30 de abril de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Game do Mês: The Last of Us – Left Behind
Foto: divulgação

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De vez em quando aparece uma história com o poder de ficar na cabeça por muito tempo depois de ter acabado, assombrando a mente com indagações e dúvidas. “O que é o certo e o errado nessa situação?”, nos pegamos pensando. “Quanto vale a minha felicidade quando pesada na mesma balança que a ética e a felicidade alheia?”.

Foi nesse estado em que fiquei após a conclusão de The Last of Us, jogo lançado para Playstation 3 no ano passado. A história de The Last of Us se passa vinte anos após o surgimento de uma epidemia que mata e infecta uma parte considerável da população mundial com uma espécie de fungo “zumbificante”. O apocalipse zumbi não destrói completamente a sociedade, criando em vez disso pequenas cidades-Estado autoritárias onde toque de recolher e cartões de provisões são a regra.

Joel, o protagonista, é um sobrevivente amargurado que acaba numa viagem que talvez defina um novo futuro para a humanidade. Sua missão é escoltar Ellie, uma menina de 14 anos imune aos efeitos do fungo, para um laboratório do outro lado do país, onde uma vacina está sendo pesquisada. No percurso, um vínculo vai ser formado entre Ellie e Joel, testando lealdades, compaixão, coragem e crenças.

Não vou estragar o final, mas garanto que a resolução é surpreendente e ainda me deixa, oito meses depois de tê-lo zerado, pensativa sobre a última decisão de Joel.

Dito isso, não seria estranho se, depois de entregar um material tão arrebatador, aclamado pela crítica e por jogadores do mundo inteiro, a Naughty Dog – a desenvolvedora do jogo –, pudesse se sentir confortável onde estava. A prática de lançar DLCs (“conteúdo baixável” em bom português, ou seja, conteúdo extra que pode ser adquirido para complementar o jogo e normalmente pago à parte) tem se revelado muito lucrativa para a maioria das produtoras e já era de se esperar que The Last of Us fosse também fazer proveito disso.

O que surpreende mesmo é a qualidade desse material.

Ellie, a protagonista de Left Behind. Foto: divulgação.

Ellie, a protagonista de Left Behind. Foto: divulgação.

Existe no mercado uma quantidade razoável de DLCs interessantes e altamente compráveis por aqueles que desejam acrescentar histórias, equipamentos e personagens para seus jogos. Mas poucos expandem a experiência de uma maneira tão agradável e coerente como Left Behind, lançado em 14 de fevereiro último.

Diferente do que acontece na campanha principal, o foco de Left Behind está em Ellie. Trabalhando com duas linhas temporais distintas (uma que ocorre em um momento específico durante o progresso do jogo e outra algumas semanas antes dos eventos de The Last of Us), somos apresentados a mais algumas camadas de personalidade da coprotagonista.

Eu poderia me estender por páginas em elogios à jogabilidade, ao ritmo e às pequenas inovações sensíveis que Left Behind tece com muita habilidade. Porque, como videogame, o DLC é bom, e muito, em cada minúcia técnica.

Em vez disso, porém, prefiro falar sobre como, através de uma estrutura na qual é o jogador quem vai dando ritmo a história, eu tive o prazer de receber uma das melhores e mais sensíveis histórias de amizade, amor e fim de infância de minha vida. Left Behind não é apenas um conteúdo extra que consegue fazer jus a The Last of Us: o DLC é uma história com um coração próprio, que não se limita a repetir as qualidades do campanha principal, como as leva a um patamar muito mais íntimo e delicado. É como se TLoU fosse o romance principal, onde as principais aventuras, mistérios e conflitos explodem, e Left Behind uma noveleta, mais curtinha e singela, que se debruça com carinho sobre um grupo mais seleto de personagens. No caso, a própria Ellie e sua melhor amiga, Riley.

I Got You, Baby

Ellie e Rilley. Foto: divulgação.

Ellie e Riley. Foto: divulgação.

Diferente de Joel, Ellie nunca viu o mundo antes do apocalipse. Não conheceu o pai, e sua mãe parece ter morrido há algum tempo. Passou boa parte da vida pulando de colégio interno para colégio interno, normalmente expulsa por algum tipo de mau comportamento que incluía furto, fuga e se meter em brigas. Parece pequena e frágil, mas isso só na superfície: nesse mundo onde nasceu, só os sobreviventes conseguem se manter de pé, e Ellie definitivamente é uma sobrevivente.

Numa de suas trocas de colégio conhece Riley, uma garota alguns anos mais velha. Forte e autoconfiante, Riley quer acreditar que a vida pode ser mais do que se tornar um soldado que engrossará as tropas que mantêm o controle e a proteção nas cidades – algo que invariavelmente acontecerá quando ela completar 17 anos. Apesar das primeiras impressões conflituosas, não demora muito e as duas se tornam melhores amigas. Até que Riley finalmente entende que, para mudar seu destino, precisará entrar para o clã dos Vagalumes – um grupo de milícia antigoverno – e abandonar Ellie.

O DLC Left Behind se passa alguns meses após isso. Riley consegue se juntar aos Vagalumes e, orgulhosa, vai contar as boas novas à amiga. De quebra, pretende restaurar o relacionamento com Ellie, que ficou abalado depois que ela a deixou para trás aparentemente sem pensar duas vezes. E é aí que o jogo e nós, os jogadores, entramos.

Entre zumbis cegos e carrosséis abandonados

Um dos muitos momentos marcantes do DLC. Foto: reprodução.

Um dos muitos momentos marcantes do DLC. Foto: reprodução.

Left Behind é quase exclusivamente sobre Ellie, uma personagem apaixonante por ser tão, tão real. Diferente de uma parte considerável das heroínas dos videogames, Ellie não está ali para ser o ideal de “mulher forte” ou para seduzir o jogador homem. Ela simplesmente é Ellie: uma personagem complexa, com momentos divertidos, momentos irritáveis, momentos sábios e momentos violentos. Ela não é o clichê da “adolescente revoltada” embora seja adolescente e apareça frequentemente revoltada – com razão.

Como vive num mundo pós-apocalíptico tomado por zumbis, seu crescimento como personagem passa tanto pela descoberta da amizade e do amor quanto pelas necessidades de sobreviver por conta própria. (O que não é problema nenhum já que, cá entre nós, matar zumbis é terapêutico.)

Portanto o DLC alterna entre momentos narrativos na qual Ellie e Riley tentam restaurar a amizade danificada e na qual nossa coprotagonista luta para sobreviver a forças hostis enquanto procura remédios para um Joel ferido. A alternância entre esses dois momentos tão distintos torna a experiência de cada um deles mais saborosa e deixa na cara o quão gritantemente diferentes eles são.

Até o momento em que não são mais.

Num momento estamos encontrando maneiras de entrar numa farmácia abandonada, nos esgueirando pelos canteiros e fazendo o possível e imaginável para não ter a cara devorada por um morto-vivo sedento. No outro, Ellie descobre pela primeira vez a sensação de se estar num carrossel, enquanto troca piadas ruins com Riley e sonha em reconquistar as pistolas d’água tomadas pelo diretor do colégio. Não é uma vida fácil, mas é tão cheia de sonhos e promessa quanto possível. No percurso, não apenas percebemos através da experiência do jogo o amadurecimento de Ellie, como compreendemos a dimensão de sua relação com Riley. E é impossível não ficar comovida.

O DLC é curtinho (se você joga mais ou menos bem ou se colocar no modo fácil, provavelmente acabará em torno de duas ou três horas) e te deixa com um gostinho de “e agora…?”. Aquela vontade de ser episódico, de ter mais daquele mundo e daquelas garotas que são tão interessantes e tão vivas. É como terminar um livro querido e ficar ao mesmo tempo feliz e triste: feliz porque todas as pontas se amarraram, mas triste porque… c’est fini.

Se eu posso fazer uma recomendação, é essa: dê uma chance para The Last of Us e para Left Behind. Se não tem Playstation 3, perturbe aquele amigo ou amiga, primo ou prima, namorado ou namorada. Faça uma sessão da tarde de jogatinas e conheça um pedaço da vida de uma menina que poderia ser você, mas que (por sorte sua) não é.

O PIOR: Os controles podem ser um pouquinho difíceis para quem não tem hábito de jogar videogame. Colocar no modo fácil pode ser uma boa pedida para quem deseja curtir apenas uma boa história. Além disso, é exclusivo para o Playstation 3.

O MELHOR: Personagens, história e a experiência completa. O ritmo é divertido quando precisa ser divertido, tenso (muito!) quando precisa ser tenso e sempre emocionante. Uma história que merece ser jogada mais de uma vez e que fica guardada na memória.

Fica o trailer!

Um aviso justo: O game possui cenas fortes e intensas que não são recomendáveis para o estômago de todo mundo. O DLC foca menos nesse aspecto do que o restante da série, mas antes de jogar leve em conta que o universo dessa história é permeado de violência. Nada muito diferente do que você vê em  um The Walking Dead, porém 😉

 

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Gabriel Pereira

    Excelente review, moça! 2013 foi um ano incrível para jogos em basicamente todos os sentidos (inclusive na criação de personagens femininas interessantes e complexas – provavelmente o melhor ano da história dos games nesse aspecto), e The Last of Us é meu favorito deste ano cheio de favoritos. O DLC é uma perfeição em narrativa e jogabilidade. A Ellie que conhecemos na história principal do jogo é uma das personagens mais humanas a aparecer em qualquer mídia nos últimos tempos e o DLC brilha em explorar os pontos que estavam em branco até então – inclusive certas descobertas de detalhes dessa “humanidade”, tal como conhecemos hoje, que até então eram estranhos para ela.
    Grande jogo, grande DLC e grande texto 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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