21 de abril de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Hanna Seabra
Revenge porn e a escola

Imaginem vocês que estão em um relacionamento (afetivo, sexual, casual, o que seja) e decidem enviar fotos íntimas, vídeos ou mensagens com conteúdo sexual porque confiam no parceiro. Até mesmo porque ele jurou de pés juntos que nunca ia mostrar pra ninguém e que inclusive apagaria do celular logo em seguida. Tudo bem. Imaginem vocês que depois de algum tempo, este relacionamento acaba por sua iniciativa. Seu ex apresenta dificuldades para aceitar, fica no seu pé, te ameaça. Você mantém sua decisão e ele, então, por um ato que geralmente é visto como vingança, divulga toda a intimidade que você lhe confiou.

Isso é conhecido como revenge porn ou pornografia de vingança, e consiste no ato de expor na internet fotos e/ou vídeos contendo cenas íntimas, que são divulgados sem o consentimento da pessoa (geralmente ex-parceira), mesmo que gravados de forma consentida. São rapidamente espalhados pelas redes sociais, em especial pelo WhatsApp.

O revenge porn atinge incontáveis mulheres no mundo todo e é responsável por diversos casos de slutshaming, levando seus alvos à humilhação pública, ao isolamento e até ao suicídio. Apesar de ser relacionado a atos de vingança, em que o cara acaba “perdendo a cabeça” e basicamente acaba com a vida da garota, expondo-a dessa maneira, o revenge porn tem muito mais a ver com machismo. E por quê?

Porque se o revenge porn se tratasse mesmo de pura vingança, os vídeos e fotos divulgados seriam um tiro no pé, uma vez que exporiam o próprio cara, que também esteve envolvido em tais situações – e isso ninguém parece perceber. Mas o que realmente acontece, e isso devido ao machismo da nossa sociedade, é que somente a mulher é humilhada por ter sua intimidade exposta. Por diversas razões: mulher tem a sexualidade controlada; seu corpo é visto como domínio público e por isso está sob o julgamento de todos ao redor; a mulher é culpabilizada por todas as violências que sofre, inclusive o revenge porn; mulher que “presta” não toparia essas coisas… Por que somos nós as culpadas por um cara ser desonesto? Então quer dizer que não podemos confiar em nossos parceiros, já que, mais cedo ou mais tarde, eles nos exporão para que sejamos alvos de humilhação? Por que uma mulher não pode ser livre sexualmente para agir como quiser em relação ao próprio corpo? Por que ela tem que ser julgada por isso? Mas, principalmente, por que tudo isso recai SEMPRE sobre a mulher, e nunca sobre o parceiro que a expôs, desrespeitou, humilhou e agrediu por meio do revenge porn? E, em muitos países, está cometendo um crime.

É preciso perceber o que há por trás de todas essas questões e culpar os verdadeiros culpados: homens “vingativos”, que se aproveitam da sociedade machista para humilhar mulheres, somente por serem mulheres, que ousaram ter voz e atitude. O que quero dizer com isso é que nossa sociedade é bastante (e vergonhosamente) conivente com este tipo de agressor, tratando a violência do revenge porn como um episódio de “ciúme”, de “vingança por um coração partido”, como se alguma mulher merecesse o que sofre. Não se leva em conta os prejuízos que tal exposição traz à vida da vítima, que perde amigos, emprego, pode ser expulsa do colégio, perde a autoestima, é julgada pela família, é isolada pela sociedade ou então acaba se isolando e, no limite, se suicida. E de quem é a culpa? Certamente de todos que escolheram ignorar a gravidade da exposição, que escolheram o lado da opressão e da violência. E isso não é diferente no âmbito escolar. Meninas que estão provavelmente inciando sua vida sexual, descobrindo seu corpo e seu prazer, estão começando a ter relacionamentos e experimentando a relação que sexo e internet podem ter, são alguns dos alvos mais frequentes de revenge porn. Porque, se a livre sexualidade de mulheres incomoda, a de meninas causa mais espanto ainda.

Com certa e indesejável frequência, as escolas que são palcos de casos de revenge porn atuam de maneira conivente com os alunos garotos que iniciam esse tipo de exposição, tendo no máximo uma conversa privada, envolvendo pouco a comunidade escolar e os pais em campanhas pedagógicas de conscientização. Ou seja, prevalece a atitude de “colocar em panos quentes” o caso e se eximir da responsabilidade, já que, se caiu na rede, não está mais “sob controle”. Enquanto isso, a menina é ridicularizada, ostracizada e às vezes até precisa se afastar da escola, lugar onde deveria se sentir segura, e o garoto segue frequentando o espaço sem maiores incômodos e sanções.

É preciso que se comece a falar sobre revenge porn, violência de gênero e exposição misógina cada vez mais cedo, e essa conscientização deve começar na escola. Principalmente porque é nessa faixa etária que adolescentes iniciam sua atividade sexual, suas descobertas em relação à sexualidade e começam a aprender a se relacionar. Isso tem que acontecer de maneira respeitosa, autônoma e empoderadora, sobretudo quando diz respeito à sexualidade feminina: é preciso desestigmatizar a divisão sexual dos gêneros, que torna a sexualidade masculina normal e encorajada, e a de meninas, anormal e julgada. E revenge porn, assim como todos os outros tipos de violência contra a mulher, não podem mais ser tolerados.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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