23 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Sair de fora para dentro
Ilustração: Clara Browne

Todas nós fazemos parte de alguma comunidade, na verdade de muitas… Da mesma forma que a maioria de nós já saímos de alguma(s) dela(s), mesmo que em pequena escala. Como assim? Talvez você possa não ter mudado de país ou continente… Mas de certo já saiu de uma escola para outra, ou de uma escola para faculdade ou mudou de bairro e cada um desses constitui uma pequena (às vezes nem tanto) comunidade.

Esse trânsito que fazemos entre comunidades não é incomum e está relacionado com nossa vontade (e a dos outros), a necessidade de mudanças e também capacidade de adaptação. Por vezes, algo além do nosso controle nos obriga a sair de uma comunidade, mas também existem aquelas saídas que são de nossa própria vontade. Quando uma pessoa participa de uma comunidade, ela comparte certos interesses, formas de convivência com os outros integrantes e se relaciona com eles. Em geral existe uma certa ordem nas comunidades, um modo de vida, de convivência, de agir. As coisas já têm seu lugar, você já tem seu lugar lá, mas não, isso não quer dizer que seja algo engessado imutável, de jeito nenhum. Mas ai que acaba que algo no seu bairro muda (o aluguel sobe, por exemplo) ou na sua escola (a maioria dos seus amigos mudaram de escola e você já não se identifica com aquele lugar). Essa nova coisa te incomoda, você precisa ou quer sair desse espaço. Ou, na verdade, quem mudou foi você, e aquela comunidade não conecta com seu “novo eu” ou ela não oferece algo que você passou a buscar, passa a faltar algo. Muitas vezes sentimos a necessidade de novas formas de conexões e, para tal, às vezes precisamos deixar as antigas para trás. Mas isso não quer dizer abandono completo: as coisas não são definitivas e a gente não é disco rígido para ser formatado apagando tudo o que passou por nós.

Ao sair de uma comunidade, as pessoas, as relações, os lugares, os costumes são todos outros. Eles podem nem ser tão diferentes e estarem até muito conectados, mas são outros – e é tão gostoso conhecer essas novidades!

Todas nós trazemos conosco as vivências de outra(s) comunidade(s), mas tem que rolar uma nova química entre você e a nova comunidade, diferente da que você tinha com a anterior. Agora você tem mais liberdade para escolher quais ingredientes vão entrar nessa nova composição; não é como antes que já estava o composto pronto e você precisava pensar bem antes de colocar um elemento ali para não rolar um acidente. Essa é uma das partes mais legais de mudar de comunidade. Ao mudar de país, por exemplo, há uma série de satisfações que você já não precisa dar a ninguém. É hora de começar a fazer mais as coisas por si e menos por uma tradição ou pré estabelecimento da sua ex vida cotidiana. Nós aproximamos mais de nós mesmas enquanto nos afastamos da antiga comunidade. Ou quem sabe nos aproximamos dela também? Pois a verdade é que, de fora, a gente sempre enxerga melhor, e sair de uma comunidade é sair um pouco de si também.

Quando saímos de um lugar para outro, é natural sentirmos falta de muitas coisas –inclusive aquelas cotidianas que antes nem dávamos bola: o bolo caseiro que só a cozinheira da cantina da sua antiga escola sabe fazer tão bem, o ponto de ônibus antes tão perto de sua antiga casa e tão longe da nova, as calçadas bonitas da sua inesquecível cidade natal… Mas provavelmente o mais importante das comunidades são os integrantes delas, as pessoas. Dessas, a gente sente muita falta quando vai embora, é inevitável. Mas por mais que a gente possa odiar não poder abraçar alguém, a gente pelo menos tem muitas formas de comunicação hoje em dia:  telefone, internerts (aqui vale muito o Skype – eita, aplicativo salvador!) e, dependendo de para onde a gente vai, se não for muito longe, sempre pode fazer aquela reunida semanal do pessoal da antiga escola, antigo trabalho, antigo condomínio, antigo bairro. De qualquer maneira, haverá novas pessoas para se conhecer, novas relações para se ter, novas conexões para se fazer. Mas talvez a pessoa com quem você mais se empolgue para descobrir (ou redescobrir) seja você mesma!

Lembra daquela coisa que estava incomodando antes? Pode ser que ela continue existindo na nova comunidade.  Aquilo que estava faltando? Pode ser que você não encontre na nova comunidade. Para lá disso, pode ser que naquela nova composição química algo tenha dado errado, algo tenha se tornado ruim para você. Ok, fazer essa mudança de comunidades não foi nada fácil ou simples. Muitas coisas precisaram ser deixadas de lado, mas isso não quer dizer que a gente não possa voltar atrás, não somos obrigadas a nada!  Quando saímos de um lugar para outro é pra crescer, se encontrar, conhecer, ser feliz. E quando isso acontece é tão bom! Mas se nada disso está rolando, talvez seja hora de partir para outra, quem sabe voltar para onde estávamos antes, talvez já não seja mais o mesmo lugar, mas certamente encontraremos o apoio daqueles que faziam (fazem, por que não?) parte de nossas vidas.

Isadora Carangi
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Essas coisas de apresentação me deixam um pouco travada, mas: me chamo Isadora, na Capitolina tem várias, eu sou a Carangi ou Cheddar (longa história) nasci em São Paulo, mas atualmente moro em Buenos Aires, onde estudo design gráfico dentre outras cositas más nas quais vou tropeçando e acho legais :)

  • Tat

    Texto MARAVILHOSO, super sensível, com conteúdos muito importantes abordados de forma extremamente inteligente, além de estar muito MUITO bem escrito. Sou hiper fã dessa menina, quero ler mais textos dela! 😀

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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