22 de agosto de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Relacionamentos abusivos lésbicos

Alguns temas são difíceis de serem tratados. A verdade é que tentei algumas vezes rascunhar esse texto e em todas elas fiquei insatisfeita. Amor, sexo, relacionamentos são palavrinhas que nos perseguem e muito ocupam nosso pensamento. Mas ocupam de uma forma menos gostosa quando a combinação das palavras “relacionamento abusivo” vem logo depois dessas que foram supracitadas.

Pode ser estranho escrever sobre um tema desses em primeira pessoa, poderia tentar me afastar um pouco e falar sem me colocar. Mas é fato que quando expomos os sentimentos de forma menos distanciada, às vezes podemos ajudar de um modo mais eficiente quem está vivendo algo parecido. Então, vamos lá.

Há alguns meses fechei a porta da minha vida para uma pessoa. E foi difícil fechá-la. Difícil porque ela era minha primeira namorada e junto desse título havia muita idealização, envolvimento e paixão. Nós éramos militantes do movimento feminista e foi por meio dele que nos conhecemos.

Tudo parecia muito lindo, mas aos poucos minha paz foi indo embora. Olhar no espelho e não reconhecer meus olhos, longas noites de choro e a completa ausência de empatia, consideração ou sororidade eram sintomas de que nada estava bem.

É certo que muito se tem dito sobre relações abusivas – ainda que não o suficiente –, mas há algo nessa história que é um pouco diferente do que estamos acostumadas a ler. A diferença é que se trata de uma relação entre duas mulheres. Sim. Duas mulheres. E o acréscimo: duas mulheres do movimento feminista.

Talvez esse tenha sido um dos motivos para desacreditar no que eu estava vivendo. Notar que vivia uma relação assim com uma companheira do movimento era de algum modo deixar cair por terra a ideia de que ali, dentro daquele espaço, eu estava salva. Salva do machismo, das relações que torturam, dos sorrisos que são silenciados. Mas estava acontecendo.

Traições, mentiras, dissimulações… tudo aquilo que vemos sendo retratado em relações heterossexuais podem vir a acontecer numa relação entre lésbicas. É chocante notar isso, choca porque de algum modo temos a ideia de que entre duas mulheres há mais espaço para o desenvolvimento de uma relação horizontal, que a violência não chegará ali como chega em outras relações. E pode ser que de fato exista esse espaço, mas não é uma regra e nem sempre irá acontecer.

Após três meses vivenciando mentiras e passando por diversas crises de ansiedade, percebi que minha noção da realidade estava sendo alterada. Alterada no sentido de duvidar de mim mesma e das minhas certezas. Duvidar do que estava bem na frente dos meus olhos. Lidar com meias palavras ou com uma completa ausência de disposição para tratar o que eu estava sentindo era uma das sensações que mais me torturava. E torturava porque não esperaria nunca receber esse tipo de tratamento de onde estava vindo.

Além disso, levar a sério que estava vivendo uma relação desse tipo me dava a sensação que eu me afastava da figura feminista que queria ser. Estudar gênero, sexualidade, ter feito um trabalho recente sobre gênero e violência parecia que me salvaria de uma relação desse tipo. Mas não salvou. Eu precisava encarar que não estava a salvo nem naquele ambiente militante, feminista e ao mesmo tempo que saber bastante ou acumular leituras não me salvava de viver essas relações. E foi difícil, mas aconteceu.

Eu não consegui sozinha. Precisei de ajuda. Foi preciso muito colo, carinho, ouvidos das amigas, das irmãs, dos meus pais, de colegas da faculdade, da psicóloga, foi necessário um mundo de pessoas para refazer as minhas bases e me levantar de onde eu estava. Mas passar por tudo isso me ensinou muitas lições. Na verdade, a função desse texto é dizer o que eu aprendi, porque talvez sirva também de aprendizado para quem está lendo:

Em primeiro lugar, eu entendi que há sempre espaço para violência em qualquer relação amorosa que podemos viver. Não importa quem compõe a relação, se são duas mulheres, dois homens, três pessoas ou quatro. A violência pode estar em qualquer lugar e não podemos abrir espaço para que ela se instale. Também não interessa o currículo político de nossas/os parceiras/os amorosos, ser militante de qualquer movimento social não nos resguarda de atitudes que tanto criticamos e que estão presentes no senso comum.

Em segundo lugar, e talvez o que foi mais difícil de entender, é que ter vivido uma relação abusiva não nos faz menos feminista. A realidade é sempre mais complexa do que as páginas dos livros ou as formações feministas. Quanto menos deixarmos acontecimentos como esse mancharem a ideia que temos do feminismo e a possibilidade de construirmos uma relação horizontal com outra mulher – ou mesmo com um homem – melhor será para nós mesmas.

Em terceiro lugar, e não menos importante, é que saindo do que está nas nossas mãos individualmente, e pensando nos movimentos feministas como um todo, é muito importante que se passe a questionar e levar a sério as denúncias de violência feitas de uma mulher sobre outra. É que não é chocante apenas para quem vive notar que uma mulher pode reproduzir o machismo e se beneficiar dele de algum modo numa relação com outra mulher, reproduzindo os padrões das relações abusivas que se dão entre heterossexuais; é difícil também para quem está dentro do movimento lidar com essas questões. Mas não se pode mais ignorar. É necessário apurar, levar a sério, não calar. Porque combater atitudes como essa faz parte da eliminação de acontecimentos desse tipo.

Por fim, ainda que possamos sentir dores e que dentro da gente o mundo pareça cinza, a verdade é que precisamos fugir dessas relações. Saber que não morreremos de amor, que o tempo ameniza as dores e que no fim, por mais clichê que seja, tudo passa pode ajudar a encarar e a sair de relações desse tipo. E ao encarar o mundo levemente pode voltar a ganhar cores. Nada mais gratificante que olhar-se no espelho e reconhecer o próprio olhar, as vontades e os desejos ganhando novos contornos. Pode ser que dê medo, mas vivenciar o novo e renascer é uma das melhores possibilidades de nossas vidas.

Então, a mensagem não é que nos amedrontemos e nos fechemos para outras relações. É exatamente o contrário. A busca pelo amor não precisa se encerrar, ela só precisa se combinar com autocuidado, autoproteção e o respeito à própria sensibilidade e aos alarmes que podem soar quando estamos em uma relação desse tipo.

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Nina

    Oi, Fernanda, tudo bem?

    Adorei o relato. Acho que o mais difícil é aceitar que o abuso existe e que pode vir de quem mais amamos. Nunca achamos que aquela pessoa pode nos machucar, pois pensamos que a conhecemos melhor do que ela mesma – e, às vezes, não a conhecemos tanto quanto gostaríamos e ela se revela a partir das pequenas e grandes palavras/atitudes/mentiras.

    Força pra você, sempre. Não está sozinha! 🙂

  • Raquel

    Amei o post.
    Realmente poucas pessoas ouvem e as vezes até riem quando contamos sobre um relacionamento abusivo nesse “mundinho lésbico de meu Deus”. Já passei por um relacionamento assim e realmente é meio difícil de cair a ficha que está passando por isso.

  • Márcia Oliveira

    Me sinto imensamente contemplada pelo seu texto, Fernanda. Vivi recentemente algo assim. A moça, alem de ser feminista, era minha amiga de muitos anos. Eu nunca esperaria tanto desrespeito com os meus sentimentos e minhas dores de uma pessoa com quem eu ja partilhava tanto e de quem eu ja ouvi tantos relatos de empatia e respeito nos relacionamentos anteriores. Ate gaslighting ela usou comigo… Disse que era exagero, mentiu, dissimulou e, no fim, voltou para o antigo relacionamento.
    Enfim eu percebi que a militância dela so existia nos espaços publicos. Nas relaçoes pessoais, nao há empatia nem reconhecimento dos proprios erros e das feridas causadas.
    Voce nao está sozinha!

  • aline

    fernanda, engraçado que esses dias todos eu tenho pensado sobre isso e não consegui escrever uma linha sequer sobre. eu vivi um relacionamento abusivo lésbico que me deu muitos medos, muitas inseguranças e que, constantemente, me deixa desestabilizada (não no bom sentido).
    ler o seu texto, assim como você mesma pontuou – um texto pessoal, foi como um acalento: outras pessoas já viveram isso e seguiram suas vidas.
    eu segui também, acredito que todas seguimos, mais cedo ou mais tarde. notei que meu relacionamento era abusivo esses dias (e olha que o relacionamento acabou em 2011).
    obrigada pelo relato, foi como um pontapé.

  • Raquel

    OI Fernanda. Me identifiquei totalmente c seu texto. Tive um relacionamento com minha ortopedista. Nunca senti atração por mulheres. Foi a primeira vez. E foi uma paixão alucinante. Eu tb achava q um relacionamento entre mulheres não havia este tipo de coisa. Ficamos 4 meses juntas. E neste tempo eu vivi o auge da paixão até o inferno. Durante 1 mês e meio foi super bacana. Depois ela foi se mostrando..ela é bi e fui vendo q ela tinha vários casos c vários homens diferentes. Me desrespeitava sempre. Se dizia apaixonada mas se aparecesse um cara…ela dava mole na minha frente. Chorei muito e briguei muito tb. Hj estou sozinha. Ainda sinto falta dos momentos bons. Mas hj eu sei q eu fui só um momento. E q o sentimento só veio de mim. Ainda estou tentando superar pois faz pouco tempo. Obrigada pelo seu texto. Bjs Raquel.

    • Eliza

      Oi Raquel, Tudo bem?
      Fiquei impressionada com seu depoimento, pois comigo está acontecendo IGUAL. Fiquei até assustada agora. Só que a minha namorada é ginecologista…será que a gente pode conversar? Estou me sentindo muito fragilizada agora…obrigada e ótimo texto!
      elizasp2002@gmail.com

  • http://htecnologicus.blogspot.com.br/ Ulisses Carvalho

    Comovente seu relato, muito obrigado por compartilhá-lo, se abrir assim requer coragem. Apesar da experiência triste que passou, fico muito feliz que tenha se encaminhado para possibilidades mais construtivas. Seu texto me chamou atenção especialmente por trazer certas desconstruções importantes que alguns discursos acabam cristalizando. A questão da violência e dos abusos de uma relação não de determina pelo gênero dos participantes, mas pela própria construção que ambos ou todos participam ativamente. Afinal, nós mesmos podemos ocupar um certo lugar em uma relação e o oposto em outra. Quando percebemos os lugares que ocupamos somos empoderados e passamos a ganhar agência sobre a situação, contudo esse caminho pode ser árduo, como você mesma relatou. Posso dizer que seu relato ressoa muito com minha própria experiência heterossexual e com a de amigos homossexuais. Novamente, obrigado pelo ótimo texto!

  • Luciana

    Para mim, foram 3 longos anos de uma relação desgastante com uma pessoa egoísta que hoje não merece nem que eu pronuncie seu nome. Se eu tivesse lido esse texto antes, teria visto o que eu ignorava. Espero que funcione para outras garotas.

  • Angelica

    Gostei muito do texto, tenho um relacionamento heterossexual mas me identifiquei muito com você

  • Éri Ca

    olá, adorei o texto. me identifiquei muito. pra mim o pior foi admitir q a violência vinha de uma mulher. como sou bissexual nos meus relacionamentos com homens sempre fiquei atenta aos mínimos sinais mas com ela a ficha demorou pra cair… muito desse abuso era também direcionado a minha sexualidade, então sofri homofobia ou bifobia de uma pessoa homossexual, foi outra coisa difícil de acreditar!!!

  • Georgia Manfroi

    mana, Fernanda, queria dizer que é muito importante teu texto. queria te mandar o que escrevi sobre, tenho um poema relato que gostaria de compartilhar. pra além disso, penso sobre…
    “há sempre espaço para violência em qualquer relação amorosa que podemos viver. Não importa quem compõe a relação, se são duas mulheres, dois homens, três pessoas ou quatro”
    podem ser relações afetivas que envolvam ou não o sexo, podem ser pessoas amigues, podem ser pessoas não binárias, podem ser companheires de casa…
    as relações humanas estão infelizmente viciadas em reproduzir muitos tipos de violência. pare pra pensar sobre o como você se relaciona com as pessoas que atravessam seu cotidiano.
    você [e não é só pra Fernanda essa pergunta genteee] faz coisas que não gostaria que fizessem com você!? quando você se equivoca, ou na maneira de falar, pedir ou contar algo, você conversa sobre!?
    pra mim que o diálogo é uma potente ‘arma’ de não violência, quebrar os constrangimentos e falar sobre aquele momento que você não entendeu o que aconteceu ou porquê gerou desentendimento pode ser uma possibilidade de organizar o processo, entender pelo menos o que tange sua parte nele. nem sempre as pessoas se entendem, mas exercitar a escuta pode modificar as práticas cotidianas. é preciso muito cuidado, e principalmente autocuidado.

  • Renata Reis

    Existem muitas lésbicas abusivas, que ainda tem uma mentalidade do patriarcado, e é difícil entender mesmo. Eu mesma fiquei com um cara, e a conhecida do cara não queria que eu me envolvesse, porque eu era uma puta, que tinham melhores. É complicado lidar, porque como você vai denunciar uma pessoa que já é extremamente marginalizada?que nao tem visibilidade alguma?Que de certa forma é um exemplo para muitas pessoas? É esse o ponto, eu sempre acredito no diálogo.

  • Pingback: Relacionamentos abusivos lésbicos | Além da Mídia()

  • marianavitti

    complicado. :/ passei por isso e é difícil, é difícil lembrar, difícil lidar com a sujeira toda que fica. era minha primeira namorada também e as coisas foram desmoronando, ela foi mostrando quem realmente era. ainda hoje, depois de 2 anos, eu fico sabendo de absurdos que ela fazia pelas minhas costas que as pessoas me contam e como ela tratava pessoas que ela nem conhecia. eu tenho grande dificuldade em me perdoar, me perdoar por ter sido tão cega.

    • Gabriella Araujo

      Também tenho dificuldade de me perdoar, vivo um dia após o outro tentando me lembrar que, apesar da dor, foi um aprendizado necessário para futuros relacionamentos mais saudáveis… Mas a tristeza, a desilusão, ainda são fantasmas me assombrando. Força para nós, Mariana.

    • Eliza

      Oi Mariana. Tudo bem?

      Eu só li esse texto hj e queria conversar, se vc quiser, é claro…estou passando por algo parecido e está dificil digerir…
      elizasp2002@gmail.com

  • Shirley Simão

    Talvez o grande problema seja sempre precisarmos de um modelo a ser seguido e ainda há enraizado em nossa mente o modelo de casal de hétero, do machismo, da força predominante. Ainda ontem eu vi uma reportagem na tv onde uma moça matou a namorada de forma brutal e eu fiquei pasma porque o crime era simplesmente tão violento quanto a outros de casais héteros. Já vi muitas meninas ditas “esclarecidas” se comportando com as namoradas de forma totalmente machista e dominadora. Temos que ficar atenta para pequenos sinais e lembrar que o amor nunca pode nos trazer sofrimento. Deixe aos filmes e novelas esse conto de que amor e sofrimento caminham lado a lado.

  • Mah

    Fiquei muito feliz de ler esse texto, pois vivi um um relacionamento abusivo (e sofri abuso) e tive muita dificuldade de reconhecer isso por se tratar de outra mulher. As coisas só começaram a mudar quando uma amiga me pegou pelos braços e disse “Se um homem tivesse feito isso com você, o que você teria feito?”, e minha resposta foi “Teria levado para a polícia”.
    É muito importante para nós ter essa visão. Entender que mulheres também podem reproduzir comportamentos opressivos dentro de um relacionamento. Entender que a culpa não é nossa, que não somos nós que somos pouco compreensivas e que isso está, sim, acontecendo.
    Muito obrigada por retratar essa realidade, espero que ajude muitas manas a se libertarem.

  • Luana

    Meu coração se encheu de alegria ao ler esse texto. Me senti compreendida e me encontrei. Passei quase dois anos completos numa relação que me destruiu, que me aprisionou, que me fez triste e perdida no mundo. Muitos me alertaram, muitos perceberam e eu fui a última a aceitar. Estou longe de estar curada, mas estou aprendendo muito, principalmente a me amar e valorizar. Obrigada!

  • Anonimous

    ei, sei que não basta uma pessoa desconhecida vir te dizer isso, infelizmente é só o que posso fazer, ou talvez possamos conversar, mas se você observa essa situação se livre dela, você não precisa que outras pessoas concordem ou te permitam sair dessa relação

  • Nina Zambiassi

    muito importante o teu relato! Já passei por isso e olhando a minha volta, são dezenas de casos semelhantes :/

    a possessividade absurda e a consequente necessidade de causar insegurança e instabilidade na outra. como se fosse uma competição. não consigo entender, justamente duas mulheres, que conhecem o que é ser mulher. a reprodução do modelo patriarcal. acho que o movimento merece um estudo mais aprofundado sobre o tema! força pra ti e pra todas que passam por isso. tenhamos coragem pra seguir nossos caminhos cada vez mais livres! 🙂

  • Daniela Vogel

    Me vi neste texto, foram quase 7 anos entre amor, traição, brigas, anulaçoes, possesividade e frustrações. A verdade é que em um relacionamento entre mulheres tudo é mais intenso , as coisas nao sao tao delicadas como pensam ser e eu consegui falar o tão temido ACABOU, no começo eu achava que nao conseguiria viver sem ela , mas estou conseguindo seguir em frente. Meu foco agora é minhas filhas , meu trabalho e minha felicidade.

  • Bruna

    Mais e mais forças sempre!
    Texto maravilhoso

  • Crícia

    Texto Incrível e confesso que relutei em ler somente pelo título.
    Infelizmente todos nó podemos reproduzir a violência que em algum momento da vida sofremos.
    É importante destacar também homossexuais em sua maioria são violentados psicologicamente e ate mesmo fisicamente desde muito cedo o que pode decorrer em transtornos, ansiedade e ate mesmo depressão. Estes fatores estão intimamente ligados a reprodução da violência.

  • Bruna Monteiro Correard

    Primeiramente agradeço o texto, Fernanda! Em segundo lugar, devo comentar que é raro se escrever e falar de relações abusivas entre mulheres, mas existe sim e muito, infelizmente sou prova viva disso. Eu e minha última namorada não somos militantes (embora eu me considere feminista), mas somos da mesma profissão: psicologia. Foram três meses intensos de relacionamento apenas, nos quais eu percebia que tinha algo “errado”, mas somente quando ela terminou comigo após inúmeras idealizações, cobranças e tentativa de pular etapas da relação querendo casar apressadamente etc, foi que eu pude perceber o quanto a postura dela estava sendo abusiva. Voltei a fazer terapia logo após o término e também pude ter mais clareza da situação de maneira mais ampla. O namoro foi em 2016, após o término tivemos 7 meses de contato zero e ela me procurou este ano, não pedindo pra voltar, mas dizendo que vinha se desculpar pelo que me fez, por ter me magoado etc etc, e disse que não tinha mais nada a ver nós duas, que estava querendo minha amizade, enfim, acabei dando papo mas depois fiquei com o pé atrás, quando ela voltou a chamar no whats eu dei uma cortada discreta, depois acabei tentando ver qual era, acabei saindo com ela duas vezes, sem rolar beijo nem nada, conversamos, mas em especial nessa última vez senti que ela tava dando em cima de mim, foi algo mais explícito até de cunho sexual mesmo. Mas eu fiquei sem reagir na hora, depois disso ela ficou estranha, distante, seca, nisso eu tinha viagem que ela sabia, fui viajar pra outro país, dias depois de eu ter chego naquele país, ela começou a mandar mensagem falando que precisava muito das nossas conversas, que queria estudar comigo, coisas desse tipo que eram planos da nossa época de namoro… bom, no calor do momento eu dei papo, e passamos a manter contato frequente durante toda minha viagem, só à noite porque eu andava o dia inteiro sem internet e no fim do dia falava com ela quase todo dia. Quando eu voltei, fui direto trabalhar, ela sabia, deu o fim do dia, ela queria me ver exatamente naquele dia, e era dia de semana, eu propus o fim de semana e vi que ela se frustrou por eu não ir (das 2x que tinhamos saído ao retomar contato, ela me chamou do nada e eu fui), e me mandou um áudio falando que era pra eu pagar um vinho pra ela (eu disse brincando que ia pagar uma cerveja pra ela quando voltasse de viagem) e que era bom pq vinho era mais caro, pra eu largar mão de ser mão de vaca e só pensar em viajar, pra ir “treinando” e pagar um vinho pra ela tbm…questionei o tom desse áudio, ela amansou a voz na hora e fez uma voz sofrida dizendo que tinham mágoas porque ao longo do relacionamento, eu economizava tanto pras minhas viagens que deixava todo o resto da minha vida de lado…e aí depois veio textão dela de elaboração suposta da terapia que ela tinha começado há pouco tempo.. de tudo q ela fez comigo, q foi horrível bla bla, e que agora ela pretendia namorar alguém como ela pq eu sou muito livre, viajo e ela não sabe lidar com isso, aí eu disse que era pena pq não a via como amiga, aí pronto, começaram as confusões e roupas sujas, acabei falando que não tava na vibe de brigas etc, cortei, daí fomos nos ver ainda cerca de umas 3 semanas depois, ela igualmente chamou do nada e acabei indo, com a intenção mesmo de falar o que eu precisava, ela agiu no carro como se estivesse tudo normal, quando chegamos pra comer, eu falei da postura dela, que não ia aceitar ela dizer que ia me “ensinar a ser adulta”, falei quais eram meus limites… depois dessa conversa ficamos 1 mês sem conversar e eu acabei dando um oi, ao passo que ela foi mega seca, senti que era tipo um silêncio de ‘vou te dar um gelo até vc vir pedir desculpas’ e afins, mas eu deixei pra lá. e acabei vendo-a num evento de psicologia, no qual eu ñ sabia que ela iria, ela deu um oi bem de longe, e vi que ficou tensa como eu, e ao invés de só relatar a experiência que ela e outros psicólogos iam trazer no dia, ela foi muito breve sobre a prática e disse que a colega psicóloga desse projeto a ajudou a organizar a vida dela, em terapia pude sacar que era uma alfinetada pra mim, porque ela esperava isso de mim… me disse que não importava quais eram meus sonhos, a forma como eu vivo a impediria de viver os sonhos dela… me chamava de criança direto, fora que ela fez o clássico “idealização, desvalorização e descarte”, tudo isso em poucos meses. Eu estou sem contato há um mês apenas agora, a última vez que a vi, neste evento, foi mês passado. É doloroso. Às vezes reluto em acreditar que ela foi abusiva assim, porque eu estava há 6 anos solteira voltada pra mim, pra minha vida, e abri as portas pra ela por achar que era alguém que valeria pena construir uma relação bacana. No término ela me disse que daqui a dez anos eu seria um “partidão”, ela realmente fez umas falas bem arrogantes que me magoaram muito. No fundo todo esse tempo eu fiquei em busca daquela namorada carinhosa, que curtia ficar de mãos dadas comigo em silêncio, abraçadas e tal. Devo ter criado isso na minha cabeça também. Força a todas nós!

  • S*

    Agradeço também pelo texto.
    É dificil ainda falar, mas foram 1 ano e 7 meses. No inicio era tudo maravilhoso, muito envolvimento, amigos em comum também se conhecendo, família se conhecendo essas coisas, até lentamente começarem os tormentos, e o pé atrás com a possessividade alheia sem saber do que estava por vir, até que uma vez era inicio de ano, uma amiga minha me mandou um feliz ano novo por inbox no facebook, e eu sempre quase nao entrava e fui ver a mensagem bem depois, ela já havia dito que tinha ciúmes dessa minha amiga (a qual inclusive inclusive já nao falo ha um ano por conta desta relação), eu respondi a mensagem desejando feliz ano novo tbm e apaguei, pq algo me dizia que se ela visse de alguma forma as coisas não iriam ficar boas pra mim de alguma forma. Até que ela tocou em assunto de facebook, dizendo que eu nunca a mostrava minhas mensagens, e que commm certeeeza ela “sabia” que haviam muitas mulheres que provavelmente davam em cima de mim. Essa não foi a minha primeira experiencia em relacionamento com alguem que ciumento em excesso entretanto nenhum conseguiu chegar ao nivel deste, já namorei pessoas que furtavam minha senha de redes sociais para me vigiar e saber o que eu estou fazendo e foi a unica coisa que me veio a mente, e eu perguntei se ela havia entrado, pois nao precisava pois eu mostraria, e tambem contei que esta amiga tinha me mandado msg de ano novo e eu apaguei por medo que ela visse e começasse tudo. Ela simplesmente me pisoteou por telefone, me chamou de puta, me xingou de todas as ofensas possiveis, mesmo eu dizendo pra ela que nao tinha nada demais. Eu fiquei desnorteada, desesperada a ponto de procurar essa amiga e pedir para que ela me mandasse o print do que ela havia me mandado para provar pra ela que nao havia nada demais. Além do que, ela sempre mantinha conversas com outras pessoas e costumeiramente apaga e me dizia que sempre “foi sem querer” ou que apagava mas era só a parte em que davam em cima dela e ela n fazia nada mas tbm nao iria me mostrar pois havia apagado por apagar. Quantas vezes. e eu aceitava todas sempre sem questiona-la e apenas por acreditar. Depois desse dia eu passei muitos meses me sentindo culpada por algo que eu sequer havia feito, me sentia a pior pessoa do mundo, e ela dizia pra mim que estariamos juntas sim, mas nao namorando, para que eu aprendesse a lidar com isso, ou seja: nao era mulher para namorar. Eu tinha medo de tudo, passei a ter medo de qqr coisa q a fizesse pensar numa possibilidade para ter ciume, coisas que nem sequer aconteceria, e eu me tornei meio paranoica, parecia que estava ´pisando em ovos´numa relaçao para nao desencadear um surto de ciume no outro para nao ser agredida verbalmente. Até chegar o ponto, de um dia ela me empurrar, novamente começar costumeiramente a gritar, e sempre dizendo “eu nao te agrido de maneira nenhuma nem nunca sequer te encostei a mao”, até enfim chegar um belo dia do fatídico tapa na cara, sim, ela me deu um tapa na cara pq me atrasei e peguei um onibus 30 min a mais, e entao OBVIAMENTE É CLARO que estaria com outra pessoa na RODOVIARIA, onde segundo ela era um ponto de encontro de orgia, sim na RODOVIARIA. primeiro me agrediu com palavras, falou que eu levava pessoas para um apt que dividiamos que eu era discimulada que ela sabia de “tudo”. aí depois começou a falar coisas enquanto eu fui para o banheiro chorar, veio me mandou embora e depois me ofender a tempo dela me bater. Na hora eu nao acreditei, nem dei conta por mim. Eu tinha ido a ver apenas com o dinheiro da passagem pq era oq eu podia fazer naquele momento para ficarmos juntas, ela jogou um dinheiro em cima de mim e eu saí desesperada chorando sem acreditar. Nao tinha mais onibus para minha cidade entao eu me sentei num banco e ela veio atras de mim, arrependida claro e eu sai correndo, ela me convenceu, e eu voltei para casa dela e nao sei como mas eu continuei, até que pouco mais de um mes ela me agrediu em plena lapa no RJ dentro de um taxi, apos uma briga onde ela foi no banheiro e voltou me acusando de ter olhado p uma outra mulher, e eu a chamei de abusiva, saí andando sem saber onde, ate parar perto de um bar onde encontrei um ex professor no qual havia ficado mais tranquila por saber que tinha encontrado alguem conhecido ali no meio de absolutamente n havia mais ngm em q eu conhecia, ela passou de taxi veio me puxou pelo braço pq eu aceitei um copo de cerveja dele e estava c copo na mao, e ela achou um absurdo veio me puxou e eu fui pro chao, as pessoas tentaram me puxar, mas eu entrei no carro ate o momento que eu ouvi um “sai do carro” , foi o tempo em que eu olhei pro lado, e ela simplemente, rasgou a minha boca, quebrou o meu óculos, eu saí com a boca sangrando sem oculos e a cara inchada, algumas pessoas me ajudaram, ate q uma viatura parou e o policial me perguntava e eu estava nervosa e n conseguia falar, e o que ele fez? me deu as costas. Eu fui andando e perguntando onde era a delegacia, ate chegar lá e a delegada me avisar que nao poderia fazer nada ali q teria que ser apenas na delegacia da mulher, mas era longe e de madrugada e eu estava sozinha, sem telefone, sem dinheiro, sem ninguem, sem nada. Ate que um cara nao sei se era morador de rua, mas estava por ali, me ajudou e eu tive q confiar nele, pq n havia mais ngm, eu viriei uma ninguem, abaixo de um ser humano que pedia a todo mundo na rua um celular para eu tentar falar com alguem q conhecia sendo que mal lembrava os telefones prox de cor. Eu fiquei até 13 da tarde desde o outro dia, na rua, sem ninguem, sem nada ate que um guarda numa praça me emprestou um celular que pedi a ele pra tentar uma rede social p tentar avisar uma amiga que mora em Marechal Hermes, e que me resgatou literalmente do fundo do poço aonde esta relação levou. Ela já estava provavelmente chegando na nossa cidade e eu sequer havia saído da rua. E assim foi o estopim que teve de acontecer para eu tomar consciencia de mim, de quem eu sou, da minha dignidade enquanto Ser humano, e nao aceitar receber menos que respeito. Ainda está sendo complicado mas td irá mudar pq isso me fez mudar em mim aquilo que eu nao enxergava.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos