4 de abril de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Saindo com outras meninas

Flertar com pessoas é sempre difícil em algum nível. Quando a pessoa que queremos paquerar é outra menina, essa tarefa fica umas mil vezes mais complicada, porque entram fatores como homofobia e falta de presença dessa situação na mídia (quem já viu um filme em que uma menina chamava outra menina pra sair? eu) em jogo, e essas coisas são muito influentes na hora de tomar essas ações. Tentando deixar tudo isso mais fácil, duas colaboradoras da Capitolina – a Barbara Fernandes e a Beatriz Leite — que já tiveram experiências em encontros com outras meninas responderam a algumas questões sobre o tema.

Vocês vão perceber que, em muitas questões, as nossas duas colaboradoras discordam, e isso só quer dizer uma coisa: que não existe livro de regras para fazer isso! Cada uma tem seu jeito, seu tempo e seus limites, e sabe o que quer e o que não quer fazer. Fazemos essa matéria para sinalizar algum norte para quem está passando por essa situação, mas ela não é nenhum tipo de guia definitivo. Também queremos que vocês lembrem que garotas lésbicas não são parques de diversão! Às vezes garotas se relacionam com outras como experimentação e diversão casual sem que essa intenção seja clara, e não respeitam os sentimentos da outra parte, que poderia estar realmente envolvida no relacionamento, portanto: tudo tem que ser conversado, nem que a conversa sirva só para vocês acordarem que tudo vai ser só casual, da mesma forma como insistimos que seja feito em qualquer relacionamento.

Se tiver mais dúvidas, pode colocar pra gente nos comentários! A Capitolina quer que você descubra e viva a sua sexualidade da forma que quiser, e não vai medir esforços pra te ajudar nessa empreitada!

1. Como demonstrar afeto em público sem correr o risco de ser agredido por alguém que seja homofóbico? Quais lugares são seguros?

Bárbara: O espaço público é bastante inseguro pras meninas, tanto heterossexuais quanto bi ou lésbicas, com exceção de alguns lugares bem específicos, voltados só pra mulheres, por exemplo. Eu cresci na capital de São Paulo e por lá conhecia alguns locais “seguros”, geralmente os mais voltados para o público LGBTQ ou pra uma galera mais alternativa. Hoje eu acredito que há uma tendência de maior empatia, que é diferente de aceitação, nos locais públicos, me parece que há uma maior resistência da galera LGBTQ em se assumir em público. Mas ainda falta muita coisa, como leis pra nos proteger e direitos civis básicos.

Beatriz: Não tem muito como prever se terá ou não gente homofóbica (e ademais, violenta) em qualquer lugar, principalmente nos públicos. O melhor é sentir com sua parceira como vocês querem encarar isso. Existem garotas que não conseguem demonstrar muito afeto em público, enquanto outras têm mais segurança e confiam na intuição. É questão de ver o equilíbrio entre vocês, não é legal desrespeitar os limites da(s) outra(s). Parte da mudança que a gente quer no mundo vem também de poder ser o que somos não só entre quatro paredes. Mas, claro, é bom estar atenta. Sozinhas, à noite e em uma rua vazia não é legal. Lugares com mais movimento sempre ajudam. E, caso alguma coisa aconteça, tente procurar ajuda e se afastar de quem te parece uma ameaça.
Primeiramente, os lugares seguros podem ser esses declaradamente “gay friendly” (não sei bem traduzir isso) ou voltados para o público lésbico/bi/etc. É legal pesquisar na sua cidade quais são estes lugares e ver com qual você se identifica — já que cada lugar tem uma vibe distinta, afinal, a comunidade LGBTQ não é homogênea. É também nesses ambientes que você pode encontrar apoio, se identificar, conhecer novas paqueras, grupos de discussão, etc. Dica: público “gay” muitas vezes se refere a homens gays e não lésbicas ou meninas bissexuais.
Outros lugares seguros não são necessariamente ocupados ou direcionados para a comunidade LGBTQ, mas você pode ver se se sente ameaçada pelos interesses de quem vai aí, se o bairro/área tem uma tendência maior a violência de gênero e sexualidade. Não estar em ambientes completamente isolados ajuda, mas preste atenção se o público que vai é em maioria homem e hétero (se for o caso, fique atenta, porque homens héteros — principalmente quando alterados por drogas e em grupo — tendem a ser extremamente desrespeitosos, invasivos e isso pode ser bem perigoso).

2.  Como “investir” na menina se não sei a orientação sexual dela? E se eu arriscar e ela for hétero?

Bárbara: A gente sempre pode perguntar pra um amigo em comum, ou dar uma fuçada nas redes sociais da mina, isso costuma funcionar pra mim! Mas e se vocês não tiverem nenhum amigo em comum, ou ela for reservada nas redes? Bom, você pode perguntar assim, na lata, ou então puxar conversa sobre a vida, sobre ideias etc. —  o que eu prefiro, porque sou muito tímida (e fico cem vezes mais tímida perto de garotas). Uma hora a gente descobre, sabe?

Beatriz: Eu acho que não vale a pena pensar muito se você sabe ou não a orientação, não é um requisito para se interessar por ela e também é algo muito sutil para se saber assim de antemão com tanta certeza. E vai que é uma moça que se diz hétero mas se interessou por você? Não pense se ela é ou não, só flerte com cuidado e respeito — como em geral é bom fazer — e veja a resposta. Aos poucos, com a aproximação, você pode ir sacando. Durante a conversa você pode tentar perguntar de uma maneira “despretensiosa” se ela se relaciona com garotas (se tiver a ver com o assunto) ou pode tentar induzir a conversa para isso. Só que se você nunca se aproximar… Não vai ter como saber!

 3. Como deixar claro que eu também fico com meninas? Tenho medo que outras meninas não cheguem em mim pressupondo que eu sou hétero.

Bárbara: Ainda hoje nós temos a sexualidade muito reprimida, mas a gente não pode ter medo de se assumir lésbica ou bissexual, ou pansexual! É bem difícil, principalmente quando a gente é adolescente e todo mundo acha que o que a gente pensa e quer não é relevante, ou é só uma fase. Também é meio complicado olhar pra alguém e dizer: é gay, é hétero, é assex. Na verdade não é nada legal esse negócio de “gaydar”.
Enfim, eu acho que o melhor jeito é sempre falar! Não precisa ser um dia especial em que você vai se assumir pro mundo (me assusta muito essa coisa de “o dia em que saí do armário”), mas numa conversa natural e sem pressão, eu acho mais fácil se abrir aos poucos.

Beatriz: Eu particularmente acho que é ruim tentar buscar fórmulas para decodificar os outros e a si mesma. Simplesmente seja você, o resto é orgânico e faz parte dessas coisas mais sutis como o olhar, a presença, conversa. Se alguma menina estiver na dúvida em relação à sua orientação, é bem possível que ela tente descobrir conversando com você — e se você sentir atração de volta, imagino que ela vá sacar. No caso de você querer ficar com alguém específico mas não saber bem como deixar claro que é bi ou lésbica, tente encontrar uma brecha na conversa que te permita comentar sua experiência com garotas (ou o seu desejo de tê-la… ou até mesmo falando sobre como você sente a bifobia ou a lesbofobia).

 4. Como fazer para que o encontro pareça um encontro, e não uma saída entre amigas?

Bárbara: Nunca achei fácil sair com meninas. Eu sempre tive uma mega dificuldade porque sempre achei meninas muito mais maneiras e interessantes, e isso faz com que eu pense que ninguém me quer porque não sou tão maneira e interessante, então acabo não conseguindo ser muito clara sobre as minhas intenções! Mas eu tenho uma lista mental de como fazer parecer um encontro ou como identificar que é um: só nós duas ou poucos amigos; é em algum lugar mais reservado, tipo um bar ou um restaurante; conversas mais pessoais, dessas pra se conhecer melhor; às vezes rola um silêncio constrangedor (comigo sempre rola e é a hora ideal pra deixar meio claro que aquilo é um encontro). É claro que nada disso é regra, você pode ter um encontro numa balada, ou num show cheio de gente, ou só conversar sobre seriados etc. O importante é ser legal pras duas.

Beatriz: Se vocês já são amigas, demonstrar que seu interesse é mais “amplo” é difícil mesmo. Nesse caso, eu diria que é importante tentar demonstrar aos poucos a sua intenção e depois chamar para sair “só nós duas”. É possível que você precise falar diretamente sobre o que você sente.
Se vocês não são amigas, o caso é o seguinte: ou você declara que é um encontro ou lida com a tensão de não ter certeza sobre como ela está interpretando isso. Lembrete: isso acontece em muitas ocasiões da vida, não tem como ter certeza de nada. Na hora H, quando vocês saírem, cada uma vai sacando a outra. De qualquer forma, existem programas que são mais ~afrodisíacos~, e outros, menos. Se é a primeira vez que irão sair, talvez seja legal quebrar o gelo chamando para algo interativo (cinema, exposição etc.) e depois ter a oportunidade de sentar para conversar: é aí que você poderá mostrar melhor suas intenções e ver a reação dela.

 

5. Quando chamar a menina para um encontro, como deixar claro que tenho intenções afetivas e/ou sexuais, e não que só quero ser amiga?

Bárbara: Será que não rola se declarar? Ou ser sincera sobre as suas intenções? Pode dar certo!
Pra mim, nunca rola, não consigo ser direta, por isso mudo o jeito de agir com a pessoa conforme minhas intenções! Se eu acho que vale investir numa relação afetiva, gosto de falar sobre o futuro, ficar planejando coisas com a pessoa, mesmo se for alguma coisa boba, tipo ver uma série, ou ir em algum show. Assim até parece coisa só de amigas, mas eu acho que a parte mais importante da relação é ter um sentimento de amizade e companheirismo, né?
E se minha intenção for só sexual? Eu ainda tenho um pouco de dificuldade nessa parte, mas eu acho que dá pra ir abrindo umas brechas com elogios, escolhendo um lugar bem reservado pra sair, ir jogando uma olhares (não sei fazer isso, mas se você souber, joga os olhares que deve dar certo) e aí é esperar que a pessoa entenda as investidas!

6. Como se portar em espaço público, caso uma de nós ainda esteja “no armário”? E se um amigo de algum de nós nos ver juntas e tomar um susto, porque não sabia que também gostávamos de meninas?

Bárbara: Eu acho que o melhor jeito é saindo do armário e se portando do jeito que você se sente melhor! Não dá pra esperar que todos te aceitem, mas é um direito ser respeitada.
Tá, não é tão fácil assim se assumir, mas tem que ser forte, né? Tem que resistir pra conseguir combater a lesbofobia. Não será confortável nem amigável, mas é um jeito de buscar um tiquinho a mais de liberdade.
Mas se ainda não chegou o momento de sair do armário, talvez seja melhor escolher lugares mais vazios ou que pessoas que você conhece não costumam frequentar.

Beatriz: Estar no armário é uma questão muito pessoal. Sair dele é um processo e, ainda que parte desse processo seja sair com outras pessoas, é algo que só tem a ver com UMA de vocês (seguindo a linha da pergunta). Você pode apoiar sua companheira, mas não viver isso por ela (e vice-versa). Se ela não está pronta pra dar as mãos e demonstrar afeto, você tem que ver o quanto se sente confortável com isso. Se for ao contrário, você terá que considerar que nem sempre ela gostará de sair “às escondidas”. Tente ver se é a hora de dar mais um passo ou se você precisa de mais tempo.
Se alguém vir vocês… Bom, cabe dar outro passo na saga “sair do armário”: assumir para essa pessoa também. Isso pode significar: agir de forma natural, não dar explicações porque ninguém é obrigada… ou ter uma conversa tranquila. Lembre-se de que bons amigos não irão se importar com isso e ficarão felizes em te conhecer melhor. Você (ou ela) com certeza sentirão alívio por serem mais sinceras consigo mesmas, e se a pessoa não aceitar bem a situação, relaxa, você agora pode se livrar de alguém homofóbico da sua vida… Porque ninguém é obrigada.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

  • Naty

    O início do post não soou legal e eu sei que vocês se esforçam para serem inclusivas… Gente, isso parece pan/bifobia: ” É comum ver por aí meninas que não são lésbicas nem hétero, e que saem com outras meninas esporadicamente, só como uma diversão, e não respeitam os sentimentos da outra parte”. Poxa, tem mesmo que insinuar que fazemos isso ao mesmo tempo em que nos excluem da conversa? Aff.

    Obrigada Bárbara e Beatriz pelas dicas e por lembrarem das garotas bissexuais e pansexuais nas respostas. o/

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Naty, você está certíssima! Muito obrigada por apontar a questão, porque de forma alguma queríamos ser pan/bifóbicas. Já estamos alterando o texto!

      • Naty

        Obrigada pela alteração! A nova versão ficou ótima =)

  • Jubs

    Sou apaixonada por uma menina do meu curso mas não tenho certeza se ela é lésbica ou não. Morro de vergonha de perguntar e não sei o quê fazer ainda. 🙁

  • Lumap

    Minas, mto massa essa matéria. Fiquei aqui pensando que bem que cês podiam fazer uma matéria sobre flerte entre minas. Por enquanto só me relacionei com caras, mas quando a atração por mulheres aparece, me dá um desespero de não saber como agir. Valeu 😉

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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