14 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Registros do passado e registros do futuro

Fotografamos quase tudo: selfies, fotos de comida, fotos de gatinhos e outros filhotes, flagras, família e amigos. Gostamos de fazer esses registros e mostrá-los nas redes sociais. Desde os homens das cavernas, que desenhavam os animais, sempre fomos ligados na imagem.

Boa parte de nós tem acesso a uma câmera com uma simples esticada de braço. Em nenhuma outra época da nossa civilização tivemos tanta tecnologia e acesso para registrar o nosso dia a dia. Além desse vasto registro das nossas vidas, hoje temos a possibilidade de ter muitas visões sobre o mesmo acontecimento.

Antigamente – e antigamente depende muito da classe social e da região onde a pessoa mora – tirar foto não era uma coisa tão simples. Não era todo mundo que tinha uma câmera em casa, e não podemos esquecer que, além do custo da câmera, também existia o custo do filme e da revelação. Pois ainda que você tivesse uma câmera, precisava achar alguém ou algum lugar que tivesse todos os químicos necessários para o processo. Sem falar na habilidade, porque por mais que apertar um botão e posicionar uma câmera pareçam simples, ninguém gostaria de desperdiçar um fotograma com uma imagem ruim. Ser fotografado era um ato bem mais formal que hoje em dia. Seus avós talvez tenham poucas fotos deles jovens, seus bisavôs menos ainda. Quando vemos fotos antigas, as pessoas sempre parecem estar bem arrumadas: se aquele era um dos poucos registros fotográficos de muitas pessoas reunidas, não tinha porquê não colocar sua melhor roupa.

Uma criança nascida a dez anos atrás provavelmente tem bem mais fotos que uma pessoa nascida há vinte. Antes, você tinha que fotografar, revelar, colocar as fotos em um álbum e esperar que as pessoas te visitassem para mostrá-las. Hoje, uma mãe ou um pai bate a foto e em questão de segundos ela já está no Facebook para todo o feed olhar e comentar. É fácil, rápido e todos nós fazemos isso.

Mas o acesso à fotografia não afeta apenas o registro e a história das nossas vidas; ele também afeta o registro e a história da humanidade.

Imaginemos que um acidente acontece no metrô de São Paulo no horário de pico, ou seja, tudo lotado. Em questão de minutos vamos ficar sabendo de toda a situação, com direito a diversas imagens feitas por pessoas diferentes. Quarenta anos atrás poderíamos ver o acontecido se tivéssemos a sorte de alguém ter uma câmera em mãos e fotografasse o ocorrido naquele exato momento.

Para muitos, o assassinato do então presidente norte-americano John F. Kennedy, em 1963, continua um mistério. O momento do assassinato está gravado e uma senhora – cujo apelido virou Babushka Lady – que fotografava o ocorrido nunca foi identificada. Apesar dos esforços dos investigadores, sua identidade, assim como o conteúdo de suas fotos, nunca foram revelados. Se o assassinato de uma pessoa conhecida ocorre hoje, em um evento público, certamente teremos muitos vídeos e imagens do acontecido. Em outras palavras, teremos diferentes olhares sobre o mesmo fenômeno.

Independentemente das fotos de Babushka Lady ajudarem ou não a reforçar as teorias conspiratórias sobre a morte de Kennedy, esse é um bom exemplo de uma situação que parece distante de locais e pessoas cujo acesso à tecnologia é fácil nos dias de hoje.

Quando falamos sobre esse mundo moderno, cheio de tecnologia, onde qualquer um puxa um celular e tira uma foto, não estamos falando de todos os lugares imagináveis. É claro que muita coisa ainda acontece sem nenhum tipo de registro. Tudo depende da nossa classe social e de onde moramos. Podemos pensar em lugares isolados e pessoas pobres, sem acesso ao básico, espalhadas pelo mundo todo ou vivendo até aqui mesmo, no Brasil. Muitas coisas infelizmente acontecerão apenas aos olhos de quem as presencia, sejam situações boas ou ruins.

A tecnologia é um instrumento que, quando usado corretamente, só tem a agregar coisas na vida das pessoas, como o fato de que, com ela, podemos ter acesso a outras vozes e mídias (quer exemplo melhor que a Capitolina?!

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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