18 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Saindo do quadrado: a arte que é vista como loucura

O quadrado: lugar onde tantas pessoas moram e tudo acontece como esperado. É esperado que a gente seja um reflexo do que a sociedade espera, e quando saímos desse padrão, somos colocadas no paredão da loucura, viramos aquela prima que não bate bem, a colega de sala que é meio tan-tan, a ex-namorada louca. Lembro de uma amiga que pintou o cabelo durante todo o colegial. Quando fui escolher uma faculdade, as pessoas perguntavam: você vai estudar artes, né? Quando saímos desse quadrado, somos vistas como loucas. No começo da faculdade, ficava abismada com os rapazes que se chamavam de loucos só porque curtiam umas festas e postavam fotos bêbados depois. Não entendia a loucura naquilo – até hoje não entendo. Mas eram esses caras que quando algum professor indicava um filme um pouco mais alternativos, iam assistir e ficavam perplexos com a loucura ali. “Nossa, é muito louco! Parecia que tinha tomado um ácido.” O que me deixa indignada nesse tipo de visão é que ali não está a loucura: ali está a leitura diferente do cotidiano que todos vivemos.

Ainda bem que temos essas leituras. Sem elas, onde estaria a arte? As interpretações artísticas teriam continuado representativas. Uma árvore, uma flor, uma mulher carregando um bebê no colo. Tudo como enxergamos. Na história da arte, vemos a arte deixando de ser representativa com o Impressionismo, um movimento que surgiu em Paris, no século XIX. Os artistas que participaram desse movimento faziam suas pinturas ao ar livre – plein air – e tinham uma técnica de pintura diferente. Não é a primeira vez que vemos a realidade sendo interpretada de maneira não-realista, lembra do Maneirismo? Mas é uma escola da história da arte que iniciou outros movimentos. A técnica, de diferentes formas, foi utilizada por Claude Monet, Édouard Manet, Pierre-Auguste Renoir, Edgar Degas – ei, parece que só homens foram Impressionistas, mas mulheres também participaram, a maioria fora da França, onde havia mais opções de formação para mulher. Berthe Morisot e Mary Cassatt, por exemplo, foram para outros países estudar, mas essa é outra questão.

Campo de trigo da Berthe Morisot .

Campo de trigo da Berthe Morisot

Foi apenas depois de muitas rejeições do imperador Napoleão III e dos críticos da época, incluindo uma exibição chamada de Salão dos Rejeitados, em 1863, que os Impressionistas começaram a ser aceitos pelo público. Esses artistas, que interpretaram a realidade de forma diferente, foram os que lideraram os movimentos da arte moderna: Fauvismo, Pós-Impressionismo, Cubismo, Surrealismo, Dadaísmo – tantas vezes interpretados como loucura. Às vezes, quando vou em alguma exposição, penso com gratidão naqueles que escolheram a arte como canal para mostrar o que enxergam para o mundo, mesmo que saísse do quadrado. São dessas interpretações que me sinto mais próxima e mais representada.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos