1 de novembro de 2015 | Colunas, Estilo, Se Liga | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
Saindo da zona de conforto — experimentos fashion

Há umas duas semanas minha mãe me pediu que a acompanhasse pra comprar maquiagem. Ao mesmo tempo senti estranhamento e um certo orgulhinho. Explico: minha mãe sempre foi “A Básica”, adepta das cores neutras e do visual cara limpa — no máximo um batom cintilante. Em casa, eu sou o par experiente entre nós duas. Aprendi sozinha (e até que bem direitinho) a me maquiar, vendo muito tutorial de YouTube. Pra mim não tem nada de mais pintar a boca de escuro ou usar iluminador, mas, pra minha mãe… uou! É todo um mundo novo. Então essa tarefa de “mentora da maquiagem” me animou muito, porque me fez lembrar de como é excitante sair da nossa zona de conforto e tentar algo novo com a nossa aparência.

Aí me veio a pergunta: “qual foi a última vez que eu me desafiei em termos de estilo?” Eu não fazia ideia. Percebi que estava empacada na rotina do guarda-roupa, que, mesmo sendo colorida, ainda é rotina. Tá certo que eu uso estampa pra caramba, batom rosa pra burro, brinco esquisito a dar com pau (por exemplo, de dinossauro, lápis e ovo frito), mas ainda tenho muito pra explorar.

Inspirada em mamãe, que demorou quase cinquenta anos pra se revelar entusiasta da peruagem, decidi fazer um experimento. Para o meu bem e para o bem da ciência capitolínica, passei uns dias usando roupas que eu não usaria normalmente, ou usando as roupas de sempre em ambientes que eu não costumava usar. Dei uma vasculhada no armário e encontrei muitas peças que eu adoro e não uso porque “vão mostrar minha dermatite”, porque “isso tava na moda há três anos atrás”, porque “ai, é bonito, mas nada a ver comigo”. Peguei todos esses discursinhos esfarrapados e atirei no fundo da gaveta, trocando pelas minhas pobres roupas negligenciadas.

Comecei tirando a poeira dos meus sneakers. Sim, estou falando daquele famigerado tênis de salto que bombou há uns anos atrás, aquele que foi amado e odiado com a mesma intensidade. Pois então, sou uma boboca e deixei de usar o meu par de sneakers pretos porque tinha muita gente usando e muita gente zoando pesadamente. Mas eu amava! Digo, amo! Ele é super confortável e me deixa com um andar feroz (pelo menos na minha cabeça, em que soam os metais de “Crazy In Love” toda vez que eu decido dar uma caminhadinha). Combinei com uma legging e fui pra faculdade assistir aula. Ao contrário das minhas expectativas, ninguém me olhou torto, ninguém deu um pio negativo.

Depois da primeira vitória, criei coragem e desenterrei uma saia bandagem verde esmeralda, que comprei porque achei a cor linda, mas nunca tinha usado (que vergonha). Combinei com meia calça preta, tamanco preto, blusa e jaqueta bem largas. O negócio de combinar com itens folgados e que me cobrissem foi importante porque eu me sinto muito exposta com roupas justas. Sabe como é, bunda grande, quadril largo… Mas dessa vez, rolou! Fui pra uma festinha de aniversário e me senti confortável e bela a noite toda.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e me inspirou a usar… preto. Um look preto total em mim, amante soberana das estampas florais, quem diria? Ok, a saia era preta de bolinhas brancas, mas acho que conta, né? Repeti o sneaker e joguei uma meia calça fio 60 e uma blusa bem fina de manga curta. Talvez esse tenha sido o visual preferido do desafio inteiro. De óculos de sol na rua, fiz minha gótica interior muito feliz e vi uma menina poderosa ao me olhar nos reflexos dos carros.

Por último, quis saber como eu me sentiria arrumadíssima no supermercado. Fiquei impecável, mesmo:  blusa cropped de manga três quartos, saia rodada que prendia na cintura e ia até o joelho,  sapatilha de verniz. E minha dermatite à mostra! Foi a única vez que as pessoas olharam estranho pra mim. Mas achei engraçado, não fiquei mal. Só senti que estava chamando atenção, e tudo bem. Eu tinha me olhado no espelho antes de sair de casa, então podia garantir que estava gata felina. Até me inspirei mais pra fazer compras: me senti a própria Branca de Neve e por pouco não saí rodando no meio das cebolas e cantando pras abóboras.

O veredito final? Vou continuar usando muito o meu sneaker, a saia bandagem, o preto total. Em momento algum me senti sendo ou imitando outra pessoa. Era eu mesma, confiante e muito animada com o novo. Arranquei elogios simpáticos (não que isso seja essencial, mas não nego que fiquei feliz) e fiquei orgulhosa de mim, que sempre falo pros outros não darem bola pra opinião alheia, mas, no fim, não estava seguindo o meu próprio conselho. “Ser você mesma” é incrível, mas, pra saber tudo o que a gente pode ser, às vezes é bom sair de nós mesmas, dar a louca, incorporar novidades.

Ainda tenho itens na minha lista de desafios: meia arrastão, maquiagem de glitter para trabalhar, shorts na academia, perder o medo de mostrar a dermatite. E, depois que essa lista acabar, pode ter certeza que vai vir outra. Isso aí vai longe, vai virar hábito. Descobri que, ao explorar todas as minhas possibilidades, o pequeno desconforto inicial se transforma na maravilha que é estar confortável na própria pele, independente da situação.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • http://sofiasoter.com Sofia Soter

    Juia, nos últimos meses tentei desenterrar umas roupas menos usadas do armário e descobri que super adorava alguns dos looks! Tô pensando em fazer um ~~desafio de estilo~~ para mim mesma (até pra me ajudar a arrumar o armário, hahaha), acho que vou começar logo agora que teu texto me motivou! <3

  • Mayara Knoeller Mendes

    Me senti muito inspira da e com certeza farei essa experiência!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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