2 de março de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Resenha: Parks and Recreation

Antes de tudo, eu sou uma pessoa desconfiada para falar de Parks and Recreation (2009 – 2015), porque eu gosto muito da série e o texto vem com menos de uma semana do final da série. Este é um apanhado de todas as coisas que me fizeram acompanhar a cidade de Pawnee, Indiana, por tantos anos.

A premissa inicial de Parks and Recreation era um grupo de pessoas que trabalhava no departamento de Parques e Recreação da fictícia cidade de Pawnee, no estado de Indiana nos Estados Unidos. Mas no decorrer das temporadas, as paredes e os murais da prefeitura se tornaram pequenos e o seriado seguia um grupo de pessoas tentando melhorar sua comunidade e ajudar uns aos outros, fosse tentando fazer uma campanha eleitoral, uma loja de aluguel de roupas descoladas para crianças ou fazer uma festa de aposentadoria. O grande trunfo da série foi sem dúvida os personagens, era praticamente uma gangue que mesmo tão distinta sabia se unir quando necessário.

Greg Daniels foi o produtor responsável por adaptar o seriado The Office (2005-2013) para a televisão americana. Com o sucesso da série que foi protagonizada por Steve Carrel, a NBC pediu a ele que criasse outro seriado na mesma linha, um seriado irmão. Daniels e Michael Schur acabaram criando Parks and Recreation, que não tinha nada a ver com The Office em termos de conteúdo, mas também tinha o mesmo formato de documentário. Na ficção, quando os personagens olham para a câmera, dizemos que eles quebraram a quarta parede e, em Parks, os personagens olham para a câmera sem problemas – mas com o tempo, percebemos que cada um tem seus momentos específicos em que quebram essa quarta parede e, assim como em documentários, dão depoimentos.

Antes mesmo de ir ao ar, o seriado recebeu péssimas críticas por conta de uma versão não finalizada do piloto que circulou, mas as coisas não mudaram quando a primeira temporada foi ao ar de fato. Os seis episódios que foram exibidos em 2009, mostram um seriado ainda tentando se encontrar – como muitos outros em suas primeiras temporadas. Os personagens ainda estão pouco lapidados e os atores ainda não estão confortáveis em seus papéis. Apesar das críticas e a audiência diminuindo, o seriado foi renovado para uma segunda temporada. E quem continuou assistindo depois de uma estreia morna, começou a acompanhar as mudanças que fizeram o seriado melhorar. Podíamos ver os personagens melhores e vê-los crescendo; a câmera os deixavam um pouco mais soltos e, como um reality show de verdade, eles pareciam agir com mais naturalidade. Uma pequena troca no elenco fez com que todos os personagens principais tivessem a sintonia que vimos até o final. Parks foi uma sobrevivente, – como Amy Poehler conta em seu livro, Yes, Please – cuja produção sempre estava numa corda bamba e nunca foi um dos grandes hits de audiência da NBC, trazendo sempre incerteza em cada final de temporada. Mas por alguma razão, nunca desistiram da série, já que, qualidade não necessariamente reflete em índices de audiência.

Parks and Recreation não é boa de assistir apenas porque é engraçada e os atores são ótimos, mas ela parece ter uma coisa que poucas sitcoms têm: uma sensação de comunidade e personagens que realmente ajudam e se importam uns com outros. No mês passado, na Capitolina, falamos bastante sobre comunidade e o quanto ela é importante e nós não vivemos sozinhos ou isolados. Em muitas situações precisamos de outras pessoas e parece que, hoje em dia, cada vez é mais difícil conviver com pessoas de opiniões diferentes, pois não estamos abertos a debates sensatos e a ouvir o que o outro tem a dizer. Muitas vezes queremos as mesmas coisas, mas acreditamos que chegar lá requer caminhos diferentes, em Parks and Recreation os personagens podem acreditar em coisas diferentes, mas sabem que a amizade é acima de tudo isso e juntos encaram coisas que vão afetar apenas um deles ou toda uma comunidade. Essa sensação de acolhimento que o seriado dá só é possível quando temos personagens que se propõem a isso.

Além dos atores que dão corpo aos personagens, os roteiristas merecem todo o crédito possível, não apenas pelas frases memoráveis que os fãs adoram repetir, mas por criarem personagens tri dimensionais. As pessoas não são simplesmente boas ou ruins, elas podem ser boas em certas situações e ruins em outras. Na série, todos os personagens em algum momento fazem concessões, agem de maneira errada e pedem desculpas, eles não são donos da verdade, nenhum de nós é.

Trailer sem legendas

Acho que nunca existiu personagem mais apaixonada por seu trabalho como Leslie Knope (Amy Poehler). Durante as sete temporadas, ela fez o que podia e o que não podia para transformar suas vontades em planos concretos – ainda que isso muitas vezes a deixasse um pouco fora de si. Sempre disposta a fazer melhorias por sua comunidade ou ajudar seus amigos, ela era a força motora do seriado e como diz o ditado, sempre dando a cara a tapa. No episódio onze da quinta temporada, Leslie resolve fazer uma comissão de igualdade de gênero no trabalho e na reunião com todos os chefes de departamento percebe-se que são todos homens, o que comprova o problema do número de mulheres no serviço público de Pawnee e para provar seu ponto ela e April (Aubrey Plaza) se voluntariam para trabalhar como lixeiras durante um dia. A situação anterior é um ótimo exemplo da personagem de Poehler, que sempre admitiu ser uma feminista e levava a causa para seu trabalho.

O chefe do departamento é Ron Swanson (brilhantemente interpretado por Nick Offerman), que acredita na propriedade privada, na privacidade e na menor interferência do governo sobre os cidadãos, um comportamento bem contraditório para alguém que trabalha no governo, além de ser um carnívoro incansável. Sempre que pode, Ron dá um jeito de atrapalhar e barrar projetos, mas em nome da amizade com Leslie, muitas vezes dá carta branca para que ela faça o que quer, mesmo que isso vá contra o que ele acredita. Ron Swanson é um dos personagens mais queridos do seriado e fez com que Offerman se tornasse um nome comum nos Estados Unidos. É provável que Ron tenha tido as frases mais memoráveis de todo o seriado, além de ter duas ex-mulheres chamadas Tammy (ele admite que a mãe dele se chama Tamara e o apelido dela também é Tammy).

 Ann Perkins (Rashida Jones) é enfermeira, e mais importante de tudo, é a melhor amiga de Leslie. Esse é um dos melhores pontos do seriado: amizade feminina. Num mundo que diz para as meninas desde cedo que mulheres não são amigas e só sabem competir entre si, Leslie e Ann são a prova que amizade feminina existe e pode ser muito divertida de se ver na televisão. Talvez o fato de Rashida e Amy já se conhecerem pode ter ajudado na dinâmica e reforçado o poder imenso que uma é para a outra. As mulheres são tão mal retratadas no audiovisual que quando tem algum seriado ou filme mostrando uma amizade verdadeira, nós sentimos uma necessidade enorme de falar sobre isso, apesar de ser uma perspectiva ruim, já que a amizade entre mulheres existe de forma sincera no mundo real.

A entrada de Ben Wyatt (Adam Scott) e Chris Traeger (Rob Lowe) na segunda temporada, além da saída de Mark Brendanawicz (Paul Schneider) deram um novo fôlego ao seriado e finalmente todos os personagens estavam em sintonia. Chris é um incansável otimista e vê o melhor de todos em todo mundo. Quando nasceu foi diagnosticado com uma doença e era esperado que ele não vivesse muito, mas Chris se recuperou e não pretende desperdiçar a vida com qualquer coisa que ele considere tóxica. Prefeito aos 18 anos, Ben Wyatt deixou a prefeitura dois meses depois de assumir o cargo, já que a inexperiência o fez arruinar a cidade financeiramente. É fã dos anos 90 e de Game of Thrones, ele é centrado e possui uma ética de trabalho muito forte, mas não sabe falar em público direito. Apesar de gostar de Pawnee, Ben frequentemente não entende alguns comportamentos, como, por exemplo, a idolatria que todos têm em relação a um pequeno cavalo chamado Lil’ Sebastian, ou a birra que todos têm com a cidade vizinha, Eagleton. Chris e Ben vão a Pawnee a trabalho, para revisar as contas do governo, mas o que era temporário virou fixo.

April Ludgate (Aubrey Plaza) e Andy Dwyer (Chris Pratt) são tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos. Ela entrou no departamento como estagiária, mas foi promovida a assistente do Ron, já que provou ser ótima em fazer com que Ron evite o trabalho e pessoas em geral. A personagem foi escrita especialmente para Aubrey, já que Daniels e Schur a adoraram. As duas dividem um estilo sarcástico e de poucas palavras. April gosta de contradizer as pessoas, principalmente Ann por ser ex-namorada de Andy – mesmo que Andy e Ann não tenham mais nenhum sentimento romântico.  Mas ela sabe quando precisa ser pró-ativa e, à sua maneira, ajudar os outros, principalmente Leslie, com quem ela tem uma grande admiração. Vocalista da banda Mouse Rat, Andy Dwyer tem um grande coração e nenhum trabalho é pequeno demais para ele. Andy não é apegado a detalhes e fácil de agradar, é um amigo legal e às vezes, quando a situação pede, é o agente do FBI Bert Macklin. Parks and Recreation lançou a carreira de Chris Pratt, que ano passado protagonizou o sucesso Guardiões da galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014).

Tom Haverford tem os solados dos sapatos forrados de vermelho, assim, onde quer que ele ande sempre andará no tapete vermelho. Talvez essa seja a melhor forma de descrever Tom. Interpretado pelo comediante Aziz Ansari (cuja carreira também foi lançada pelo seriado), Tom é aquele tipo de pessoa por dentro das tecnologias, do que é popular e do que está na moda. A prefeitura é pequena demais para as aspirações dele, que acaba saindo do trabalho para uma série de tentativas fracassadas de ter seu próprio negócio, até quando percebe que usa o mesmo tamanho que crianças e abre uma loja de aluguel de roupas infantis descoladas, Rent-a-swag.

Jerry Gergich (Jim O’Heir) e Donna Meagle (Retta) eram dois personagens pequenos que cresceram e viraram parte do elenco principal. Jerry é o personagem que é sempre motivo de piada de seus colegas, apesar de ser prestativo, ser ótimo pintor e pianista. Mas ele não se importa com nada disso, já que logo vai ser aposentar e ganhar um ótimo salário de aposentadoria. Donna é uma mulher independente e prática, é dona de uma Mercedes e tem uma movimentada vida amorosa e uma estável vida financeira.

Pawnee tem uma série de cidadãos um tanto quanto inusitados que volta e meia aparecem e reaparecem no seriado. Esse elenco de apoio e as diversas participações especiais de atores e até de políticos ajudam a criar e a dar credibilidade para essa cidade fictícia em Indiana. De integrantes dos outros departamentos da prefeitura, a mídia local e aqueles que sempre vão às audiências e diversos outros. Mas entre os diversos que poderíamos citar e nos fizeram rir em muitas cenas, um se sobressaiu e, é frequentemente, considerado o melhor: Jean Ralphio.

Dizer que Jean Ralphio (Ben Schwartz) é apenas um personagem sem noção é, de certo modo, não levar em conta que o personagem podia ter dado errado. Ainda que ele sempre dificultasse a vida do Tom e sempre caísse fora em momento de pressão, quando ele aparecia, podia-se esperar por alguma coisa ruim, mas também esperaríamos por frases engraçadas e cantadas ou também por alguma história bizarra dele mesmo ou da família Saperstein. A grande prova de que Jean Ralphio é um personagem bem escrito é quando na quinta temporada conhecemos sua irmã gêmea de mesmo pai, Mona Lisa (Jenny Slate). Slate se transformou na versão feminina de Jean Ralphio, com os mesmos maneirismos na hora de falar e um sério problema de acatar pedidos. Ben e Jenny souberam dividir a cena e mostraram uma grande sintonia entre os personagens.

Muita coisa aconteceu em sete temporadas e sempre pareceu uma preocupação que a história fosse para frente. Muitas sitcoms se limitam a espaços físicos, mas ainda que o departamento de parques sempre esteja lá, a história ganhou grandes dimensões e até o velho continente em alguns episódios. A maioria dos personagens passa por desilusões e problemas amorosos, mas o trabalho e outras metas pessoais sempre formaram a maioria das tramas da série. A quarta temporada, em que Leslie decide concorrer a uma vaga no conselho da cidade, é um bom exemplo de tudo o que eu falei do seriado: é engraçada e os personagens se juntam por uma missão em comum, além de ser cheia de participações especiais.

É possível criar um paralelo com os Estados Unidos de hoje em dia e a fictícia Pawnee. Como, por exemplo, as duas sofrem de altos índices de obesidade, as mulheres ainda possuem poucos cargos de chefia e enfrentam o sexismo no trabalho e a cidade tem uma violenta história entre os brancos e os índios nativos.

Parks and Recreation é uma série divertido. Aqueles que não desistiram na primeira temporada não largaram mais. Só posso crer, que com o passar do tempo, as pessoas comecem a dar o crédito que ela realmente merece, que Leslie não seja a única protagonista feminista e que ela sirva de exemplo para roteiristas e produtores. Que eles saibam e admitam que mulheres são engraçadas, que personagens femininas podem ser engraçadas e nem todas as mulheres e homens precisam ter relacionamentos que acabem em romance e que ser legal um com o outro pode ser a base de muita comédia.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • Gabriela S. Padilha

    Parks and Recreation melhor série <3

  • Tammy

    que texto maravilhoso! concordo muito com você.
    é uma série que já deixou saudade.

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