3 de maio de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: e | Ilustração:
Relacionamentos Abusivos
Ilustração: Clara Browne
Ilustração: Clara Browne

Ilustração: Clara Browne

Texto de Priscylla Piucco & Sofia Soter.

Todo mundo já ouviu falar de relacionamentos abusivos. O primeiro cenário que vem à mente quando se trata desse assunto é do relacionamento fisicamente agressivo, certo? A palavra “abuso” remete muito ao contexto do abuso sexual ou de agressão, mas, na verdade, existem mais variações de abusividade dentro de um relacionamento e algumas são, talvez, até mais frequentes.

O problema dessas variações de abusos nos relacionamentos é que muitas se tornam um pouco complicadas de serem identificadas. A pessoa que é vítima do abuso geralmente não enxerga a situação ou simplesmente se recusa a admitir que sua pessoa amada seja um agressor abusivo. O fator que ajuda a mascarar essas variações é o quão sutis e disfarçadas elas acontecem no dia a dia. Isso é duplamente verdade no caso de relacionamentos entre adolescentes, porque nesses momentos de “primeiro amor” é normal valorizar a intensidade e a paixão acima de tudo; achar que o relacionamento tem que ser épico, dramático, que nem os filmes e livros românticos te fazem acreditar. Além disso, as imagens de relacionamento abusivo mais divulgadas não são de adolescentes.

 

Sinais de abusos em relacionamentos

Nós sabemos que dói chegar à conclusão de que você está sendo vítima de abuso. Dói, mas é um mal necessário. O primeiro passo é identificar o abuso e então se livrar do que te prende a isso. Entretanto, é mais fácil falar do que fazer.

Muitas vezes você não consegue sair desse namoro/casamento/situação e os motivos são os mais diversos: medo da reação da outra pessoa, medo de ficar sozinha, esperança de que a pessoa vai mudar, ou porque você simplesmente ama a outra pessoa e, quando a gente ama, tentamos o máximo para manter a pessoa por perto. O que você precisa entender é que o amor não suporta o sofrimento constante. Não vale a pena se permitir sofrer desse jeito porque você ama a pessoa. Quando ela abusa de você, sua atitude é a maior prova de que o amor não é recíproco. Amor não sufoca, não controla, não humilha, não abandona, não machuca, não faz pressão psicológica, não ameaça, não agride, não mente. Isso é abuso, amor é outra coisa.

O abuso pode tomar várias formas:

Violência sexual: a pessoa te força a fazer qualquer tipo de ato sexual (qualquer MESMO; sim, beijo conta, sim, qualquer tipo de toque que não te agrade conta) quando você não quer/não está pronta; faz chantagem emocional para que você pratique qualquer tipo de ato sexual (ex: dizer que fazer um ato x é demonstração de amor, e que se você o ama você não deveria ter problema em fazê-lo); se aproveita de quando você está bêbada/em estado alterado para insistir em atos que você negou; não respeita o teu “não” em situações sexuais; acredita que, em um relacionamento romântico e sexual, você tem a obrigação de praticar qualquer ato sexual sempre que a pessoa deseja.

Violência física: a pessoa te bate, chuta, ou te ataca fisicamente; te ameaça fisicamente, com ou sem armas; joga objetos na tua direção durante brigas, ou destrói objetos; tende a demonstrar comportamento violento quando com raiva (mesmo que não chegue a te bater); te segura com força, te empurra ou te impede fisicamente de ir a algum lugar, sair de algum lugar, ou fazer algum movimento; se machuca fisicamente de propósito, culpando você pelo sofrimento emocional em que se encontra.

Violência emocional: a pessoa te xinga; mente, trai, descumpre acordos; reage violentamente se você faz qualquer coisa que a própria pessoa fez sem demonstrar remorso; reage desproporcionalmente a qualquer coisa que a desagrade, mesmo que pareça não fazer sentido; age de forma punitiva quando você faz qualquer coisa que a desagrade (ex: exigindo que você peça desculpas exageradamente, que você “pague” ou “se redima” pelo que fez, pedindo supostas provas de amor e sacrifícios em troca de perdão); controla com quem você anda, o que faz, o que veste (este controle pode ir desde demonstrar desaprovação, reclamando dos teus amigos, das tuas roupas, das tuas escolhas, a impedir fisicamente/com ameaças que você veja certas pessoas/vista certas roupas/faça certas coisas); controla o teu uso de dinheiro (ex: exigir que você pague por tudo, criticar excessivamente os teus gastos pessoais, pedir dinheiro e bens materiais como provas de amor); viola tua privacidade, lendo tuas mensagens e e-mails, mexendo nas tuas coisas, frequentemente aparecendo sem avisar no teu local de estudo, trabalho ou residência; faz questão de saber onde você está, e com quem, a cada momento, pedindo detalhes; te critica, humilha, age como se tuas opiniões e conquistas não fossem importantes; tenta te virar contra tua família e amigos, especialmente se estes já repararam no abuso e portanto não aprovam o relacionamento; ameaça se machucar/se matar.

E estes são só alguns exemplos! O relacionamento pode ser abusivo de inúmeras formas, e o que mais importa é o sentimento da vítima: se você tem medo da pessoa com quem se relaciona, se você evita dizer ou fazer certas coisas com medo da repercussão, ou sente que está presa numa situação sem saída, o relacionamento é abusivo, e o melhor a fazer é sair. Infelizmente, sair de um relacionamento abusivo não é fácil.

 

Por que as mulheres sentem tanta dificuldade em sair de um relacionamento abusivo?

Segundo o livro de John Shore, Seven Reasons Women Stay in Abusive Relationships (and how to defeat each one of them)1, as razões mais comuns pelas quais as mulheres mantém um relacionamento abusivo são:

  • Razão 1: o medo de recriar sua identidade. As mulheres que estão em um relacionamento abusivo, geralmente são muito dependentes, seja qual for o sentido, da pessoa que está em sua vida.2 Ela volta seu eu em torno do outro. A partir do momento que esse outro não existir mais, ela terá de se voltar a si mesma e, por mais que quem vê de fora acredite ser a melhor coisa, para a vítima não é. John diz que quando uma vítima desse tipo de situação decide dar um basta, é uma espécie de cura não somente pra si mesma, mas também para todos aqueles que estão ao seu redor. Eis os motivos: a) serve de encorajamento ao próximo; b) é uma forma de refutar a imagem da mulher como um modelo padrão de vitimização; c) mostra à pessoa agressora que seu comportamento não é aceitável; d) tira a vítima da eterna esperança de que ela pode mudar a pessoa agressora pois é algo que dificilmente vá acontecer; e) você só tem uma vida, não a desperdice com quem te faz mal, reaja; f) você está no controle da sua vida, a escolha é sua, percorrer o caminho doloroso de salvar a si mesma ou sofrer até morrer ao lado de uma pessoa que te abusa.
  • Razão 2: medo do desconhecido. Algumas mulheres não querem trocar o certo pelo duvidoso, ainda que o  “certo” seja errado. Há quatro motivos principais para esse medo acontecer: a) poderia ser pior; b) não estar habituada a ficar sozinha; c) medo de nunca mais achar outra pessoa; d) medo de não se manter financeiramente. Poderia ser pior ficar sozinha? Absolutamente não. Sabe o ditado “antes só do que mal acompanhada”? Maior verdade. Não fique tentando pesar prós e contras, pois se você teve de chegar a esse ponto, provavelmente é porque não vale a pena. Se valesse, você já saberia de cara, sem precisar pensar se aquele sábado que a pessoa te tratou tão bem e te comprou flores não compensa a humilhação que te faz passar no domingo quando você deu um abraço em um amigo de longa data na rua. Se o medo for de nunca mais arrumar outra pessoa, saiba que você não precisa de ninguém. Simples assim. A sua felicidade tem que vir de você mesma. E jamais se mantenha em uma situação de abuso por medo de não ter dinheiro suficiente. Recorra aos familiares, amigos, procure um emprego melhor, faça qualquer coisa, porque qualquer coisa é melhor do que ser maltratada.
  • Razão 3: vergonha dos outros. O que é esse medo? É aquele pavor básico que algumas mulheres sofrem de admitir para a família e amigos que seu relacionamento não foi bem sucedido. Ninguém vai estar lá para tomar seu lugar quando seu parceiro começar a te humilhar, bater ou pegar seu dinheiro. Portanto, você não deve nada a ninguém.
  • Razão 4: pressão de ser como os seus pais. Seus pais casaram aos 18 anos, tiveram 4 filhos, estão casados há mais de 30 anos e são felizes. Os valores da família, do sagrado casamento, foram ensinados a você desde pequena e você quer segui-los, você quer ser a filha que foi criada para ser. Então você não se divorcia porque precisa ser forte, o padre disse “até que a morte os separe”, certo? Certíssimo… isso só está custando a sua vida. Você não é a cópia dos seus pais, você não tem que repetir padrão algum. Se seus pais estão felizes casados há tanto tempo, faça a si mesma o favor de tomar como inspiração e procurar alguém que te faça feliz. Casamento por si só não significa nada. Mulher completa não precisa de uma aliança no dedo, precisa é ser feliz.
  • Razão 5: você ama as características amáveis que a pessoa tem. Se amor fosse simples, já teriam esgotado os roteiros de filmes. Amor é coisa complicada mesmo. A pessoa te bate, mas é “só” de vez em quando só e poxa, você ama o jeito que ela fala, você ama os abraços ela, vocês têm uma ótima química no sexo. A pessoa vale a pena. Só tem esse probleminha, mas… né. Por amor, tudo vale a pena. BEEEEEEP. Errado. Por amor só vale o amor. Agredir não é amor, é violência. Humilhar, xingar, ameaçar não é amor. Amor de uma via só não sustenta um relacionamento. Desculpa, eu sei que você ama aquela pessoa, mas lamento informar que não é reciproco. Quem ama cuida, quer ver o bem do outro. Clichê, mas verdade.
  • Razão 6: não acreditar que a pessoa é assim. Muitas mulheres não enxergam que o comportamento abusivo faz parte da personalidade da pessoa. É quem ela é. Não é um vírus que é acionado quando a pessoa fica muito muito irritada e toma conta dela, como se ficasse inconsciente e o mal a possuísse. A pessoa é responsável pelas agressões e abusos SIM. Aceite, quem está nesse relacionamento com você É uma pessoa abusiva. Essa característica faz parte da pessoa, não vai sumir do nada numa bela manhã de sol em julho.
  • Razão 7: a pessoa mente; diz que vai mudar, diz que nunca mais vai acontecer, diz que não sabe o que deu nela, pede desculpa, se transforma na pessoa mais amorosa do mundo nos dias seguintes até que age abusivamente mais uma vez. É um loop eterno. A pessoa não vai mudar, justamente pelo exposto na razão nº 6: a pessoa é assim. Quanto mais cedo você aceitar isso, menos lesada sairá desse relacionamento tóxico.

 

Estou num relacionamento abusivo, quero sair dele. E agora?

Não existe uma fórmula única, assim como não existe um único tipo de abuso. Alguns relacionamentos são mais fáceis de se livrar do que outros, dependendo do nível de dependência (emocional, econômica, social). O caminho mais indicado é procurar todo o apoio possível (de amigos e familiares confiáveis, que você sabe que estarão sempre do teu lado), e cortar todos os laços com a pessoa que te abusava. Isso não é fácil, e normalmente não se faz da noite para o dia, exatamente por conta da dependência: você pode depender da pessoa para apoio emocional, por razões práticas e financeiras (se, por exemplo, vocês moram juntos), por razões sociais (se vocês estudam juntos, e têm um grande grupo de amigos em comum, por exemplo)… O jeito é tentar encontrar esse apoio em canais diferentes: ligar para a melhor amiga quando pensar em ligar para o ex; ficar na casa de algum amigo ou parente, se possível, caso precise sair de onde mora; ativar todos os canais de segurança possíveis se sentir que está em perigo (se a pessoa ainda tiver acesso a você e for perigosa, insistir em te ver, aparecer onde você está, continuar tentando entrar em contato; tudo isso é comum em casos de abuso).

Quando você conseguir sair de vez, é possível que os problemas não acabem com o fim do relacionamento. A pessoa abusiva é imprevisível, e pode insistir por um tempo; você pode continuar com medo não só de quem te abusou, mas de futuros relacionamentos; você pode ter reações intensas a coisas que te lembrem o trauma (ficar especialmente sensível a possibilidades de violência, por exemplo); você pode pensar em voltar; você pode, de fato, voltar – o que esperamos que não aconteça, mas acontece com frequência, e você não deve se sentir fraca por isso –; você pode sofrer de sintomas de estresse pós-traumático. Mesmo assim, tudo isso será melhor do que continuar sofrendo o abuso, e, se você puder, procure ajuda para superar o trauma e o sofrimento dele decorrente.

Ilustração: Tailor (https://www.facebook.com/tailorgrrrl)

Ilustração: Tailor

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[1] Sete motivos pelos quais as mulheres continuam em relacionamentos abusivos (e como combater cada um deles).

[2] Neste livro, o autor se refere principalmente a relacionamentos heterossexuais. No entanto, tentamos colocar o agressor de forma neutra no artigo, pois abuso pode ocorrer também em relacionamentos homossexuais.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • Heloísa Helena

    Nossa, incrível! Eu saí de um relacionamento abusivo há 1 ano, e realmente não é uma coisa fácil. É muito difícil admitir que a pessoa que vc ama te faz mal, e que isso faz parte dela e não é uma coisa que muda de uma hora pra outra. É difícil admitir para os outros que o seu relacionamento não deu certo, abrir mão dos momentos felizes e buscar ser feliz sozinha.
    Vocês estão super de parabéns por trazer esse assunto para debate. Acredito que muitas meninas também passem por isso e nem percebem, ou admitem. Excelente texto, obrigada!

    • Miss Sofia

      Parabéns por ter conseguido sair de um relacionamento assim, Heloísa! Acredite, sei bem como é difícil passar por tudo isso, e fico muito orgulhosa da tua força. <3 Muito obrigada por ter lido nosso texto e gostado.

  • Cristina Parga

    Parabéns sofia, adorei o teu texto! Só quem já passou por isso – ou assistiu impotente uma amiga se destruindo num relacionamento desse gênero sabe como é complexo fechar a porta e começar do zero, sem o cara. Fiquei feliz e orgulhosa por vc trazer esse assunto à tona numa revista para garotas; pode ser que no futuro, não haja tantas mulheres maduras com medo de dar um basta numa relação tóxica por conta dos medos que vc citou. Beijos!!!

    • Miss Sofia

      Muito obrigada, Cristina! Espero mesmo que cada vez mais garotas aprendam a se livrar deste tipo de relacionamento, e espero estar conseguindo fazer parte dessa mudança mesmo que só um pouquinho. <3

  • Miss Sofia

    Ned, entendo seu ponto de vista, mas não tratamos disso porque esse não é o foco do nosso texto, até porque, por conta da proposta da revista, a gente dá prioridade pra situações que ocorrem com garotas. Mas comentários e opiniões são sempre bem vindos! Obrigada por ler e participar.

  • http://www.facebook.com/barbozex João Barboza

    Incrivel mesmo o texto!
    Embora seja destinado para as mulheres, se aplica tambem aos homens, pois há mulheres abusivas tambem.. eu bem sei…
    Foi muito dificil para mim lidar com a dependencia afetiva que eu tinha da minha ex, esse “amor” me cegava aos abusos, mas o constante desgaste uma hora acaba..
    Mas acho que para as mulheres é muito mais dificil sair de um relacionamento abusivo.

  • Lorena

    O texto ficou muito bom! Parabéns pela matéria.

    • Priscylla Piucco

      Obrigaaaaaado!!

  • Lorena

    Acredito que, apesar de o texto ser voltado para mulheres, os abusos listados valem para qualquer relação.

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  • Andrea Gaspar

    De fato, pode ser extremamente difícil reconhecer que se está sendo abusada emocionalmente quando o controle e a manipulação vem mascarados com gestos de afeto e palavras de gentileza. O tempo passa e você deixa de se reconhecer, abre mão das coisas que são importantes para você, desconstrói sua personalidade na crença de está sempre errada, que não é tão boa assim, que os problemas do relacionamento são culpa sua. Aí vem uma imensa infelicidade e você não sabe exatamente porque. “O ‘fulano’ é tão legal”. Porque é que eu não estou feliz com ele? A culpa deve ser minha. Coitado! E ele me aguentando.”
    Talvez o fulano nem saiba, mas o comportamento dele é tão ou mais monstruoso do que o do cara violento, que mostra logo a que veio e ao menos te dá uma chance de se horrorizar e fugir. Desacreditar alguém perante si mesmo é um tipo de estelionato. Quando acaba, além de ser roubado, quando tudo acaba você ainda se sente um tanto estúpido.
    Passei dez anos nessa. Me sentindo infeliz e buscando conforto no próprio agressor. Todas as pessoas próximas me alertaram, mas eu realmente não enxergava. Não sei o nome da doença dele, mas sei que ele precisava de uma mulher forte para destruir, para minar sua confiança e domesticá-la. Ele levou dez longos anos me quebrando…quando eu estive suficientemente fraca e submissa ele apontou a artilharia para uma de nossas amigas mais próximas, uma jovem mulher incrível e independente… como eu já havia sido… não senti ciúmes, nem mesmo raiva… apenas fiquei perplexa em vê-lo tentar assumir as rédeas da vida dela e tomar as decisões por ela, cercando-a de cuidados como se ela fosse uma criança com problemas mentais.
    Parei no meio da sala e perguntei a ele se não bastava. Se ele queria fazer com ela o mesmo que fez comigo. Ele me olhou chocado. Também não havia percebido. A manipulação era uma parte tão importante de sua personalidade que ele nunca se deu conta.
    Pra mim foi ótimo! Eu que já havia procurado ajuda, mas não entendia a origem dos meus problemas, pude finalmente ligar para a psicóloga e dizer: “Eu entendi!”. E eu só precisava disso. Daí para a separação foi um pulo.
    Foi tão libertador que rompi com tudo. Mudei de emprego, de casa, rompi com todos os amigos em comum. Gastei uma grana com sapatos de salto alto que eu havia desistido de usar para não ouvir a piadinha, a zombaria disfarçada. Renovei o estoque de maquiagem, coisas que eu não usava ha anos… Fiz outros amigos, a vida está muito melhor, mas ainda estou me reconstruindo e a sensação de que estive encarcerada injustamente durante os melhores anos da minha vida é algo que não me abandona. Outro relacionamento amoroso é algo muito distante na minha vida. Quando quero saber de romance leio um livro, assisto um filme. Minha libertação foi a menos de um ano, ainda não consigo pensar realmente em deixar outro homem se aproximar. A gentileza masculina me deixa permanentemente desconfiada.

    • Stella

      Parabens!!!! Eu queria tanto ja’ estar na fase em que voce esta’! As vezes acho que nunca terei coragem de sair desse casamento. Como e’ dificil pois eu me sinto responsavel pelo outro caso eu coloque um ponto final.

    • Querendo sair dessa

      Estou passando por isso nesse momento. Nunca pensei q sentiria algo assim, acredito q não seja amor, pois esse sentimento é puro e trás alegria, no meu caso só trouxe choro e armadura por ter escutado e ouvido coisas q ninguém mereço ouvir, e apesar disso tudo eu me enganava q eu corria atrás dele ve estava errado e sendo injusto, de q o q ele me dizia estava errado, mas na verdade eu queria convencê -lo a ficar comigo. Eu me humilhei pedindo desculpa por algo q n tinha feito, q n tinha existido. E qdo isso acabava, ele saía convencido de q eu era uma idiota q poderia fazer o q quisesse q eu era qm pediria desculpa. Isso q plantam em vc é loucura, não amor, vc se senti rompantes de raiva e de amor. O outro é um louco e qr te enlouquecer tbm. O pior q consegue, pq vc ve a loucura, tem consciência q ela existe, mas ar continuar nela. Todo tipo de vício é ruim, e esse ser “abusador” te vicia na loucura dele.

  • Fer

    Oi, Sofia! Posso fazer uma sugestão? Vocês podiam falar de relacionamentos abusivos com pais e mães. Obrigada!

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  • Ana

    Eu concordo que abusadores dificilmente mudam, mas mudam quando querem, desde que procurem ajuda. Eu era muito ciumenta e, em razão disso, acabei invadindo a privacidade, proibindo de falar com certas pessoas, fazendo chantagens emocionais…enfim, fiz muita merda! Eu sabia que não era certo, mas sempre acabava agindo assim por conta da minha insegurança e etc (coisas que explicam mas não justificam).
    Mas eu também sofria com as brigas que causava, com o ciúme que me consumia.

    Precisei fazer um longo acompanhamento psicológico para fortalecer minha autoestima e minha independência emocional e para aprender a respeitar mais o outro. Fui aos poucos me entendendo e mudando as atitudes. As pessoas não são irrecuperáveis, elas dão o que elas têm. Se alguém causa dor e sofrimento, provavelmente é isso que ela carrega na própria vida, foi isso que ela recebeu. Mas é ÓBVIO, ninguém é obrigado a se submeter a um relacionamento abusivo em nome do amor ou de qualquer outra coisa. Não estou defendendo abusadores, só estou dizendo que mudei muitas atitudes abusivas porque reconheci e busquei ajuda, apesar de que eu mesma não aceitaria me relacionar com alguém que era como eu fui.

    O problema é que poucos abusadores reconhecem, querem mudar e de fato conseguem. Mas acontece, é possível. Graças a Deus não é uma coisa que faz parte da minha personalidade e que jamais vai mudar. Se a gente muda o que pensa, muda como age. Hoje em dia tenho um relacionamento que considero bastante saudável e não tenho mais nada a ver com a ciumenta controladora que eu era antes. Demorou, mas mudei.

    • Stella

      Que bom que voce reconheceu o problema e mudou! Parabens!!! A grande maioria, nem quer mudar ou procurar ajuda pois nao quer enxergar que o erro esta’ em si proprio(a) e nao no outro.

  • Paulo Dantas

    Um ótimo texto, geralmente o que mais ouço é que muitas mulheres não saem de relacionamentos abusivos é porque gostam de homens violentos, é bem mais do que isso, conforme o próprio texto diz, espero que mais pessoas leiam e se conscientizem a respeito.

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  • Pamela

    Estou passando por isso, e ainda estou lutando para tentar sair deste relacionamento abusivo. O problema é que temos 2 filhas de 1 ano, e tá dificil tomar a decisão.

    • Stella

      Estou me sentindo como voce! Vivo isso ha 15 anos e o meu filho nao quer que eu e meu marido se separe. O que mais quero e’ ter coragem mas morro de medo de como o meu marido ira’ reagir. Para piorar, moro no exterior!

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  • Maria do Socorro da Silva

    Tenho uma filha que está passando por isso,como é difícil ver uma pessoa que você,tanto ama dese jeito tó sem chão não sei o que fazer pra ajudá-la pôr mais que falamos que ajudamos mais ela sempre volta pra ele só Deus pra mim dar forças eu clamo ao meu Deus pra o pior não acontecer.

  • Lilian Reis

    Olá Sofia, tema abordado muito interessante e importante. Uma pergunta, o livro citado, você sabe me dizer se há versão em português?

  • Silene

    Estou em relacionamento abusivo. Está muito difícil sair. Mas com fé em Deus irei conseguir. Parabéns pelo texto.

  • Dayane Souza

    Estou passando por um relacionamento abusivo. Sou lésbica, tenho 23 anos, me descobri a pouco tempo e esse é o meu primeiro relacionamento do gênero. Eu me sinto um verdadeiro lixo. Eu não consigo deixar esse relacionamento. Eu admiti pra mim que estava vivendo essa situação abusiva não faz nem um mês, mas já venho sofrendo há quase 2 anos. É difícil admitir pra si que vive em situação abusiva por parte de uma mulher que se diz feminista e é estudante de serviço social, é realmente difícil acreditar que alguém com esses requesitos possa ser assim, uma abusadora.
    Tive oportunidade de terminar, mas tenho medo do que ela é capaz de fazer, já que namoramos escondido e não sou assumida para minha família e demais pessoas super conservadoras. Alguém, por favor, me ilumine! Os amigos poucos que sabem já me deram tantos conselhos, mas eu me sinto fraca, amarrada, desanimada com a vida.

  • Gabi

    E quando a relação abusiva é entre pais e filhos? Só muito recentemente identifiquei o abuso por parte da minha mãe e é difícil se desvincular disso, no entanto, é libertador. Seria bom abordar esse tipo de relacionamento também… se bem que me identifiquei com várias partes do texto. Muito obrigada por escreverem sobre isso! <3

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  • Gisele Campos

    Estou em um relacionamento de ida e voltas, que hoje me vejo no auge da desvalorização. É claro que numa relação não existe só um culpado, se existe abuso, é que em algum momento permitimos através da insegura, dependência e passividade. Ta certo que a pessoa não deveria usar disso para nos fazer de “palhaça (o)” porém na realidade muitas pessoas se fortalecem na fraqueza alheia. Comigo funciona assim, quando a gente termina, reajo fico forte, e ele se sente fraco, apaixonado e quer voltar. Quando volta eu fico apaixonada , dependente e ele perde o interesse. Hoje estou sendo tratada como uma pessoa que não representasse nada, sendo intimidada , que se eu contestar posso perder o pouco que acho que tenho. Numa dispusta de força ele querendo ser supererior e eu para não me humilhar pedindo “por favor não me trate assim, eu só quero seu amor”. .. Depois de conversas , leituras, apoio de pessoas de minha confiança estou conseuindo manter a serenidade para não me humilhar pedindo amor, que isso é um absurdo, estou em um processo de reflexão e aceitação, para poder terminar esse relacionamento. Por que não terminei? Por que sabemos que em algum memento depois ou na hora do término , a pessoa tentará nos convencer que mudou, que isso não irá se repetir e voltamos ao ciclo vicioso. Então estou fortalecendo e me convencendo para que eu esteja preparada para dizer não só da boca pra fora: com você nunca mais.

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