8 de julho de 2014 | Cinema & TV, Música | Texto: | Ilustração:
Resenha: The Punk Singer

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Ilustração: Isadora Marília Almeida

Dirigido pela diretora americana Siri Anderson, The Punk Singer (EUA, 2013) é um documentário sobre a cantora e ativista Kathleen Hanna, mais conhecida por ser vocalista da banda Bikini Kill. O documentário mostra não só as facetas da vida artistíca, mas também um pouco da vida pessoal e a delicada doença que afastou Kathleen da vida pública e dos palcos. Além dos depoimentos de pessoas que fizeram parte de toda a história, tem participações de musicistas como Joan Jett (The Runaways) e Kim Gordon (Sonic Youth, Body/Head), além da criadora da Rookie, Tav Gevinson.

Hanna é uma personagem interessantíssima, nascida em Oregon, em uma família de classe média, ela sabia desde pequena que queria ser uma artista, mesmo não sabendo exatamente como. Passou a infância se mudando de cidade em cidade, mas foi na Evergreen State College em Olympia, no estado de Washington, onde estudou fotografia, que as coisas começaram a mudar. Durante a faculdade, Kathleen teve trabalhos censurados pelos professores por considerarem seus conteúdos não adequados. Com essa reação, ela e suas colegas montaram uma galeria chamada Retro Muse.

Vale lembrar que os anos 80 foram uma década complicada para as mulheres, muitos diziam que as mulheres já tinham tudo o que precisavam e que o feminismo estava morto, mas a verdade é que o mercado de trabalho ainda via as mulheres com péssimos olhos, os empregos não eram flexíveis às rotinas de trabalhadoras, donas de casas e muitas vezes as únicas cuidadoras dos filhos, além do começo de uma forte cultura ao corpo. A mídia insistentemente dizia que a agonia toda das mulheres vinha pelo fato delas terem liberdade demais e não saber como lidar com tudo isso. Era como se fosse uma grande tentativa de fazer com que as trabalhadoras voltassem para dentro das casas – de onde nunca deviam ter saído, que tudo milagrosamente ia melhorar na vida delas. Não é estranho pensar que Kathleen Hanna tenha perseguido o caminho que perseguiu quando conseguimos entender também a sociedade americana em que ela cresceu.

Em outubro de 1990, Kathleen Hanna, Tobi Vail, Kathi Wilcox e Billy Karren começaram o Bikini Kill, uma banda punk fortemente influenciada pelo feminismo. Em suas letras, Kathleen cantava coisas como Rebel Girl:

When she talks I hear the revolution
In her hips there’s revolution
Where she walks the revolution’s coming
In her kiss I taste the revolution

Quando ela fala, eu ouço a revolução

Nos seus quadris ha revolução

Quando ela anda a revolução está vindo

Nos seus beijos eu provo a revolução


O começo dos anos 90 foi uma época interessante para bandas independentes do estado de Washington e o Bikini Kill era uma das bandas que recebia uma certa atenção (no documentário as integrantes da banda falam que nunca deram muita bola para atenção que elas recebiam, pois a mídia não as interessava e que também nunca fizeram dinheiro nenhum com a banda). Ver Kathleen Hanna com roupas curtas cantando letras que desafiavam o patriarcado e com toda a energia que só ela tem era uma coisa extraordinária. Nos shows do Bikini Kill, Hanna tinha o costume de pedir para as garotas virem para frente do palco (All girls to the front!), isso não era só um ato político num meio (no caso, o rock) extremamente masculino e que muitas vezes vê as mulheres apenas como groupies. Colocar todas as garotas na frente era desafiar uma noção de que mulher não faz música, era desafiar o patriarcado, mas também era dar uma certa segurança para a banda e a plateia feminina. No documentário, Tobi Vail, em uma entrevista de arquivo, diz que as plateias dos shows na época eram meio violentas, era frequente os moshs (que é quando alguém pula em cima da plateia) e as rodas punks (que é um círculo onde as pessoas dançam descoordenadas, muitas vezes se debantendo umas com as outras com bastante força). Tais atos eram incômodos para as mulheres da plateia (que não curtiam muito essas atitudes) e também davam uma certa segurança para a banda. No documentário dá a entender que os shows muitas vezes podiam ser tensos, já que nem todo homem levava numa boa as atitudes de Hanna e sua banda.

Uma das coisas que Kathleen Hanna e suas conterrânias faziam eram fazines (revistas caseiras distribuídas normalmente de maneira gratuita). Muitas dessas revistas tratavam de músicas e assuntos relacionados ao feminismo. Tanto Hanna, Vail e Wilcox faziam parte de fanzines.

Foi depois de se mudar para a capital, Washington DC, que a banda começou um de seus maiores legados: o movimento Riot Grrrl (sim, com três R e nenhum I, em português seria mais ou menos Garota Revolução). Junto com o Bartmobile, o Bikini Kill é considerado as fundadoras do movimento. Riot Grrrl ia contra essa ideia de que mulheres não tocavam instrumentos, não tinham bandas e no mais, podiam ser o que quisessem. Queriam que as garotas tomassem suas próprias atitudes, que criassem suas próprias fanzines, se empoderassem do nome (que nunca teve um dono ou foi registrado) e que desafiassem as normas da sociedade. O primeiro passo do movimento foi uma reunião onde foi discutido questões referente às mulheres.

Muitos talvez nunca tenham ouvido falar de Kathleen Hanna ou do Bikini Kill, mas quase todo mundo já ouviu o Smells Like Teen Spirit do Nirvana. Tobi Vail, bateirista do Bikini Kill teve um breve relacionamento com o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain. Hanna e Cobain se tornaram bons amigos (é interessante notar as inclinações feministas no tom de Kurt Cobain, além de letras e declarações, a banda já tocou e foi fotografada de vestido em algumas ocasiões, coisa que não era nada demais, já que ser mulher não era uma coisa ofensiva para os integrantes da banda). Um dia Kathleen fez uma pixação escrito “Kurt smellls like Teen Spirit”, (Kurt cheira como Teen Spirit [Espírito Adolescente]), o “espírito adolescete” que Hanna se referia era uma marca de desodorante que Tobi Vail usava. Kurt gostou da frase e usou como título de um dos maiores hinos do rock e grande sucesso comercial da banda.

O documentário segue contando do final do Bikini Kill e o disco solo que Kathleen lançou, The Julie Ruin. E depois a formação e o sucesso do Le Tigre.

Podemos definir Kathleen Hanna como um trem que não parava, que não tinha vergonha de dar cara a tapa. Ela é, sem dúvida, uma mulher com uma fascinante história de vida que infelizmente teve que parar de se apresentar devido a Doença de Lyme, que levou anos para ser diagnosticada, o que afetou o tratamento.

Um dos pontos altos do documentário é a quantidade de imagens de arquivo no filme. Como quando Kathleen fala do desfile de moda que ela fez para a faculdade, e podemos ver exatamente o vestido que ela descreve que continha um texto sobre a amiga dela que teve a casa invadida por um estranho. Além de poder ouvir a história de Kathleen Hanna, podemos muitas vezes ver o que elas se referem.

Siri Anderson fez um documentário incrível, fazendo jus à figura que ela tenta retratar nos depoimentos e imagens na tela. Apesar das dificuldades (ela conseguiu uma parte do financiamento do filme por meio da internet), The Punk Singer é sem dúvida um dos melhores documentários sobre música dos últimos tempos, além de ser um dos poucos que fale sobre mulheres no rock.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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