8 de junho de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Resenha: Últimas Conversas

A primeira sequência do filme Últimas conversas (2015), dirigido por Eduardo Coutinho, é o próprio documentarista, sentado na cadeira destinada a seus entrevistados, conversando com sua equipe sobre o que o incomodava no material que estavam captando. O trecho em que ele se queixa do resultado das entrevistas e reclama de que os adolescentes já vêm programados e não são verdadeiros em suas respostas só entrou na montagem final devido à morte inesperada do realizador, antes que o filme estivesse pronto.

Eduardo Coutinho foi um dos mais renomados documentaristas brasileiros e, nesse último filme, entrevistou estudantes do último ano de escolas públicas do Rio de Janeiro, tentando descobrir o que se passa na cabeça dessas pessoas, prestes a entrar na vida adulta. Por decisão de sua montadora Jordana Berg e de seu produtor, João Moreira Salles, responsáveis pelo filme depois do falecimento de Coutinho, o próprio diretor acabou virando personagem também, deixando mais claro do que nunca o processo de realização.

Essa decisão é compreensível, devido às circunstâncias em que o filme foi terminado, mas, apesar disso, o que permanece de mais interessante na obra continuam sendo os adolescentes, que ao contrário do que aquela sequência inicial dá a entender, têm muito o que oferecer em suas entrevistas.

Poucas vezes se pode ver um filme tratar de tantos temas diferentes com naturalidade. Últimas conversas fala de racismo, cotas, homossexualidade, prostituição, (muitos) pais ausentes, abuso sexual, bullying e religião, sem soar didático ou artificial. Esses temas estão ali porque são parte da vida, porque surgem nas conversas conduzidas por Coutinho. Não há uma tentativa de dissertar sobre eles e chegar a conclusões, apenas de perceber como eles permeiam a vida dos estudantes entrevistados.

Se tem uma coisa que esse filme destrói é o mito de que adolescentes são todos iguais. Mesmo que tenhamos acesso apenas às entrevistas de cerca de dez estudantes, podemos perceber ali pessoas completamente diferentes, com pensamentos por vezes até opostos. Uma menina bate no peito para falar que vai usar sim as cotas para entrar na faculdade, porque lá só tem branco e é o direito dela. Uma outra, logo em seguida, diz que é contra as medidas afirmativas e que não fará uso delas. Não cabe ao filme julgar quem está certa, e sim mostrar que esses dois pensamentos podem existir ali, no mesmo lugar. Uma menina, depois de um depoimento emocionado falando sobre sua história de vida, fala com os olhos brilhando sobre o namorado, enquanto outra elabora que o amor é uma invenção, que ela não acredita. Uma menina fala com um sorriso no rosto sobre a própria mãe e sua companheira, a qual se recusa a chamar de “tia”, enquanto a outra quase chora deixando transparecer que sente falta do carinho materno. São tantas vivências diferentes que fica até sem sentindo querer colocar todos esses jovens no mesmo saco.

Um dos grandes méritos do filme, aliás, são os jovens que foram escolhidos para estar em frente às câmeras. São estudantes de escola pública, em sua maioria meninas, em sua maioria negras. Quantas vezes essas pessoas têm a oportunidade de contar suas histórias, sonhos e aflições nas telas do cinema? É claro que há a mediação do diretor – muito afastado desse universo – e de sua equipe, mas, mesmo assim, é um feito raro no cinema.

Se por um lado, a experiência de Eduardo Coutinho atrás das câmeras traz uma grande habilidade de extrair falas interessantes dos entrevistados, por outro, a grande diferença entre ele e os adolescentes (de idade, geração, classe social, vivência) nos deixa com vontade de – sem descartar o filme que já foi feito – assistir a um novo, com as mesmas pessoas, falando agora por elas mesmas ou com uma mediação mais próxima da realidade retratada.

Últimas conversas é definitivamente um filme que vale a pena a ida ao cinema e que, mesmo depois que o filme acaba, faz com que a gente continue pensando na nossa própria vida e na de todos os envolvidos na obra.

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

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