24 de abril de 2014 | Ano 1, Edição #1 | Texto: and | Ilustração:
Sair do ninho
Ilustração: Bárbara Carneiro.

Ilustração: Bárbara Carneiro.

Texto de Natália Lobo & Rebecca Raia.

Morar fora de casa – ou da cidade, ou do país – sempre pode parecer um pouco assustador. Mas, mostrando que para tudo se dá um jeito, duas de nossas colaboradoras falam um pouco das experiências delas no assunto.

NATÁLIA LOBO

Se você passou para uma faculdade longe da sua casa, provavelmente terá que morar sem seus pais. As opções de moradia são muitas: morar com várias pessoas em uma casa, morar com poucas pessoas em um apartamento ou casa pequena, morar sozinha em um apartamento, pensão, entre várias outras possibilidades. Na cidade onde estudo tenho percebido uma tendência enorme de escolha por morar sozinho, e os motivos são quase sempre os mesmos: a dificuldade em dividir e lidar com outras pessoas e seus defeitos.

Sair da casa dos pais é uma oportunidade incrível de aprender a se virar sozinho, a faculdade é um ambiente muito propício para construirmos a nós mesmos, e ter que resolver seus próprios problemas é algo que nunca é cedo demais para aprender. Morar com outras pessoas é algo que aumenta umas dez vezes sua capacidade de se colocar no lugar do outro, de deixar o egoísmo um pouco de lado, em um mundo onde pensar só em si esta se tornando cada vez mais normal.

Eu não estou dizendo que você não pode ter dificuldade de se relacionar, que tem que ser extrovertido e saber lidar com todo mundo em todas as situações, mas sim que respeitar os outros e seus limites é uma qualidade muito muito muito valiosa, e que vale a pena abrir mão e repensar algumas coisas em nós mesmos para conseguir isso.

Não precisa morar em uma casa com 10 pessoas, dividir o quarto com 4, tomar trote, ir em todas as festas, largar os estudos, nem nada disso. Os filmes e seriados criaram um estereótipo das repúblicas estudantis que faz com muita gente tenha repulsa a esse ambiente sem nunca nem ter pisado nele, e nos fazem esquecer de que a faculdade é composta de pessoas muito diferentes umas das outras e que sempre vai ter alguém com quem a gente vai se dar bem. E morar em um apartamento com mais duas ou três pessoas (que tiveram uma criação totalmente diferente da sua) já é uma experiência muito incrível.
Depois de um tempo vivendo fora de casa, sua visão sobre a sua família mudará totalmente (pois quando estamos imersos em algo 24 horas por dia, 7 dias por semana, não conseguimos observá-lo de diferentes ângulos), sua responsabilidade com as coisas burocráticas crescerá muito, você provavelmente vai aprender a cozinhar (pelo menos o bastante para não morrer de fome), e seu dom de conciliação provavelmente vai crescer muito, e você vai precisar usá-lo bastante.

Então, se você está em duvida se vai ou não sair da casa dos seus pais, eu sugiro sinceramente que você pelo menos tente se arriscar. Se não der certo você vai poder voltar, não é nada permanente. E, por favor, tente morar com outra pessoa.
Se você gostaria de sair da casa dos seus pais, mas não tem dinheiro para se manter em outro lugar, informe-se sobre as bolsas auxílio que são oferecidas por todas as universidades públicas. E se você não tem dinheiro para o cursinho pré-vestibular, há chance de haver cursinhos pré-vestibulares populares na sua cidade. Tente procurar!

REBECCA RAIA

[Para ler ouvindo “Carey”, da Joni Mitchell]

Já sai e voltei do país algumas vezes. Já morei em Chattanooga, Tennessee. Winter Springs, Florida. São Paulo, São Paulo. Atibaia, São Paulo. Madrid, Espanha. São Bernardo do Campo, São Paulo. Já morei com meus pais, já morei com mãe, já morei com pai, já morei com amigos da minha mãe, já morei com avó de coração e minha vó de verdade, já morei com seis estranhos, já morei com duas estranhas e já morei com uma estranha que hoje é uma das minhas melhores amigas.

Quando morei com gente que não gostava, dormia no sofá de amigos quase todas as noites. Passava mais tempo na casa de uma amiga do que na minha. Quando estava com depressão clínica moderada, morei na minha cama. Em Atibaia, cidade do interior paulista, pintei meu cabelo de roxo e ouvia punk. Em Madrid, me apaixonei: por um menino e por um museu. Em São Paulo, me senti menina da cidade grande, capaz de tudo. Em São Bernardo, aprendi a cozinhar e me isolei da grande metrópole.

Foi em Winter Springs que cresci. O lugar é meu ninho. Embora eu não goste e nem queira voltar para lá, é a cidade que minha mãe ama e mora até hoje. Não é assim para todo mundo, mas pra mim “home is where the mom is” (“o lar é onde minha mãe tá”). Foi no fim da faculdade, que completei em São Paulo, que percebi que minha identidade se formou naquela pequena cidade de uns 30 mil habitantes da Florida. Foi lá que comecei a querer ser mulher-museóloga-cosmopolita. Percebi que foi lá que encontrei minha identidade durante as férias do Natal de 2013, sentada na varanda da casa de Emilè (uma amiga que hoje em dia não se identifica com algum gênero).

A cidade em que encontrei minha identidade não é a cidade que sou. Em Winter Springs, me sinto em casa. Me sinto confortável acordando na casa da minha mãe, comendo bagels e tomando café Dunkin’ Donuts pela manhã. Me sinto verdadeira quando olho para o lago atrás da casa da minha vó-de-coração e jogo conversa fora com algumas das minhas pessoas favoritas do mundo (que, de todos lugares, encontrei lá). O conforto vem e acalma meu coração – e depois passa.

É, depois passa. É minha casa, meu conforto, minha mãe. Mas foi nessa mesma viagem que descobri o incômodo de voltar para casa depois de crescer. Depois de duas semanas senti falta da independência que encontrei fora de Winter Springs e longe da mãe. Encontrei independência em museus, nas ruas cheias, no metrô eficiente e a energia das metrópoles contrárias (à) a aquela pequena cidade da Florida.

Estou aprendendo a conciliar de onde eu vim com quem me transformei. Reconhecer que aquela pequena cidade foi onde encontrei minha identidade não foi fácil, mas foi um processo que me ajudou a perceber a importância daquele período e a apreciar toda vez que retorno para lá. Esse processo fez parte de aceitar quem eu sou e, depois de morar em tantas cidades, percebo que essa aceitação é essencial para que eu me sinta confortável onde eu for. Quero viajar o mundo, visitar todas as cidades, morar em lugares diferentes. Não é fácil ser sempre um pouco estranha e fora do ninho. Mas estou aprendendo a aceitar quem eu sou e amo (todos) os lugares de onde vim. Isso já é um grande voo para longe do ninho.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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