17 de junho de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Resenha: Teeth
Ilustração: Beatriz H.M. Leite

Ilustração: Beatriz H.M. Leite

(Atenção! Esse filme contém cenas fortes relacionadas a violência sexual e “body horror”)

Quando decidimos que o tema de junho seria corpo, eu sabia que queria falar sobre esse filme! Eu assisti a Teeth pela primeira vez em uma sessão de filmes estranhos com os meus amigos, junto com Eraserhead e A Pequena Loja de Horrores, acho.

Afinal, a premissa de Teeth parece ser realmente muito bizarra: uma garota com uma mutação ficcional lendária chamada vagina dentata que faz com que ela literalmente tenha dentes na vagina. Só que apesar de ter algumas cenas bastante “gráficas” e deliberadamente trash, Teeth vale a análise e é até divertido, prometo.

“Teeth – A Vagina Dentada”, escrito e dirigido por Mitchell Lichtenstein, estreou em 2007 no festival de Sundance, conhecido por lançar vários filmes independentes de sucesso. Segundo Mystelle Brabbée, diretora artística do festival, o filme “foi um dos mais comentados” em Sundance naquele ano, e a protagonista Jess Weixler recebeu o Prêmio do Júri Especial pela Performance Dramática na ocasião. Desde então, recebeu boas críticas no geral e se tornou um dos vários filmes trash que reúnem um “culto” de fãs na internet.

No filme, Dawn é uma garota que vive em um subúrbio americano e participa de um grupo cristão para adolescentes que prega a abstinência sexual. Até aí, bem normal. Mas desde a primeira cena, o filme problematiza diferentes questões muito interessantes, como o tratamento diferente pra garotos e garotas desde a infância, a “perda” da virgindade e até a cultura do estupro.

Tudo bem, a estética geral do filme é bem sessão-da-tarde-só-que-filme-de-baixo-orçamento e as premissas “científicas” do filme são quase bobas. Dawn vive em uma cidade com uma grande usina nuclear, por isso a tal mutação. O filme engata nessa ideia e brinca de falar sobre evolução e darwinismo. Mas muito mais do que a ideia de evolução natural evocada pelo filme – essa coisa do corpo se adaptando naturalmente a situações de perigo – eu gosto da ideia não tão intencional de apropriação.

Dawn, ao longo da narrativa, “descobre” sua mutação e sua primeira reação, como era de se esperar, é o medo. Em uma sociedade que dita milimetricamente como devem ser nossos corpos, para Dawn, seus dentes só poderiam ser assustadores.

Há um porém. Não é coincidência que o mito da vagina dentata permeie nossa cultura, que também é uma cultura de intensa violência contra as mulheres. Às vezes o que é bizarro é “bizarro” justamente porque pode virar nossa proteção e nos dar mais agência quanto a nós mesmas e nossas escolhas, e, ao longo da narrativa, acompanhamos Dawn descobrindo isso.

Coincidentemente, por causa de uma amiga, li essa semana um trecho de Bathkin, um crítico literário russo importante, analisando a relação do grotesco e do corpo:

“Coloca-se ênfase nas partes do corpo em que ele se abre ao mundo exterior, isto é, onde o mundo penetra nele ou dele sai ou ele mesmo sai para o mundo, através de orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz. É em atos tais como o coito, a gravidez, o parto, a agonia, o comer, o beber, e a satisfação de necessidades naturais, que o corpo revela sua essência como principio em crescimento que ultrapassa seus próprios limites.”[1]

Aproprie-se do que é “bizarro”, “anormal”, “errado” com o seu corpo. Me parece uma ótima mensagem, mesmo que vinda de um filme adolescente trash.

[1] Mikhail Bakhtin, A cultura popular na idade média e no renascimento- O contexto de Fraçois Rebelais. São Paulo, Hucitec, 1987, p.23

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Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

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