18 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Reclame aqui: o espaço é uma farsa
Ilustração por Natália Schiavon

Tenho um painel no Pinterest dedicado àquelas imagens de encher os olhos capturadas pelas lentes superpoderosas do telescópio espacial Hubble. Tenho garrafas de vidro entupidas de cola colorida e purpurina, que sacudo freneticamente na tentativa de imitar uma nebulosa. Tenho 25 anos, mas espalhei estrelas que brilham no escuro pelo teto do meu quarto. Eu sou cofundadora do fã-clube do espaço, mas preciso reconhecer que a forma como ele nos foi apresentado é uma farsa.

Sabem aquela história de “a grama do vizinho é sempre mais verde”? Pois o céu do vizinho extraterrestre é mais rosa, azul, violeta, verde e laranja. Pensamos no universo além das fronteiras da Terra como um mar negro salpicado de estrelas, em que corpos celestes flutuam em meio a nuvens de poeira de todas as tonalidades. Pegamos imagens fantásticas que mais parecem obras do Jackson Pollock e estampamos em quadros, capas de caderno e até nas nossas leggings.

Pilares da Criação

Pilares da Criação

Mas se você pudesse espiar, pela janelinha de um ônibus espacial, os Pilares da Criação –magníficas colunas de gás e poeira na Nebulosa da Águia –, não veria esse espetáculo da foto acima. Na verdade, você não veria nada: eles já foram destruídos há milhares de anos. Como a luz precisa viajar uma distância imensa, as imagens só chegarão até nós aqui na Terra daqui a muito, muito tempo. Em 1995, quando o Hubble revelou a primeira imagem da formação, ela já não existia mais. Nossa percepção do tempo é completamente ilusória. Estamos recebendo um cartão postal do além.

Mesmo que os Pilares estivessem firmes e fortes, você – ainda na janelinha da nave – não os enxergaria nessa profusão de cores. As imagens capturadas pelo Hubble são tão realistas quanto as de pessoas em capas de revistas de moda. Rola muito Photoshop. Ou qualquer outro editor mais avançado e futurístico usado pela NASA. Antes de escrever um e-mail revoltado para a agência espacial, vamos entender por que isso acontece.

O Hubble reproduz imagens em preto e branco e usa filtros para isolar os comprimentos de onda e chegar a uma aproximação das cores que veríamos. Acontece que nossos pobres olhos mortais não são sofisticados o suficiente para detectar comprimentos de onda mais curtos ou longos, tais quais infravermelho ou ultravioleta. Assim, o Hubble vai transformar naquelas cores lindonas uma informação que não chegaria a nós naturalmente. Isso não significa que não é real; apenas que nós não conseguiríamos enxergar. A maior parte dos objetos celestes não é luminosa o suficiente para estimular as células cone da nossa retina. Olhando para uma nebulosa, você provavelmente veria apenas uns cinquenta tons de cinza.

É triste, eu sei. Mas a NASA não faz isso para te enganar. O objetivo da fotografia espacial é transmitir o maior número de informações científicas. A cor é apenas uma ferramenta usada para visualizar detalhes e entender a composição desses corpos. Além disso, todo mundo gosta de ver coisas coloridas e bonitas, então eu suspeito que a galera também use essas imagens para atrair crianças e adolescentes com potencial para a astronomia. É um propósito nobre, no fim das contas.

A intenção desse texto não é desmascarar a farsa do espaço, mas sim mostrar que o universo é muito mais do que o pisca-pisca que nos vendem por aí. Não deveríamos precisar enxergar nuvens de glitter para reverenciar o cosmos. Na verdade, é fascinante que nossos olhos não sejam capazes de traduzir em cor as informações que ele emite: podemos chegar até lá, mas jamais estaremos aptos a entender toda sua magnitude quase mitológica. Nossos ancestrais olhavam para cima com medo e reverência. Nós, embora saibamos bem mais, ainda somos pequenos diante de algo que reserva tantos mistérios. E isso é bom. Saber que não veríamos galáxias multicoloridas caso saíssemos da Terra, pode nos motivar a procurar as cores aqui mesmo, abrindo a janela de casa. A verdade está lá fora, mas também aqui dentro.

 

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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