13 de abril de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Resenha: Jane, the virgin
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Dentre as emissoras de televisão norte-americanas, The CW certamente é a que menos se leva a sério. Enquanto tem certos canais lançando por aí mais uma temporada de gente branca citando Nietzsche, a CW vem com 455 novas séries de criaturas sobrenaturais. Isso a faz ser alvo de chacota coletiva, claro, já que entretenimento voltado para adolescentes é desprezado pelos adultos sérios que usam monóculos e cartola. Mas a CW não liga e a gente também não. Então quando todo mundo torcia o nariz para a sinopse de Jane, The Virgin, eu preparava a minha pipoca. Valeu a pena.

Jane, The Virgin é inspirada livremente em Juana, la virgen, telenovela venezuelana exibida em 2002. O formato foi vendido ao mercado norte-americano e resultou em uma bela adaptação. Vocês se lembram que aconteceu algo semelhante quando Yo soy Betty, la fea deu origem à saudosa Ugly Betty? Eu não sou fã de dramaturgia diária, mas tenho um lugarzinho todo especial no meu coração para melodramas latinos e mexicanos. Já assisti a La usurpadora pelo menos quatro vezes; e não foi ironicamente. As tramas absurdas, as emoções intensas, as reviravoltas fantásticas e o humor involuntário podem me entreter por horas. E Jane, The Virgin respeita suas origens e faz reverência a todos esses aspectos, mas dá um passo a frente em termos de sofisticação narrativa.

Jane Villanueva é uma jovem latina de 23 anos que nunca teve relações sexuais. Além de ter ficado apavorada com o TERRÍVEL sermão pró-virgindade que sua avó lhe deu aos 10 anos de idade, a moça morre de medo da possibilidade de uma gravidez indesejada, como a de sua mãe, Xiomara. Isso obviamente não a impede de ter um saudável relacionamento de longa data com Michael. Primeiro ponto positivo para a série: sexo não é compulsório e a agência de Jane é respeitada. Suas escolhas foram influenciadas pela criação religiosa, mas ela é uma mulher inteligente e independente que parece estar em paz com sua decisão. Não cabe a ninguém dizer a ela o que fazer agora.

Aí chega o momento da suspensão de descrença; aquela hora em que o espectador aceita as loucuras do roteirista em nome do entretenimento. Jane vai à ginecologista fazer um teste de Papanicolau, mas a médica havia acabado de descobrir a traição de sua namorada. Arrasada e absorta, ela troca os prontuários e acaba realizando em Jane o procedimento da sala ao lado: uma inseminação artificial. Querem mais drama? O sêmen em questão pertence a Rafael, uma ex-paixonite de Jane. Devido a um câncer, é a última chance que ele e sua esposa têm de ter um filho biológico. Mais drama? A médica que inseminou nossa heroína por engano é irmã de Rafael. E sua mulher, Petra, só quer a criança para sustentar o casamento por mais alguns anos e ganhar o que lhe foi prometido no acordo pré-nupcial. D-R-A-M-A.

960E ela também é uma sereia! Brinks, gente, calma.

Quando descobre a gravidez que sempre evitou com tanto afinco, Jane se volta contra a religião e o destino. Que tipo de justiça divina é essa que toma o controle das mãos de uma pessoa que sempre seguiu as regras? A jovem se vê pressionada de todos os lados. Mãe, avó, namorado, Rafael: todos têm algo a dizer e a pedir da moça quase imaculada. Mas a palavra final é apenas sua e a todo momento temos a certeza e a segurança de que sua decisão será respeitada. O quão revigorante é saber que a protagonista tem uma escolha e que qualquer caminho será legítimo? Quando a gente comemora o respeito básico e fundamental aos direitos reprodutivos da mulher, sabemos que as coisas por aqui andam difíceis.

Não quero dar spoilers do final do piloto ou do resto da temporada, mas aviso logo que tem reviravolta e surpresa a cada curva. Assistam que depois a gente bate um papo. Vou listar alguns pequenos incentivos para quem ainda está desconfiado:

1 – Gina Rodriguez é a atriz que interpreta Jane e consegue entregar uma ótima atuação tanto nos momentos de emoção e reflexão, quanto nas cenas tolinhas de comédia romântica. Se não acreditam em mim, perguntem à galera do Globo de Ouro, que a premiou no início do ano.

2Jane, The Virgin não fala só de Jane, mas também de Xiomara e Alba. São três gerações de mulheres latinas com perspectivas completamente distintas sobre a vida, mas que, ainda assim, se respeitam e se amam. É uma história sobre ancestralidade, sobre raízes. Quando estão juntas, assistindo à telenovela no sofá de sala e conversando em espanhol, estabelecem um pacto silencioso de resistência cultural. São personagens tridimensionais com personalidades bem definidas e arcos individuais.

3 – No universo de Jane, The Virgin, há uma famosa telenovela chamada The Passions of Santos. O melodrama fictício permeia toda a narrativa e serve de comentário para a jornada pessoal de Jane. Além disso, um narrador em voice-over divertidíssimo não se limita a contar o que está acontecendo em cena, mas estabelece uma relação de cumplicidade com o público. Essa é uma das maiores virtudes da série: todas as pequenas homenagens e referências ao gênero que possibilitou sua existência.

4 – Ao longo da temporada, a série desmistifica várias questões sobre a tão cultuada virgindade. O discurso de vovó Alba – que ainda é muito recorrente na sociedade e traumatiza um monte de meninas reais – cai por terra conforme os personagens crescem, amadurecem e aprendem que não existe um único jeito de exercer sua sexualidade.

5 – Está cansado de Don Drapers e quer mais Leslie Knopes na sua vida? Veio ao lugar certo. Em vez de um anti-herói torturado cuja complexidade sempre deriva de segredos terríveis e obscuros, temos uma mulher que transborda alegria e empatia, mesmo diante das piores circunstâncias. Está faltando gente legal na televisão. Ficamos mal acostumados com essa ideia falsa de que só existe profundidade na tristeza e na crueldade. Jane vem provar o contrário.

Abram seus corações para essa trama absurda e lúdica!

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

  • http://revistapolen.com Revista Pólen

    queria comentar também que as vilãs da série também são ótimas. no maior estilo novela das oito, inclusive.

    petra é tipo versão gourmet da carminha haha e a rose é genial também. não é muito comum pra vilãs de séries – ainda mais séries femininas – fugirem dos estereótipos. elas são divas absolutas e kickass. amo/sou <3

    – Lorena

  • Pingback: Jane The Virgin e a(s) nossa(s) sexualidade(s) | Precisamos Falar Sobre Ciências()

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