25 de maio de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Resenha: A Cor Púrpura

“Olha só pra você. É negra, é pobre, é feia, é mulher. Você não é nada!’’

OBS: Queria começar dizendo que eu não li o livro. Estou ciente das críticas que foram feitas pela militância negra e LGBT da época. Respeito e compreendo todos os apontamentos. O principal deles foca na questão de que, para essas militâncias, o diretor não reproduziu com a devida intensidade as questões de lesbianidade descritas no livro. 

Antes ainda de adentrar em minhas observações sobre a obra, acho de extrema importância falarmos sobre quem a escreveu. É inspirada no livro de Alice Walker, escritora negra e ativista feminista. Nascida na Georgia, em fevereiro de 1944, num tempo e espaço marcados pela opressão de gênero e racial. Filha de agricultores e bem sucedida em sua vida acadêmica, Alice conseguiu projeção mundial com essa obra.

Sua literatura tem como base exclusões raciais, de gênero, sociais e econômicas. Suas convicções políticas, relações entre mulheres e feminismo também ganham destaque.

É uma história de racismo, machismo, classissismo e outros preconceitos.

No filme de 1985, indicado a 11 Oscars (mas que saiu sem prêmios) e dirigido por Steven Spielberg, conhecemos a trajetória de Celie (interpretada por Whoopi Goldberg, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), mulher negra, pobre e sem estudos que vive na Georgia durante o século XX e que acaba sendo vítima de inúmeros abusos. Seu único escape são suas cartas. Ela, que já foi violentada pelo pai, é mãe de duas crianças, mas é separada de seus filhos, que foram entregues a um casal de missionários. Em um determinado momento, ela própria é entregue, pelo seu pai, ao personagem Albert (Danny Glover), um viúvo que a trata como companheira e escrava, a obrigando a cuidar e manter a casa e seus enteados. Parte de todo esse ódio que era descontado nela, vinha do fato de que ele mantinha uma grande paixão por Shug Avery (Margaret Avery), sua amante. Certo dia, ele chega a levá-la para morar com sua família, e é aí que sua história vai sendo reconfigurada quando, aos poucos, ela conhece outras mulheres que estão lutando, a suas maneiras, por liberdade. Aos poucos, ela também vai fazendo suas descobertas sexuais e conquistando a consciência de sua dignidade e seu orgulho. É a partir desse relacionamento com Shug, que no início era marcado por humilhações, mas que passa a ser de cumplicidade e amor, que Celie consegue se empoderar e sair do espaço violento onde se encontrava, criando mecanismos e forças para construir um novo caminho pra si.

Mas vamos deixando algo claro: essa não é uma historia bonita. Odeio quando tentam romantizar sacrifícios e tragédias. Essa é uma história pesada, real, sofrida no passado e, devo frisar, ainda no presente, por pessoas marginalizadas. A relação de violência que permeava sua comunidade e a forma depreciativa com que as mulheres eram tratadas e até mesmo a reprodução desse ciclo ainda permanece em muitos espaços.

Eu nunca havia realmente me interessado em assistir a esse filme. Cá entre nós, não tenho o costume de assistir a obras mais antigas. Meu interesse só nasceu depois de ler um discurso feito pela atriz Lupita Nyong’o. Ela falava sobre o quanto essa obra foi significativa pra ela, pois, foi ao ver Whoopi no papel de protagonista que ela pensou que o mundo das artes e atuações poderia também ser para pessoas como ela, negras.

“A primeira vez que pensei que poderia ser atriz foi quando vi A Cor púrpura (The Color Purple, 1985). Whoopi Goldberg se parecia comigo, ela tinha o cabelo como o meu, ela era escura como eu. Eu tinha estado carente de imagens de mim mesma. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro trabalho seria tão poderoso e que me tornaria uma imagem de esperança, da mesma forma que as mulheres de A Cor Púrpura foram para mim.”  (NYONG’O, Lupita)

Essa fala de Lupita só destaca ainda mais a força da representatividade, do quanto ela é importante e o quanto ela pode marcar a autoestima e empoderamento de pessoas negras. Precisamos de mais Lupitas, de mais Whoopis. Precisamos mostrar para nossas meninas que também somos importantes e que também merecemos ser protagonistas. Que podemos e devemos lutar e conquistar nosso espaço. Que também podemos estar presentes em grandes histórias. 

Essa é uma obra que vale a pena ser vista, revista e discutida. Espero ter conseguido não revelar muito dela, apenas o suficiente para despertar em você o interesse em vê-la e conhecê-la.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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