11 de maio de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Resenha: O sol é para todos

Scout Finch é uma das personagens mais adoráveis que já existiram na literatura e no cinema. Protagonista do O sol é para todos (To Kill a Mockingbird, 1962), o filme dirigido por Robert Mulligan é baseado no livro da norte-americana Harper Lee, que usou muito de sua experiência e as coisas que viu na infância como material para o livro.

Na fictícia Maycomb, Alabama, no ano de 1932, Scout (Mary Badham) é uma menina de 6 anos curiosa e que, com muita sensibilidade, percebe as coisas ao seu redor. Ela mora com o pai Atticus (Gregory Peck), um respeitado cidadão e advogado, além do irmão mais velho, Jem (Phillip Alford). Como a mãe morreu quando ela era mais nova, Scout é criada pelo pai e pela empregada, Calpúrnia (Estelle Evans). Nos três anos que se seguem, os Finch e a cidade de Maycomb passam por diversas situações que os marcaram.

Atticus é encarregado de defender Tom Robinson (Brock Petter), um homem negro que é acusado de estuprar uma jovem branca, Mayella Ewell (Collin Wilcox). O fato de Atticus — um homem branco que até aquele momento era considerado por muitos um exemplo de integridade e bondade — ter sido encarregado de defender um negro faz com que várias pessoas passem a vê-lo com maus olhos. Scout e Jem também são afetados por essa situação.

O texto vai se focar na personagem de Jean Louise Finch, a Scout. Tanto o livro quanto o filme podem levantar muitas questões em relação a como a produção, feita por pessoas brancas, lida com racismo e questões dos povos negros. Mesmo sendo um clássico e um dos livros mais importantes da literatura americana do século XX, O sol é para todos merece ser olhado em várias óticas. Tal análise da obra deve ser feita por pessoas que possuem propriedade para falar no assunto, o que não inclui a autora do texto.

Scout é a narradora tanto do filme quanto do livro, significando, então, que a percepção que temos de tudo que acontece na história é sob a ótica muitas vezes inocente dela — não que isso faça da personagem menos forte do que ela é.

Quando vai para escola, diferente de seus colegas, Scout já sabe ler, mas é repreendida pela professora que não quer que ela leia, pois diz que seu pai a ensinou tudo errado. Ela também sempre questiona a autoridade e por que as coisas são como são. Do mesmo jeito que não compreende o sistema educacional, Scout enche todos à sua volta de perguntas.

Scout tem problemas em entender como as coisas funcionam às vezes. Depois de se meter em uma briga na escola com um colega, Jem o convida para almoçar em sua casa e percebe que a irmã foi injusta com o colega. No almoço, o convidado enche o prato de xarope, o que faz com que ela note e fale alto, constrangendo o convidado. Calpurnia repreende Scout, dizendo que não se deve tratar o convidados dessa maneira. Numa conversa que se segue entre Atticus e Scout, ele diz que com um pequeno truque, ela pode se dar melhor com qualquer tipo de pessoa: você nunca vai entender uma pessoa até que veja as coisas do seu ponto de vista, ou seja, você nunca vai entender uma pessoa até que ande em seus sapatos.

Apesar da pouca idade, ela parece já perceber que, pelo fato de ser uma menina, o mundo exige certas coisas dela. Scout não gosta de usar vestidos e, no momento em que precisa usar um para ir à escola, morre de vergonha e se veste basicamente da mesma maneira que o irmão mais velho, e tem os cabelos curtos.

Em determinado momento do livro, o irmão e um amigo vão tomar banho em um rio. Scout quer ir junto, parece uma coisa divertida de se fazer, mas é proibida. Ela tem um pouco de ciúmes da liberdade que o irmão, por ser menino, desfruta. Na adaptação para o cinema, a história perdeu Alexandra, irmã de Atticus, que vai para Maycomb tomar conta de Scout e Jem. Com a presença de Alexandra no livro, fica mais clara a relação que Scout tem com o que é considerado feminino.

Em uma cena, antes de dormir, Scout pede a Atticus para ver seu relógio. Ele tira e a entrega, e ela então lê uma dedicatória de sua falecida mãe para seu pai. Scout pergunta a Atticus se quando ele morrer ela irá herdar o relógio. A resposta é negativa: ele vai para Jem, e para ela vão as joias da falecida mãe.

Aos 10 anos, em 1963, Mary Badham concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Scout Finch, sendo uma das pessoas mais novas a serem indicadas para um prêmio na Academia. Marry Badham não chegou a fazer meia dúzia de filmes, assim Harper Lee nunca mais lançou nenhum outro livro além de O sol é para todos.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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