Aqui no Brasil, os programas de realidade estouraram no início da década de 2000, com a estreia do BBB, que em 2017 completa a sua 17ª edição. Depois dele, vieram outros como O Aprendiz, Troca de Família, A Fazenda, Esquadrão da Moda, Supernanny e diversos outros.

Para escrever seu livro, a Jeniffer passou mais de MIL HORAS assistindo a diversos reality shows estadunidenses e, a partir disso, construiu uma crítica muito pertinente sobre como a mídia nos manipula para acreditar que programas de realidade mostram pessoas reais, em um mundo real, agindo de forma real… Mas não é bem assim.

Na televisão, ofensas são consideradas sinônimo de audiência. Quanto mais audiência, mais investimentos comerciais surgem e, com eles, mais dinheiro. Participantes de reality shows que são pensadores e críticos não são desejáveis; aqueles que têm tendências a se comportar com agressividade são.

Entretanto, quando a mídia faz uso de ofensas, violência e ridicularização para ganhar mais público, isso geralmente significa coisas ruins para mulheres, como ofensas aos nossos direitos e ao nosso progresso.

COMO MULHERES SÃO RETRATADAS
A maioria dos formatos de reality shows são editados de forma a colocar uma ou várias mulheres sob os holofotes. As edições, sempre tendenciosas, fazem uso de estereótipos negativos de mulheres com uma frequência assustadora.

Exemplos disso são os programas de namoro (como o estadunidense The Bachelor). Esse tipo de reality infantiliza as mulheres, fazendo com que elas mantenham um imaginário infantil de princesa. Neles, qualquer individualidade feminina é apagada.

Esse formato de programa, repetido por décadas, faz com que as mulheres internalizem a ideia de que um dia o príncipe vai aparecer. Faz também com que a audiência – principalmente as mulheres jovens e em formação – aprenda que mulheres que se protegem, que desafiam, que são confiantes e poderosas geralmente são lidas como bruxas, cruéis, orgulhosas e não-merecedoras de um final feliz.

Como tentam nos convencer de que os participantes são “pessoas reais”, se comportando como se estivessem na “vida real”, é sutilmente sugerido que as mulheres em geral não devem receber mais respeito do que elas recebem nesse tipo de programa. A ideia de que exploração e abuso emocional é parte da experiência romântica é tratada como normal: “você tem que beijar um monte de sapos antes de encontrar o seu príncipe”.

A Jeniffer Pozner descreve em seu livro quatro estereótipos femininos que são sempre criados nas edições dos reality shows:

  1. Mulheres são burras: Capacidade mental não é considerada “fofa” em programas de namoro. Usualmente, a mensagem é enviada através de omissão, quando dúzias de mulheres desesperadas quase não expressam desejos de crescimento profissional ou intelectual.
  2. Mulheres são incompetentes em casa e também no trabalho: São trabalhadoras fracas, são mães medíocres, são esposas insatisfatórias. E se as mulheres são isso tudo, o que justificaria contratá-las com salários iguais aos dos homens, elegê-las como representantes do povo, prestar atenção em suas demandas como cidadãs ou respeitá-las como iguais?
  3. Mulheres são interesseiras: A ideia de mulheres que só se importam com dinheiro quando se trata de relacionamentos amorosos é uma maneira simplista para descartar que a realidade econômica afeta as relações de gênero dentro e fora da esfera romântica. Além dos confinamentos dos programas de realidade, a quantidade de homens que pagam por sexo é enorme, sendo que as sociedades ocidentais alimentam um mercado ilegal, abusivo e milionário de tráfico sexual, no qual mulheres e crianças são enclausuradas – até internacionalmente.
  4. Mulheres são agressivas, vingativas e não merecem confiança: Os programas de realidade apresentam mulheres como competidoras entre si por amor, pelo sucesso profissional e pessoal. Produtores garantem que sempre haja “drama”, e que imagens de irmandade e apoio mútuo entre mulheres nunca sejam exibidos.

PROGRAMAS DE MODELOS E DE MODA
O reality show mais famoso sobre moda e modelos é o America’s Next Top Model (ANTM). Esse programa, que teve a fórmula repetida em diversos países, tem como premissa a competição entre mulheres jovens, que aprendem quais corpos têm valor e quais não têm na nossa cultura.

Esses programas tratam os corpos femininos como mercadoria, dando ao público a falsa impressão que magreza é sinônimo de saúde, escondendo que a magreza excessiva pode trazer consequências extremas, inclusive a morte. Todas sabemos que a obesidade mórbida pode causar complicações médicas negativas. Mas os reality shows dão o rótulo de “obesa” a mulheres que estão levemente acima do peso.

Um dos casos citados pela Jeniffer Pozner em seu livro é da sétima temporada de ANTM, quando participantes magérrimas foram obrigadas a entrar em uma piscina gelada. As modelos, com nenhuma gordura corporal, tremiam até o último fio de cabelo. Quando a participante CariDee reclamou, recebeu uma puxada de orelha que insinuava que ela não era profissional o bastante. Ela implorou por uma pausa para se aquecer; quando a câmera flagrou o momento em que seu corpo entrava em hipotermia, o discurso mudou e um juiz disse a CariDee: “Como uma modelo, você tem que avisar às pessoas quando você atinge o seu limite”. No momento do julgamento das fotos, o discurso mudou novamente e a participante foi tachada de mimada, fraca e desesperada por atenção.

Se você assiste ao ANTM, pode tentar argumentar dizendo que em algumas edições modelos plus size foram selecionadas. Isso é verdade; entretanto, as poucas que são escolhidas a participar do programa chegam confiantes, mas eventualmente cedem às pressões depois de serem sistematicamente criticadas sem piedade por juízes, fotógrafos, designers e executivos de marketing.

Um outro tipo de programa que não respeita o corpo e a individualidade feminina são os programas de make-over (transformações). Um dos primeiros e um dos mais conhecidos é o What Not To Wear, fórmula repetida aqui no Brasil como o nome Esquadrão da Moda. Apesar do programa mostrar mulheres de diferentes classes sociais, corpos e identidades, todas elas passam pela mesma ridicularização pública por não se conformarem com uma tendência de moda classe-média, comercial, conservadora e tradicionalmente feminina.

As participantes são submetidas a uma quebra completa de sua individualidade, em que o produto final é a propaganda de uma imagem ideal. As regras são similares para todas as mulheres, não importando sua idade, sua classe social, seu estilo de vida ou sua identificação cultural.

A Jeniffer deu alguns exemplos de casos apresentados na versão estadunidense do Esquadrão da Moda: uma mecânica que não se sente confortável com rendas e firulas foi chamada de “masculina” e forçada a usar roupas mais “femininas” e cosméticos; uma professora que gosta de sandálias confortáveis, pois tem que andar longas distâncias em um campus, disse que ela não tinha escolha a não ser usar sapatos “de verdade” – leia-se salto alto; uma motociclista lésbica foi forçada a trocar sua jaqueta de couro por um vestido.

Ao ignorar que mulheres diferentes sentem-se confortáveis com roupas, sapatos e maquiagens diferentes, esses programas colocam todas nós em um mesmo balaio, e deixam a entender que temos que viver de acordo com um determinado padrão para sermos socialmente aceitas, e só assim encontraremos a felicidade.

COMO MULHERES NEGRAS E COMUNIDADE LGBT SÃO RETRATADOS NOS REALITY SHOWS
Os reality shows marginalizam pessoas negras, e não é preciso assistir a mil horas de televisão para constatar esse fato. Vamos fazer uma análise: o Brasil tem uma população composta de 54% por negros e pardos. Qual a porcentagem de pessoas negras na edição mais recente do BBB?

Em programas e quadros sobre moda e estética, mulheres negras têm seu nariz afinado, seus lábios reduzidos, seus quadris são criticados e seus corpos mostrados como algo a ser alterado. Ao tentar apagar cirurgicamente as características das mulheres negras, também é apagada a conexão delas com sua ancestralidade, perpetuando uma forma simbólica de limpeza étnica.

Pouquíssimos programas de realidade mostram pessoas com orientações sexuais diferentes da heterossexualidade. Vamos fazer outro exercício para comprovar isso? Rápido, sem pesquisar na internet e sem pensar muito: cite três ex-participantes de reality shows brasileiros que são homossexuais e que tiveram uma visibilidade positiva. Conseguiu? Difícil, né. Reality shows não refletem as diversas variações de gênero, de aparência, de apresentação e identidades que existem.
Um ou outro programa sobre namoros já mostraram pessoas que não são heterossexuais procurando a sua cara-metade. Mas, quando isso acontece, a ideia de “felizes para sempre” é deixada de lado, e os estereótipos negativos são priorizados.

Desumanizar mulheres negras e pessoas LGBT nos reality shows traz consequências brutais para a autoestima de seus semelhantes. Quando uma classe inteira de pessoas é vista como animais, fica muito mais difícil de prevenir a violência contra essa classe e torna mais fácil justificar a negação de direitos sociais, econômicos e políticos.

 Os programas de realidade apresentam uma visão de mundo que apaga todos os traços de avanços conquistados com os movimentos feministas, os movimentos pelos direitos civis e pelos direitos de pessoas LGBT.

Não é nem preciso dizer que esses programas nunca discutem barreiras reais ao sucesso feminino, como a falta de creches e escolas para seus filhos, a desigualdade nos salários em relação aos homens, abuso sexual, discriminação de gênero e orientação sexual em contratações ou violência doméstica.

O objetivo principal da televisão não é entretenimento ou a educação do público, e sim o lucro. Mas você não precisa aceitar em silêncio tudo o que a mídia quer nos fazer engolir. Ser uma audiência crítica é o primeiro passo para conseguir transformar essa realidade que trata seres humanos – principalmente as mulheres – como mercadoria.

Não é minha função falar que todos devem parar de assistir televisão. Mas simplesmente ignorar aquilo que nos incomoda não é uma boa estratégia, e não vai nos proteger das mensagens problemáticas veiculadas pela mídia. É muito mais importante saber como assistir.

A Jeniffer Pozner termina seu livro com uma frase de extrema importância:

“Se alguma coisa nesse livro te deixou com raiva/desconfortável, use essa energia para tomar medidas efetivas.”

Nós, as colaboradoras da Capitolina, escrevemos e produzimos a nossa arte porque acreditamos que, além de consumir mídia, nós mesmas podemos construir uma forma de mídia crítica e questionadora. E você também pode! Chame suas amigas, crie blog, vlogs, podcasts, escreva livros e zines… Encontre a sua voz!

Gleice Cardoso
  • Coordenadora de Sociedade
  • Conselho Editorial
  • Colaboradora de Se Liga

Nascida e criada em Belo Horizonte - MG, é psicóloga e trabalha com pessoas em situação de risco e violação de direitos há quase 10 anos. Mulher negra, só descobriu a força de identificar-se como tal há pouco tempo, pois cresceu acreditando que era "moreninha". Tem duas gatas e um cachorro, mas queria ter 30 de cada. Tem vontade de comer sorvete todo dia (menos de manga) e faz crochê pra relaxar.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos