4 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Roubo de protagonismo: nem sempre estamos no palco das lutas — e tudo bem

Talvez você já tenha percebido que está cada vez mais comum nos envolvermos em discussões, principalmente sobre questões sociais. Isso acontece o tempo todo, com todo mundo, no Facebook ou durante a aula. Às vezes com conhecidos, às vezes com desconhecidos mesmo. Quanto mais tomamos consciência de todos os problemas que nos cercam, e do quanto há pessoas oprimidas na sociedade, mais falamos e discutimos sobre. Isso é ótimo. Só temos que tomar cuidado para não deixar a nossa empolgação em defender uma pessoa ou causa silenciar exatamente o que desejamos que seja respeitado.

Com o avanço dos movimentos sociais, os negros, o feminismo e a comunidade LGBT, mesmo que aos poucos, têm suas pautas atendidas, ganham voz e conseguem mais espaço em uma sociedade historicamente contrária a tudo que fuja do padrão hétero-branco-patriarcal. Isso é ótimo. Mas como não poderia deixar de ser, algumas pessoas não ficam felizes com esse avanço e atacam todos que fogem ao padrão. E como nós já tomamos consciência de que isso é um problema, cismamos de entrar em discussões, produzir informação e falar como se fôssemos parte daquela luta. Ao fazermos isso, estamos diminuindo todas as conquistas que pessoas realmente envolvidas naquela luta tiveram e anulando todas as batalhas diárias que elas tiveram que enfrentar. Estamos roubando o protagonismo de quem já quase não tem só para reafirmarmos que estamos cientes da existência de uma opressão. Não precisamos disso.

Roubar o protagonismo é você aparecer mais do que a pessoa que realmente deveria protagonizar aquela luta, aquela ação, aquele movimento. Roubo de protagonismo não é piada. Se você é branco e rouba o protagonismo de uma pessoa negra, você está fazendo o que a sociedade racista sempre fez: silenciando pessoas negras. Se você é heterossexual e rouba o protagonismo de uma pessoa homossexual, você está fazendo o que a sociedade lesbofóbica e homofóbica sempre fez: silenciando lésbicas e gays. Qual a novidade disso? Onde há luta nessa ação?

Se for uma discussão, o mais legal é chamar uma amiga ou um amigo que tenha propriedade em falar sobre aquela luta. Tudo irá ficar explicado da melhor forma, pois ele poderá falar do que vive e do que sente. Se não for possível, o ideal é sempre apontar para a pessoa com quem você está conversando sobre os privilégios que ela tem. A conversa vai ser produtiva da mesma forma, sem chances de rolar um token.

Talvez seja difícil nos conformarmos em não estarmos no palco o tempo todo. Mas isso também faz parte da vida. Não é sempre que estaremos lá para receber aplausos ou celebrarmos uma conquista. E tá tudo bem, também. Se nós temos consciência que o mundo tem várias nuances e milhões de pessoas com demandas diferentes, precisamos entender que nem sempre estaremos à frente de tudo. Não é ruim não estar no palco se lá não é nosso lugar. Estar na plateia também tem vantagens maravilhosas. Ali, sentadinhos, aprendemos sobre empatia, a ter respeito ao próximo e saber ouvir. E se a empolgação pela conquista das pessoas que queremos bem for sincera, aplaudir vai ser incrível e a felicidade vai ser enorme, também.

Lola Ferreira
  • Revisora
  • Social Media

Lola tem 22 anos, mora no Rio e é apaixonada por ele e pelo jornalismo. Busca o contato com suas raízes a todo tempo, e deseja que todas as mulheres negras assim o façam. Lê, escreve e estuda muito - mas julga que nunca será suficiente. Deveria se importar menos com a opinião alheia, mas ao mesmo tempo ouvir os outros é o que mais gosta de fazer. Acredita em astrologia e no amor como chave para mudar o mundo.

  • Mayara Teixeira

    Putz, fui tocada pelo seu texto. Preciso admitir que tenho esse grave problema de participar de discussões como se eu fosse da causa, muitas vezes até ofuscando a pessoa que, de fato, pode falar do assunto. Enfim, obrigada pelo “despertar”! Adorei teu texto, guria!

  • Mila

    beleza não publicar meu comentário (Y)

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Concordo com você, obviamente, as lideranças do movimento LGBT devem ser LGBT, mas não é um problemas ter pessoas que não são no movimento. Principalmente que deixar essa luta apenas com eles também é uma forma de exclusão, eles são tão “diferentes assim” que outra pessoa possa lutar com ela?

  • Pingback: Conquiste sua voz! — Capitolina()

  • Rafael Barreto

    Sou professor de filosofia e sociologia e por vezes me vejo em palestras sobre essas lutas, em particular, os movimentos sociais que buscam equidade. Acho interessante a posição de algumas feministas, mas “o legal é chamar alguém e ficará melhor explicado” nem sempre é possível, pois sempre convido mulheres (que tenham lido Simone ou Judith Butler) para minhas palestras, mas “estou muito ocupada” ou “não posso sempre dar aula com você” – nesse caso, fica a dúvida: devo me calar? Não seria o caso de divulgar todas as ideias referentes ao ódio que experimentamos contra a mulher, o negro e o homossexual, mesmo que eu esteja, em sala de aula, sim, roubando o protagonismo?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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