9 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Sai pra lá com essa história

O tema deste mês de março na Capitolina é História. Não me impressiona que, olhando os diversos temas que vão sair nesta edição mensal, eu perceba que é impossível que cada uma de nós escrevesse um texto parecido partindo do mesmo ponto. Claro que é pouco provável que com qualquer outro tema muitas meninas escrevessem todas textos semelhantes, mas o que me chamou mais a atenção é que achei que desta vez, especificamente com este tema, isso se torna ainda menos provável, porque, quando a linha condutora é história, nossas bagagens pessoais têm um peso ainda maior naquilo que escrevemos, né?

Mas não foi para isso que vim escrever aqui hoje! O que eu queria na introdução deste texto é deixar claro o peso que minha bagagem de experiências pessoais vai ter nele. Vamos ao que interessa: alguma vez na sua vida você sentiu que uma amiga (ou algumas amigas) estavam tentando colocar ideias na sua cabeça? Ou que as pessoas estavam tentando ditar como você deveria ser (ou agir ou pensar ou se comportar)? Que a sua história deveria de alguma forma ser parecida com a DELAS ou com aquilo que elas achavam melhor para você? Pois é, amiga, você não está sozinha.

Tentando não pensar naquelas pessoas mal-intencionadas, isso é algo que pode acontecer com qualquer amizade. Principalmente quando somos novas, pois é muito difícil a gente se afirmar e construir aquilo que queremos ser sem sofrer NENHUMA influência das pessoas ao redor. Durante a minha adolescência, eu sentia muito que havia uma tendência a isso acontecer. Via as meninas populares da escola e via como era comum outras garotas imitarem o comportamento delas. Ou tentarem dizer para mim como eu deveria agir para ser parecida.

Felizmente (ou não), sempre fui muito cabeça-dura e tive uma personalidade forte. Lembro que eu chegava a fazer ponto-cruz no intervalo de aula (não façam isso em casa! – ou façam, é divertido) para não ter que estar perto dessas “influências ruins”, que queriam que eu não fosse do jeito que sou. Parece que sempre fui uma pessoa confiante e não me importava com essas coisas.

Conversando com outras meninas da Capitô sobre a dificuldade de escrever um texto útil sobre esse assunto, já que nunca tive problemas em ficar longe de pessoas que tentavam me ditar regras, fui percebendo que nem sempre é simples ser confiante durante a (pré-)adolescência, e que essas amizades equivocadas podem deixar marcas profundas na gente. Muitas garotas já sofreram tentando agir da forma que as colegas julgavam mais legal, ficando frustradas por sentir que sua personalidade era incompatível com aquilo que faziam. Outras passaram (ou vão infelizmente passar) por amizades abusivas, que vão tentar tomar as rédeas de suas vidas, fazê-las acreditar que sempre estão tomando as decisões erradas, que não são capazes de traçar seus caminhos e construir suas histórias sozinhas.

Já falamos na Capitô de várias formas de abuso e/ou de relacionamentos abusivos, aqui e acolá, mas acho que estamos longe de ter abordado todas as formas como o abuso pode se manifestar – e nos apagar aos poucos. Amizades também podem se tornar relacionamentos abusivos quando são construídas de maneira assimétrica – como quando aquela sua ~amiga quer te mostrar como tudo que ela faz é melhor e como apenas o jeito dela está certo. Reitero que muitas vezes isso não acontece de propósito. Creio que uma das causas disso seja a dificuldade que muitas temos na hora de colocar as coisas em perspectiva. Nossas bagagem emocional é diferente, nossa personalidade é diferente. Concorda comigo que é praticamente impossível saber o que é melhor pras suas amigas se muitas vezes nem sabemos o que é melhor para nós mesmas? E não é por causa disso que deixamos de dar conselhos, mesmo sabendo que conselhos nem sempre ajudam… Mas quando vamos além do limite dos conselhos e começamos a nos envolver num problema que está além de nosso alcance, talvez seja hora de parar e rever o que estamos fazendo.

Quando alguém – seja essa pessoa uma amiga mais próxima, uma conhecia ou colega de trabalho – tentar sistematicamente te ditar as regras do mundo e aparentar saber sempre o que é melhor para você, querida leitora, eu proponho a seguinte reflexão: o que é melhor para você? Pergunto-me, aliás, se existe tal coisa. Será que existe um caminho melhor? Podemos sim pensar sobre a forma como tomamos decisões em nossas vidas – se há um padrão pessoal seu na hora de tomar um rumo e se esse padrão está te fazendo mal, por exemplo. Mas saiba que não há um jeito “certo” de viver, que não há aquilo que pode ou não ser feito. Isso é uma decisão apenas sua – e as consequências que vêm com essas escolhas também. Porém, ressalto: não importa a consequência, a escolha é SUA. A história é sua, então para que deixar outra pessoa ser a protagonista?

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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