17 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Romances de formação, para além de Holden Caulfield
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Sabe aqueles livros que retratam um personagem jovem/adolescente se descobrindo, descobrindo o mundo, e que acabam com o personagem mais maduro? São livros como As vantagens de ser invisível e O apanhador no campo de centeio, desses que a gente acaba se identificando muito porque falam sobre sentimentos universais de juventude e crescimento, livros que a gente costuma chamar de “romances de formação” (ou, para as poliglotas por aí, Bildungsroman em alemão e coming of age story em inglês). O problema é que a maioria desses livros (como esses dois exemplos famosos que eu destaquei aí) é sobre a formação de um tipo específico de jovem: um garoto, branco, cis, heterossexual (normalmente de classe média). E, por mais que muitos dos sentimentos da adolescência sejam meio universais, as experiências desses personagens não são tão universais assim – são baseadas em bastante privilégio e bem diferentes da experiência de muitas de nós.

Ia usar o post de hoje para explicar melhor o conceito desse tipo de livro, e criticar essa falta de recortes de gênero, de raça, de classe e de sexualidade, mas decidi fazer um post mais positivo: existem livros que fazem os devidos recortes e tratam de realidades mais diversas, então por que não lê-los? Segue uma lista de cinco sugestões de romances de formação que não são sobre caras-brancos-cis-ricos-heterossexuais:

 

A redoma de vidro, Sylvia Plath:

Esther, a protagonista desse romance de Sylvia Plath, tem 19 anos e tudo está dando certo para ela: estuda numa ótima universidade, é reconhecida por seu trabalho de escrita e está vivendo um tempo em Nova Iorque por conta de um estágio em uma revista. Tudo está dando certo, mas ela não está bem. É um romance triste e muito real sobre as dores da depressão, sobre as pressões colocadas sobre jovens mulheres (por muito tempo do livro, Esther se vê obcecada com a ideia de “pureza”, especialmente sexual) e sobre as incertezas que temos a respeito do futuro. Lá no começo da Capitolina, a Taís escreveu sobre esse livro exatamente no contexto de romances de formação, então se quiserem uma análise mais elaborada, recomendo demais o texto dela!

 

A fantástica vida breve de Oscar Wao, Junot Diaz:

Este é um dos meus livros favoritos, porque Junot Diaz representa a realidade dos jovens filhos de imigrantes – no caso, de Oscar, um adolescente gordo, socialmente isolado e fã de ficção científica e fantasia, de origem Dominicana, vivendo em New Jersey, nos EUA. O romance é dividido em três partes e oito capítulos, todos bastante diferentes – o segundo capítulo, por exemplo, muda de ponto de vista, focando na irmã de Oscar, Lola –, e a maior parte da história é narrada por Yunior, um ex-namorado de Lola, também da República Dominicana. O que mais me marca é a linguagem, que oscila entre pequenos exageros literários e muita casualidade, e que usa, sem preocupação com o leitor americano leigo, palavras e expressões em espanhol, deixando bem clara a diferença da experiência imigrante.

 

Eleanor & Park, Rainbow Rowell

É 1986 e Eleanor – uma garota de 16 anos, gorda, de família pobre, que sofre violência em casa, e bullying no colégio – conhece Park – um garoto de 16 anos, de origem coreana. Os dois desenvolvem uma amizade apoiada num gosto comum em música e quadrinhos, e, com o tempo, se apaixonam. O romance é fofo e triste, é pra ler com caixa de lenços do lado pra conter as inevitáveis lágrimas, e em alguns momentos eu achei um pouco água com açúcar demais – mesmo assim, vale muito a pena como romance de formação, porque retrata o crescimento de uma personagem quando as condições ao redor dela não são nada ideais para que ela cresça.

 

Middlesex, Jeffrey Eugenides

Uma mistura de romance de formação e saga familiar, Middlsex tem como protagonista Cal Stephanides, nascido Calliope, um jovem intersexo que é designado garota ao nascer e vive como tal até a adolescência. Para entender a história de Cal e seu crescimento pouco tradicional, é preciso entender também a história dos Stephanides, uma família de imigrantes que saíram de uma pequena cidade grega para a Detroit industrial na década de 1960. Cal é um narrador fascinante, e a história que conta é igualmente interessante, da origem de seus avós até seu presente vivendo em Berlim.

 

I know why the caged bird sings, Maya Angelou

Estou trapaceando um pouco com esse livro: é um livro de memórias, não um romance, e não consegui encontrar uma edição em português (apesar de ainda ter esperança de achar). No entanto, é uma narrativa de formação tão intensa e marcante que senti que seria uma falha não inclui-la na lista. O primeiro livro autobiográfico da escritora e poeta Maya Angelou, I know why the caged bird sings começa com Maya aos três anos de idade, e acaba com ela aos 16, grávida. O livro é definitivamente pesado – a história é perpassada pelo racismo e machismo esperados na realidade de uma jovem negra no sul dos Estados Unidos, e inclui cenas de estupro –, mas mesmo assim recomendo. A quem interessar, Maya Angelou escreveu outros seis livros de memórias, contando o restante de sua vida, que ainda não vi mas devem ser igualmente maravilhosos.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • Marina

    Simplesmente amei esse post, não só por estar lendo Eleanor & Park, mas também porque era exatamente isso que estava procurando! Pro mais livros como esses no mundo para que sejam criadas mais listas como essas!

    • http://sofiasoter.com Sofia Soter

      Obrigada, Marina! (: Espero que goste dos outros livros! Se estiver gostando de Eleanor & Park, recomendo demais também Fangirl, da mesma autora.

  • Patrícia Santos

    Demian de Hermann Hesse é um ótimo livro também.
    Super recomendo.

    • http://sofiasoter.com Sofia Soter

      Ótima recomendação, também gostei muito quando li!

  • http://www.paleseptember.com Tany Monteiro

    Obrigada, obrigada e mais obrigada de novo! <3

    • http://sofiasoter.com Sofia Soter

      De nada, Tany! <3

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Amei demais esse post também, amor ler e estava querendo muito ler esse tipo de coisa! Queria falar de dois livros também, que não tenho certeza se podem ser chamados de romances de formação. O primeiro é O Extraordinário, que está bem famosinho e tem muitos motivos para isso, que é sobre um menino que tem uma grave deformação no rosto e sua história quando vai para a escola a primeira vez. O outro é Uma Razão para Respirar, primeiro livro da trilogia Breathing, que é sobre uma menina que apanha da tia. Apesar de não ser exatamente bem escrito, o livro te prende de uma forma impressionante e você sente tudo na pele.

    • http://sofiasoter.com Sofia Soter

      Conheço “Extraordinário”, mas ainda não li, e nunca tinha ouvido falar de “Uma razão para respirar”! Vou procurar os dois, obrigada pelas dicas! (:

  • Pingback: Recapitulando: Out. 2015 - Sofia Soter()

  • Daniela Soares

    Que post maravilhoso minha gente. Me ajudou muito, diga-se de passagem. Estava procurando um romance de formação para ler para um desafio e estava esperando um livro denso, pesado (em todos os sentidos da palavras), tipo David Coperfield e tal… Mas eis que encontro A fantástica vida breve de Oscar Wao nessa lista. Na hora já peguei da estante e inclui na lista do meu desafio. Muito obrigada…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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