13 de julho de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Salão de beleza: experimentação e invasão

Ilustração: Beatriz Quadros

Ir ao salão de beleza pode ser uma atividade bem interessante. A ideia de entrar num lugar e sair dele levemente diferente ou completamente irreconhecível pode ser tentadora para algumas pessoas. Penteados podem nos fazer parecer diferentes, unhas pintadas de cores berrantes destoam dos tons das peles, cabelos coloridos chamam atenção no meio da multidão.

Ao mesmo tempo em que um salão de beleza pode ser um lugar de experimentação, também é o lugar em que se põem em prática diversas normas da sociedade sobre como a mulher deve ser e agir. Não podemos ter pelos, temos que manter os cabelos longos porque são femininos, nossas unhas devem sempre estar bem feitas e pintadas, de preferência com uma cor discreta, e os cabelos precisam ser lisos – tudo bem se forem um pouco ondulados, mas não muito.

Devemos sempre estar bonitas e ‘’bem apresentáveis’’ – um conceito elitista e bem questionável –, quase como um vaso num canto de uma sala, dando um toque na decoração. A verdade é que somos milhares de mulheres e meninas espalhadas ao redor do mundo com desejos e vontades distintas e isso inclui o que não fazer e o que fazer num salão de beleza e com seu corpo.

Veja bem, não queremos demonizar ninguém. Eu, por exemplo, adoro ir fazer a unha e adoro a manicure que trabalha no salão que frequento. Gosto também de sentar na cadeira do cabeleireiro e pedir pra cortar palmos e palmos do meu cabelo que cresce com muita rapidez. O problema é quando os profissionais da área da beleza parecem não respeitar nossas vontades ou ficam dando indiretas sobre a nossa aparência.

Lembro de uma vez que fiquei pasma ao ouvir a cabeleireira questionar o porquê de eu não ter feito um relaxamento ainda. Ela me conhecia há questão de minutos, e, durante o tempo que eu tinha permanecido no salão, eu não tinha demonstrado nenhuma vontade de fazer um procedimento desse tipo no meu cabelo. Saí de lá chocada. Sei que provavelmente ela não teve má intenção na pergunta. Talvez estivesse sutilmente me vendendo um serviço porque precisava de mais clientes, mas a ideia de que alguém possa dar uma opinião não solicitada sobre a aparência de outra pessoa é absurda.

Na teoria, sobrancelhas são todas iguais: pelos que temos acima dos olhos e embaixo da testa. Mas quem decide definir as sobrancelhas tem sempre um formato preferido, gosta de tirar mais de um lado, menos de outro, deixar mais grossa ou mais fina. Nathalia relata que já teve problemas num salão de beleza quando a depiladora queria tirar mais pelos do que ela gostaria. Muitas vezes a opinião das clientes é questionada com base no que está ‘’na moda’’: “agora tá na moda usar sobrancelhas grossas”, “agora tá na moda usar sobrancelhas finas”, “agora tá na moda raspar as sobrancelhas”.

O que a mídia e a indústria da moda ditam como tendência vira febre nos salões, e ai de ti se não quiser ter metade do cabelo descolorido.

A depilação é um procedimento que pode dar uma leve dor de cabeça. Levante a mão quem nunca ouviu a depiladora perguntar se não dava pra tirar mais um pouquinho? Manter os pelos ou tirá-los é uma decisão pessoal e ninguém deveria ser julgado por fazê-lo ou não. Insistir em um procedimento que é puramente estético é minar a nossa autonomia sobre nosso corpo.

Mais uma vez, não acho que todas as pessoas que trabalham em salões de beleza são robozinhos da indústria dos cosméticos e beleza que fatura milhões em cima da insegurança de milhões de mulheres, ou que estão ali para manter seus cabelos compridos e tirar todos os teus pelos. Mas questionamos mais uma vez a insistência que muitas dessas pessoas têm em dar opiniões não solicitadas sobre nossos corpos e nossas aparências, sobre a falta de sensibilidade ao lidar com as diferenças de opinião e visões de mundo. E, acima de tudo, questionamos o discurso que se constrói com frases como “não quer depilar tudo?” e “cabelo liso é mais bonito”.

Queremos que nossas decisões sobre nossos corpos sejam respeitadas acima de tudo.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos