20 de julho de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Resenha: Divertidamente (2015)

 

Você provavelmente já imaginou como a sua mente funciona. O que faz as suas emoções tomarem o lugar umas das outras, como suas memórias são acessadas, o que acontece com algumas coisas são esquecidas e outras não ou o que faz você ser você. A Disney Pixar e seus produtores imaginaram isso de uma forma super colorida, encantadora e emocionante na animação Divertidamente (Inside Out, 2015). Dentro da mente de Riley, uma menina de 11 anos, vivem Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva, as emoções e principais coordenadores de uma pré-adolescente que se vê forçada a largar a sua vida, amigos e time de hockey da fria Minnesota para seu pai assumir um novo trabalho na ensolarada São Francisco.

O que seria mais um filme dos estúdios que são reconhecidos pelas suas animações legais e felizes, com lindos cenários e músicas cativantes, acaba por nos levar graficamente para uma experiência entendendo como funciona a mente de uma criança que se encontra com depressão infantil. Claro que em nenhum momento é explicitado esse conteúdo, mas basta assistir para ver que é sobre isso que se trata.

Tudo começa com a apresentação de Alegria. Como tudo que é alegre, ela se veste com cores quentes, não se deixa abater por nada e sempre tem uma super ideia para fazer a Riley ficar feliz. Não demora muito para a Tristeza dar as caras. Não sei se intencionalmente ou talvez pelo próprio inconsciente dos designers de personagem do filme, a tristeza é azul, baixinha e gorda, ela é tudo aquilo que nos é vendido como algo que não gostaríamos de ser. Ela não tem pensamentos positivos e acha que tudo é ruim e vive chateada. Logo após somos apresentados a Nojinho, que faz com que Riley nunca coma nada esquisito e tenha uma boa vida social, o Raiva e o Medo, que, bem, já dá pra entender o que eles fazem.

Alta, leve, agitada: a Alegria comanda a mente como se fosse a chefe de tudo.  Riley não pode ficar triste, Riley tem sempre que ser a mais feliz de todas. Essa é a sua missão e todos acreditam e apoiam ela. Ela não quer ajuda e sempre quer ser a dona das situações, porque né, quem quer ser triste, raivoso, cheio de nojinho ou medroso?

O filme passa e vamos entendendo como funcionam as coisas dentro do nosso cérebro, segundo a visão dos diretores. Não quero falar sobre tudo, para não perder a graça, mas digamos que eles ajudam a entender os acontecimentos químicos e biológicos muito bem, e com muito bom humor. Pensamentos de longo prazo, memória-base, entre outras coisas. Devo apenas fazer uma menção honrosa a como eles discutem a desconstrução dos “pensamentos abstratos” e ao subconsciente.

Não quero dar muitos spoilers sobre o filme em si, esse texto é mais sobre como eles lidam maravilhosamente bem com a questão do funcionamento do cérebro e das emoções. Principalmente sobre uma questão tão contemporânea a nós e tão mal-entendida como a depressão. Divertidamente trata da depressão infantil, mas pode ser aplicado à adulta também. O princípio é o mesmo, a discussão é a mesma.

De uma forma geral, aprendemos que devemos buscar sempre a felicidade, que quem não é feliz sempre está errado e nesse meio termo não aprendemos a lidar com todas as nossas outras emoções direito. É ok não estar sempre feliz, isso é normal. Mas a sociedade acaba fortalecendo a ideia de que se você não é inteiramente feliz, algo está errado. O que é errado é você não ser ensinado a viver e aceitar todas as suas emoções quando elas aparecem de forma igual.

Claro que tendemos a buscar a felicidade porque, convenhamos, é a melhor emoção mesmo. Quando estamos felizes, tudo parece possível. Só que isso não quer dizer que você tem que expulsar todos os outros sentimentos da sua vida e só manter a felicidade. Ser somente feliz, o tempo todo, não é normal. Para mim, o principal ensinamento desta animação é que, às vezes, você tem que abraçar a tristeza, chorar mesmo, porque ela também faz parte de você. Você precisa viver tudo o que você sente ao máximo, até mesmo a chatinha da tristeza, porque isso tudo te fortalece e te dá mais garra para seguir em frente.

Assim como não adianta você ser feliz o tempo todo, você também não pode ser triste o tempo todo. Isso também é anormal. O segredo é o equilíbrio. Se você quer chorar, chore. Se estiver com medo, sinta o medo até onde ele dá a segurança pra sua vida e nada mais. Se estiver com raiva e quiser quebrar a casa toda, por favor, vamos socar o travesseiro. No final, toda discrepância de sentimentos é prejudicial e, normalmente, um problema químico, como a própria falta de serotonina que dita uma das principais causas da depressão.

Riley, representada por suas 5 emoções, descobre que precisa abraçar a tristeza quando ela chega, e parece que ela nunca vai embora enquanto você só quer que ela vá. Mas se você chora e desabafa aquele mal estar que está sentindo, você aprende a lidar com ele e usa o sentimento ao seu favor. Pra mim, esse é o maior ensinamento dessa película. Ah, isso e de onde vem os jingles que nunca saem da nossa cabeça!

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • cyndi

    ei!
    a tristeza foi inspirada numa lágrima, (a nojinho num brócolis, o medo num nervo, a alegria numa estrela, a raiva num tijolo) não porque quem é gordo e baixinho é triste 😉 falo porque acho que a insinuação não faz jus ao filme. até porque, no final, a tristeza que salva tudo.
    bj

  • Ana Luiza de Souza

    Ai, esse filme é sensacional mesmo. Eu também achei genial a lição de que as nossas memória nem sempre trazem só um sentimento, é um mix, e isso pra mim é maturidade emocional, algo que você passa a ter depois da infância (ou deveria) hehehe.
    Ótima resenha,
    Beijos

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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