2 de setembro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Garotas e relatos de guerra
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Ilustração: Bárbara Carneiro

Durante a Primeira Guerra Mundial, muitos soldados viveram parte de seus tempos nas trincheiras escrevendo cartas e relatos sobre aquela medonha experiência. Os militares dos países envolvidos no conflito passaram anos sob as mais variadas condições metereológicas, lidando a todo momento com a possibilidade de bombardeio e vivenciando uma estratégia de guerra sem grandes movimentações nos territórios invadidos. É isso o que em geral encontramos nos nossos livros de História da escola. A morte de um tal Francisco Ferdinando, a invasão de um território ou outro por determinado país. No livro da escola, as páginas avançam e, o que já parecia ruim para a história do continente europeu, fica ainda pior.

Na Segunda Guerra Mundial, a maioria das bombas passou a ter um novo endereço: as cidades. Não só alvos militares, mas também os civis se viram alvejados. Desde o envio de milhares de pessoas (em sua maioria judeus) a campos de concentração na máquina do Holocausto até os ataques das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Um dos resquícios mais fortes desse período e que resiste até os dias de hoje é o diário da jovem Anne Frank. A menina tinha 13 anos quando foi presa em seu esconderijo pelos nazistas na Holanda e mandada com as pessoas com quem vivia para o campo de Auschwitz na Polônia em 1944. O pai da garota resgatou o diário na Holanda em 1945 e dois anos depois foi publicada a primeira versão. Se os números das vítimas dessa guerra podem assustar e ao mesmo tempo ser “apenas” números, quando entramos em contato com o texto da jovem Anne sobre seus dias no abrigo à espera do fim da guerra, nos damos conta de que os números se referem a pessoas e que essa é a face mais dolorosa das guerras. No prédio onde ela escreveu seu diário, em Amsterdã, funciona um museu que recebe diariamente muitos visitantes dispostos a saber mais de sua história. Anne escreveu o seguinte sobre a necessidade de manter seu diário:

“Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta.”

Às vezes o livro da escola parece tão focado em falar em números de mortos ou do avanço da tecnologia nas guerras que uma das formas mais dolorosas de se alcançar essa experiência traumática não entra nos seus capítulos. Anne Frank não foi a única garota em zona de guerra a ter por perto um diário onde escrevia as impressões que sentia daqueles acontecimentos – que não acabaram com a Segunda Guerra Mundial. Nascida em 1980, Zlata Filipovic narrou em suas páginas privadas o conflito em Saravejo, capital da Bósnia Herzegovina, que foi sitiada em plena década de 1990 (mais de 50 anos depois de Anne escrever seu diário!). A guerra no território da ex-Iugoslávia ficou conhecida como Guerra da Bósnia e durou mais de três anos, entre 1992 e 1995. Ao contrário da menina judia que vivia na Holanda, Zlata conseguiu fugir da guerra e tem trabalhos importantes em Direitos Humanos desenvolvidos junto à ONU e à Anistia Internacional. Quando tinha apenas 11 anos, Zlata escreveu em seu diário:

“Domingo, 5 de abril de 1992

Dear Mimmy,
Estou tentando me concentrar nos deveres (um livro para ler), mas simplesmente não consigo. Alguma coisa está acontecendo na cidade. Ouvem-se tiros nas colinas.”

Quando vemos umas notícias por aí, logo pensamos que estamos vivendo a História e que as próximas gerações estudarão acontecimentos que acontecem no nosso próprio tempo (você já sentiu isso?). Hoje em dia, uma outra garota tem chamado atenção ao contar pro mundo sua experiência no meio de um terrível conflito. Com hashtags como “GazaSobAtaque” (#GazaUnderAttack), Farah Baker twitta sobre o cotidiano na Faixa de Gaza. Ao contrário das outras duas jovens, a palestina de 16 anos consegue chegar em tempo real aos mais de 209 mil seguidores da sua conta na rede social e anuncia os bombardeios ao mesmo tempo em que se mostra perplexa com os ataques. Em 25 de agosto, Farah escreve nos poucos caracteres de um tweet :

“Acorde-me quando a humanidade estiver de volta. Acho que eu nunca acordadei #GazaSobAtaque”

Ainda que vivendo a guerra, os diários dessas meninas registram outros assuntos que não só a da completa barbárie dos mísseis, bombas, tiros. Tem espacinhos para celebrar um sorvete ou lamentar um amor não correspondido. Suas vidas normais foram atravessadas por conflitos sobre os quais elas não tem controle. Quantos jovens em situações parecidas estão por aí, nas mais diferentes partes do mundo? Não dá pra saber o número exato, mas é sempre bom ter em conta que esses enfrentamentos tiram pessoas de suas rotinas e que em muitos lugares as crianças deixam suas casas, não tem mais acesso à educação e suas relações sociais mudam, de formas mais ou menos dramáticas, mas sempre muito doloridas. Os relatos dessas meninas deixam de lado as diferenças escancaradas pelas guerras e mostram as fraquezas humanas e a força de quem sobrevive em situações tão absurdas; isso os livros didáticos não dão conta sozinhos. É preciso ouvir as meninas.

Para saber mais

– Sobre os soldados na Primeira Guerra Mundial: Arquivo britânico coloca na internet cerca de 2 mil relatos de soldados da 1ª Guerra

– Site do Museu Anne Frank em Amsterdã (em inglês)

A não-ficção de Zlata Filipovic na revista Carta Capital

– A conta de Farah Baker no twitter (em inglês)

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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