25 de setembro de 2015 | Culinária & FVM | Texto: | Ilustração:
Repensando a ideia de conquista (e um quibe de abóbora com quinoa)

[Dedico este texto à minha mãe. Ainda que em alguns momento possa parecer que não, ele vem de um lugar de muito amor.]

Então o tema deste mês era “conquista”. Eu já sabia disso desde o meio pro fim do mês passado e, desde então, estava meio perdida num grande mix de emoções. Um pouco irritada, um pouco confusa e até um pouco triste. Dependendo do tema que temos na edição, eu fico SUPER empolgada e acho que tem tanta coisa sensacional pra fazer que saio até sugerindo tutorial e receita pra outras meninas, às vezes antes mesmo delas olharem o post das pautas. Este mês foi bem ao contrário. Acabei me voluntariando pra ficar com a última semana, mas avisei logo que não fazia a menor ideia do que fazer. As meninas até me sugeriram algumas pautas, mas no fundo eu só ouvia uma voz na minha cabeça que dizia “se vou falar sobre conquistas, tenho que falar sobre a minha mãe”.

Mas eu não queria ir fundo na questão – havia um incômodo desde o princípio. Pra escapar pela tangente, optei por fazer um quibe de abóbora. Ia dizer que minha mãe gostava muito era de reproduzir receitas sem a receita. “Comi um negócio assim num restaurante… Como será que faz?” Daí ela ia e fazia. E, quando dava certo, parecia que pra ela era uma grande conquista. Mas isso seria reduzir minha mãe TANTO. A mesma voz que me dizia pra falar sobre ela não me deixou escrever o texto acima. Tive, pois, que ir enrolando a mim mesma enquanto eu não entendia sobre o que eu queria falar.

Pra começar, preciso apresentar a minha mãe, mas não sem antes fazer uma ressalva: falaremos de família. E, quando se fala de família, é sempre importante lembrar que muito do que compõe o que conhecemos vem de um tempo em que nós mesmos ainda nem existíamos, ou não tínhamos consciência do que estava acontecendo ao nosso redor. Desse tempo só o que temos são histórias, as quais podem ter um ponto de vista unilateral, podem estar cheias de julgamentos, frequentemente têm lacunas e no fim das contas são apenas versões de uma realidade que jamais entenderemos completamente, por mais que façamos um esforço.  

Minha mãe é uma mulher forte. Uma mulher ativa. Uma mulher independente. Em parte, creio que ela é o que a maioria de nós aqui da Capitolina espera que vocês leitoras venham a se tornar um diaEla via na relação dos meus avós algo que a preocupava. Meu avô não era a pessoa mais prudente do mundo. Muitas vezes ele tomava decisões impulsivas, as quais, sendo ele chefe de família, acabavam afetando a todos, nem sempre positivamente. Minha mãe sempre me contava sobre a falta de estabilidade em sua infância: mudanças de casa, mudanças de cidade, de colégio. Alguns problemas que atitudes mais precavidas em relação ao dinheiro poderiam evitar: “Papai não se preocupava com dinheiro. Se tinha ele gastava. Quando não tinha, não tinha”. E ela olhava pra sua mãe, e nada. Nenhuma cobrança, nenhuma discussão. Uma atitude de extrema passividade, enquanto a vida dela e de seus filhos ia sendo marcada pela imprudência de um homem. “Mamãe era muito Amélia, e eu sabia que isso era exatamente o que eu queria não ser”.

Minha mãe resolveu então ser independente e autossuficiente. Se ela não tinha estabilidade dada pelos pais, ela a teria com seu próprio esforço. E, se ela viesse a casar, jamais se permitiria ficar na mesma situação que minha avó. Desde cedo ela era uma aluna esforçada, a ponto dos professores recomendarem que ela fosse a um colégio de freira, onde desenvolveria melhor seu potencial. Meu avô aparentemente não viu tanto sentido naquilo, então ela só foi graças  ao patrocínio de uma tia, que entendeu o que a professora quis dizer. Com 16 anos, ela se emancipou – literalmente – e se mudou do Ceará pra São Paulo, lugar onde ela acreditava ter mais recursos para alcançar seus objetivos: estabilidade financeira e duas filhas. Ela ficou na casa de uma outra tia, onde ajudava como babá e com os serviços domésticos, além de continuar seu estudos. Passou na faculdade, o que já era um grande mérito dentro do contexto familiar. Não satisfeita, conseguiu se transferir do Mackenzie para a USP. Com vinte e poucos anos conheceu meu pai e, com 22, ainda na faculdade, engravidou da minha irmã mais velha. Ainda assim ela não parou. Demorou um pouco mais, mas ela concluiu a faculdade, teve o bebê e trabalhou pra sustentar a criança. Aos 30 ela já estava realizando o sonho da casa própria.

Pra além da perseverança nesses grandes objetivos, ela também sempre foi muito proativa em todo o seu cotidiano. Minha avó paterna até a apelidou de “senhorita desassossego”, porque nem numa viagem de lazer ela conseguia parar quieta: tinha que acordar cedo, ir atrás de alugar carro, planejar o roteiro, ter certeza de que as meninas acordariam antes de fecharem o café da manhã… “TINHA QUE um monte de coisa”, ela dizia. Não só ela, nós também. Porque ela queria nos motivar a ser fortes e independentes como ela. Mas, talvez sem que ela percebesse, isso muitas vezes veio em tom de cobrança.

Uma característica muito importante de todas as conquistas de minha mãe é que elas sempre foram objetivos dela desde sempre. Houve um planejamento e um esforço para isso. Ela sempre teve as suas prioridades muito claras. Eu tive as minhas prioridades claras mais ou menos dos 5 aos 15 anos. Decidi que queria ser estilista: seria rycah e elegante. Daí com uns 14 comecei a entender um pouco mais de história e trabalho e percebi alguns dos vários problemas das premissas do mundo da moda. Então meu mundo caiu!

Num primeiro momento, eu me apeguei ainda mais ao meu sonho, ainda que já entendendo o quão deturpado ele era, uma vez que construí ele dentro de um imaginário infantil e utópico. Mas eu não sabia de que outra coisa eu gostava, então melhor um sonho furado do que sonho nenhum! Isso por que a ideia de não ter planos pro futuro me assustava terrivelmente, afinal, minha mãe só conquistou tudo o que conquistou pois sempre traçou metas e se manteve fiel a elas. E o que seria eu sem meta nenhuma?

A resposta veio alguns anos depois, quando me formei no colégio, tive o enorme privilégio de passar direto na melhor faculdade de moda do pais e ter os recursos para cursá-la. Fiz um ano. Em seis meses de faculdade eu já tinha certeza de que aquilo não era pra mim. As palestras que eu via, as aulas em que os professores falavam sobre o mercado, algumas das falas que eu ouvia pelos corredores. Tudo gritava para mim como o sonho era incrivelmente defeituoso. Mas eu fiquei um ano completo, porque era o mínimo que precisava se cursar pra poder trancar o curso. E ainda que eu estivesse mal, que eu frequentemente não conseguisse levantar às 10h da manhã pra ir pra aula, que eu ficasse chorando em casa a tarde toda com um misto de culpa, desilusão e desespero por não estar feliz, por não saber o que precisava para ser feliz, por não estar na aula… Eu não conseguia abrir mão do que tinha planejado, pois não saberia para onde ir, e eu ainda não suportava a ideia de não ter meta nenhuma.

Então eu saí. Disse que arranjaria algum trabalho na área pra provar pra mim mesma que o profissional pode ser melhor que a faculdade. Felizmente, também procurei ajuda externa. E, depois de três meses fora da faculdade, meio sem planos e com o remédio de homeopatia certo, eu consegui assumir pra mim mesma que eu não sabia o que eu queria. E, principalmente, assumir pra minha mãe que eu não tinha perspectivas nem metas pro futuro, e que toda a cobrança que eu estava pondo sobre mim estava me deixando num estado de desespero que eu simplesmente não estava mais suportando. Então fui fazer cursinho e ter até o prazo de inscrição da FUVEST pra decidir o que eu queria.

Em outubro me inscrevi em design em uma faculdade e em artes cênicas/cenografia em outra. Passei nas duas e, como ainda assim não sabia o que eu queria, escolhi design pelo horário do curso. Um era integral o outro noturno. Escolhi ter a tarde livre para tentar coisa novas até me encontrar.

Nesses dois anos de curso eu usei as minhas tardes: estando aqui na Capitolina, me aventurando no que é direção de arte em dois clipes, fazendo matérias optativas na USP, redescobrindo meu interesse pela dança,  fazendo terapia para perceber como uma pessoa que tinha estado TÃO triste durante TANTO tempo pode agora, já há alguns meses, não estar mais triste… e nada disso eu via como uma conquista!

Esse mês foi passando e eu fui lendo o que as outras meninas escreviam sobre o tema e ficava indignada e talvez até meio brava. “Celebrar cada pequena conquista do dia a dia”. Eu ficava de alguma forma sentindo que aquilo tinham um quê de lógica capitalista de produtividade, e ao mesmo tempo um conformismo muito grande, como se tudo fosse uma conquista enquanto eu achava que não era. Eu não entendia que o problema estava em mim! Fatalmente, eu ainda estava presa à ideia de que eu tinha que ser igual à minha mãe. Que eu TINHA QUE ter grandes marcos para poder contar e que quando esses marcos chegassem, eu poderia falar sobre como eu os havia desejado e como eu havia planejado tudo e lutado arduamente para consegui-los, da mesma maneira que minha mãe conta sobre as grandes conquistas dela.

E aí eu ficava pensado: de que servem essas coisas que estamos chamando de conquista se não conseguimos ser de fato felizes? Porque é isso que eu quero – ser feliz – e eu ainda não sei como. Eu preciso saber o que eu quero! Porque só realizando o que eu quero é que serei feliz!!!

E só ontem eu percebi como eu estou presa à ideia de futuro e de planejamento. Eu não reconheci todas essas coisas legais que aconteceram porque ainda que eu tenha me empenhado na realização delas, eu só resolvi me empenhar uma vez que eu vi a possibilidade. E não desde antes. Eu não idealizei primeiro uma realidade para depois realizá-la. Eu vi uma possibilidade, me atraí por ela e a realizei. E eu ainda não tenho um plano para o que eu vou ser daqui a 5, 10, 20 anos. E até ontem isso ainda me aterrorizava. Mas agora eu finalmente me dei licença para continuar seguindo e conquistando as coisas de pouquinho em pouquinho. De pequena ideia em pequena ideia. De possibilidade em possibilidade. Sem a necessidade de um planejamento intenso e de uma obstinação pesada. Eu deixei de me cobrar tanto e agora eu percebo que essa é a maior conquista que eu podia ter realizado, e ela não é nem material e nem palpável.

O que é de fato material e palpável é o que quibe de abóbora. Porque eu realmente acho que mesmo com tudo o que minha mãe conquistou, (o que eu listei aqui e o que não coube,  porque tem muito mais, e a cada dia que passa eu só fico mais impressionada com o vigor e a disposição dela), ela realmente se sente muito orgulhosa cada vez que consegue reproduzir uma receita sem a receita, e isso é algo que vocês podem exercitar também.

Quibe de abóbora com quinoa

Ingredientes

– 2 xícaras de quinoa
– 1/2 abóbora (das pequenas. acho que mais ou menos uns 500g)
– alho e cebola a gosto (eu coloquei duas cebolas e 6 dentes de alho, porque gosto das coisas beeem temperadas, mas pode ser menos que isso)
– temperinhos (seguem abaixo algumas combinações legais)
-pimenta, canela, nós moscada e tomilho
-pimenta, nós moscada e gengibre
-só pimenta
-curry com ou sem pimenta
-pimenta e nós moscada
-pimenta e hortelã

1. Pra começar, colocamos a abóbora e a quinoa  pra cozinhar, em recipientes separados, claro. A quinoa, pra quem não sabe, cozinha igual arroz.

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2. O ponto da abobora a gente testa com um garfo, ela tem que estar fácil de espetar, mas difícil de manter espetada (porque desfaz). Esse é o ponto. Já a quinoa tem que triplicar de tamanho e estar macia e meio transparente, como na foto.

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3. Enquanto elas cozinham (a quinoa vai ficar pronta antes da abóbora), você pode ir picando ir picando os alhos e cebolas.

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4. Depois que a abobora estiver pronta, devemos escorrê-la. Numa panela, colocamos um pouco de óleo, as cebolas e os alhos picados. Quando eles começarem a dourar, adicionamos a abóbora. Vamos mexendo e amassando ela na panela mesmo. Tem quem só amasse a abobora e misture com o alho e a cebola crus. Também funciona, também fica bom e fica até menos calórico, porque não leva óleo. Ma eu gosto do cheiro das coisas refogando. Quando ligar a boca do fogão, aproveita e já liga o forno pra ir pré aquecendo 😉

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5. Uma vez que já estiver bem com consistência de purê, é hora de adicionar os temperos e o sal.

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6. Então podemos misturar a quinoa no purê de abóbora

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7. Por fim, colocamos numa assadeira untada e levamos ao forno médio-alto por 25˜30 minutos. Essas marquinhas aí tem gente que acha que é só decoração e nem precisa de verdade, mas eu digo que elas fazem uma diferença danada na hora de comer. Esses sulcos absorvem um “a mais” de azeite que eu acho essencial! 

*Ahh! Você pode rechear seu quibe com um queijo/requeijão/catupiry de sua preferência. Pra ele continuar vegano, você pode usar o Tofupiry que a gente ensinou na segunda semana deste mês, aquela das coxinhas!

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Daí vocês me perguntam: mas e a foto dele assado? Pois é, ele foi atacado e não consegui tirar. Mas fica com aquela aparência linda e dourada de todos os quibes. Você pode usar folhas de hortelã para enfeitar.

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

  • ahnah

    A quinoa cozinha com quanto tempo mais ou menos?

  • Artemiza Amaral

    Parabéns, Maísa, pelo lindo texto, pelas ilustrações (adorei rever a “nossa cozinha”), por suas conquistas todas aqui descritas e por todas aqui não enumeradas. Vc também tem muitas qualidades admiradas por mim e está sempre me surpreendendo com sua sensibilidade e criatividade. Estou muito orgulhosa de você. Parabéns também a equipe da Capitolina. Estou cada vez mais apaixonada por este maravilhoso trabalho de vocês! Grande abraço a todas e felicitações por suas conquistas!!!!

  • Valdenira

    Parabéns! Seu texto é muito bom! E a minha experiência me diz que as pessoas são diferentes e as diferenças nos aproximas e nos completam também. Há que faz planos e realiza e há que não faz planos, mas sabe aproveitar as oportunidades e realizar, como você disse ter feito. Muito bem! também teve sua realização e conquista pra nos contar. Valeu a partilha! foi bem libertadora para nós também.

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