28 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: , e | Ilustração:
Relacionamentos à distância
NamoroDistancia2-BiaQuadros

NamoroDistancia1-BiaQuadrosIlustração por Bia Quadros
Texto por Beatriz Himmelstein, Dé Albu e Maria Clara Araújo

Ao tentar entender o amor que sentimos por pessoas que nunca vimos ou tocamos, é normal se assustar por ter semeado algo que pode ir além do entendimento alheio, afinal, como iríamos amar alguém que não “conhecemos”? Mas a verdade é que, sim, sentimos.  Em nuances diferentes, em graus de contato diferente. O amor é um sentimento que nunca irá ser desvendado, explicado, dissecado. Sua origem, nessas experiências, surge de um companheirismo e gentileza transmitido por um modo limitado, onde o toque não existe, mas a conquista, sim. O envolvimento acontece, o frio na barriga aparece e o apego se cria.

É surreal se ver tendo uma avalanche de emoções quando estamos apenas de frente para uma máquina, seja o computador ou o celular. Nossas crises de choro e nossos risos de felicidade saem naturalmente ao vermos uma resposta imediata no chat, uma curtida ou um comentário da pessoa. Aqui, a internet, é nosso cantinho. É onde vivenciamos nossa história. É o início dela, mas e o futuro?

Os planos para algo além desse espaço irão inevitavelmente aparecer, afinal, existe um limite de até quando pode ser levado algo em que não existe a troca de olhares, e quando este limite chega, o encontro irá acontecer.

Mas viajar por causa dessa outra pessoa? E se mudar por ela? É uma grande virada na vida de qualquer um, por isso é necessário fazer o questionamento do quão segura você está em tomar tais decisões, porque são importantes e elas não apenas mudarão a sua vida, mas a de todos que estão ao redor de vocês.  A segurança mútua no relacionamento, nesse momento, nunca foi tão importante para uma escolha que afetará ambos.

Revejam sua convivência, tentem enxergar além da vida em internet e coloquem na balança o que está a ser decidido, porque ali, sim, será tudo completamente novo.

A B., aqui da Capitolina, conta um pouco de sua vivência:

Eu tive dois relacionamentos à distância. Um foi desde o princípio assim: quando nos conhecemos, vivíamos em cidades diferentes. Já o outro relacionamento começou com os dois vivendo em bairros vizinhos e depois virou à distância.  Para mim sempre pareceu muito importante diferenciar.

Em ambos os casos, eu só tive/mantive o relacionamento pois não me parecia lógico deixar de estar com alguém que eu realmente gostava só porque não estávamos fisicamente tão próximos – só porque não estaríamos nas condições habituais de um relacionamento. Era mais ou menos a sensação de que eu não queria me enganar: eu gosto dessa pessoa, eu quero estar com ela, eu penso nela o tempo todo… Por que raios eu vou me impedir de desenvolver algo com ela? Eu ainda acredito nisso. Se você está gostando de verdade de alguém e sente que está disposto a tentar, vambora!

Bom, com meu primeiro namorado (que morava em Manaus e eu em São Paulo), tive um relacionamento fechado (não podíamos ficar com outras pessoas) que durou um ano e pouco. Nesse tempo, a gente se via algumas vezes ao ano sendo que, nas férias, ficávamos juntos por uns 15 dias seguidos – eu na casa dele ou ele na minha. Se por um lado a gente não se via durante a semana como é o “normal”, quando estávamos juntos vivíamos uma intimidade e constância que geralmente as pessoas não têm (principalmente naquela idade). Então isso me permitiu construir uma confiança e amor (amor se constrói?) muito forte pelo meu companheiro. Ah, e me irritava muito escutar que nosso relacionamento poderia não ser tão “válido” como o de outras pessoas só porque era à distância, afinal, toda a intensidade que eu vivia era bem real.

No segundo caso, eu estive com meu então companheiro por quase dois anos na mesma cidade, bairro, estudando juntos e, inclusive, tendo os mesmos amigos. Mas então eu decidi me mudar de país pra estudar. Essa decisão não tinha nada a ver com ele ou nosso relacionamento, o que significava que eu estava indo embora, mas não estava deixando de gostar dele, de querer falar com ele, de querer o apoio dele. Aliás, eu queria muito o apoio dele pra começar essa aventura de morar fora! Mas, diferentemente do que vivi antes, eu já não achava tão saudável ter um relacionamento fechado – e ele concordava. Basicamente, nos pareceu que a melhor forma de se adaptar à distância era estarmos abertos para novas liberdades – então ficou decidido que podíamos ficar com outras pessoas e só falaríamos disso um ao outro se algum dos dois começasse a desenvolver um sentimento realmente forte por outra pessoa.

Nas duas situações, o relacionamento terminou enquanto ainda estávamos à distância. E a verdade é que tentar encontrar até que ponto estar distante ajudou no término me parece não só difícil, como nem tão importante. O que vale é se você está bem com a relação ou não, e isso importa em qualquer relacionamento.

Em suma, relacionamentos à distância fogem dos clichês que a gente escuta por aí porque, como qualquer união, eles sempre vão depender das duas pessoas envolvidas e de como elas se colocam frente ao turbilhão de coisas que é estar com alguém. Ter um relacionamento à distância é se dispor a tentar uma nova coisa, e todos os medos, vontades e dificuldades serão sempre mais fáceis de superar quando compartilhados com a outra pessoa da relação. Por fim, nenhum relacionamento merece ser diminuído, como dissemos anteriormente, mesmo à distância: sim, sentimos. E é isso que importa.

NamoroDistancia2-BiaQuadros

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Katz Moreira

    Lindo o texto. Já vivi essa situação muitas vezes. É dolorido e sempre nos deixa devaneando, achando, dia após dia, que a pessoa pode achar alguém enquanto não estão juntos. Mas é prova de que o amor acontece em muitas e improváveis circunstâncias.

  • Gabriela

    aiaiaiaiai <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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