24 de maio de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Salto alto: uma questão de escolha

Essa semana saiu uma notícia de que algumas mulheres no Festival de Cannes foram barradas no tapete vermelho por não estarem usando salto alto e, imediatamente, um alarme começou a apitar nos corações das pessoas, que acharam tudo isso um grande absurdo. Pois bem, isso é um absurdo.

Mas a pergunta que fica é: por quê?

Vamos explicar uma coisa: ninguém deveria ser obrigado a usar salto alto. Nem todo mundo se sente confortável usando, nem todo mundo pode usar (devido a problemas de saúde, por exemplo) e nem todo mundo acorda todo dia morrendo de vontade de usar. O salto alto, para início de conversa, tem suas controvérsias: algumas mulheres se sentem poderosas usando, enquanto outras se sentem oprimidas. Conseguir andar sobre um salto alto não é uma tarefa fácil: você pode se sentir satisfeita por conseguir se equilibrar ou simplesmente odiar sentir que ele limita seus movimentos.

Mas o salto alto, além do seu simbolismo e da opinião de cada mulher que escolhe ou não usá­-lo, está ligado a algo que infelizmente é difícil de se desconstruir: a imagem de elegância. Na moda, os chamados dress codes, que estabelecem o tipo de roupa que
você deve utilizar para cada ocasião, ainda estão muito ligados a antiga concepção de que a mulher deve preferir usar vestidos a calças. Logo, quando precisam parecer elegantes, as mulheres usam vestidos, de comprimento variável de acordo com a ocasião, acompanhadas por um sapato que provavelmente vai ter aquele salto altinho.

Se formos reparar nas roupas usadas pelas mulheres em eventos como o Oscar, notaremos que a maioria estará usando vestido longo e salto alto. Sempre.

E se aparece alguma exceção em termos de moda, o que acontece? Todas as críticas possíveis caem em cima da corajosa moça que resolveu ousar. Isso acontece porque as mulheres, até hoje, são as mais julgadas em relação ao que usam e ao que escolhem vestir. São elas as mais criticadas e observadas no tapete vermelho, nas festas, na rua. A sociedade ainda exige da mulher que ela esteja “bem vestida” e dentro dos padrões do aceitável da moda, e é quase uma heresia resolver fugir disso.

E é aí que está o problema. Quantas mulheres você já viu desafiarem o sistema da moda em ocasiões formais, tais como o Festival de Cannes ou o Oscar? Muito poucas, provavelmente.

O dress code estabelece o tipo de roupa, mas não determina o tamanho do seu salto, nem mesmo que ele deve existir. Mas interpretamos que, quanto mais importante e formal a ocasião, mais inflexível será a exigência do uso de salto alto, sem nos darmos conta de que não precisa ser assim. É claro que algumas mulheres saem dessa linha, como foi o caso de Cannes, mas mesmo assim a maioria ainda continuará obedecendo ao “sistema do salto alto”. Algumas mulheres até já declararam que não gostam de salto, mas ainda assim seguem usando. Isso porque ainda é difícil desafiar o sistema que criou conceitos com a tal da elegância, como já falamos anteriormente.

Desafiar a moda é como desafiar sua imagem pública, e isso pode ter resultados bem cruéis. Não é fácil juntar forças para ir contra essa corrente e aguentar todas as críticas que virão como resultado. Mas é importante que tenhamos consciência de que não somos obrigadas a nada. Somos julgadas a todo instante como mulheres, mas não podemos deixar que o julgamento alheio atrapalhe nossos gostos e escolhas. O importante é se sentir bem consigo mesma, é investir no que você curte e acha que te valoriza, é pensar em você antes dos outros. Usar salto alto é uma escolha pessoal e não deve ser imposto. Afinal, você é a favor de você mesma, ou apenas da moda?

Isadora M.
  • Coordenadora de Ilustração
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora

Isadora Maríllia, 1992. Entre suas paixões estão: Cookie Monster, doces, histórias de espiãs (como Harriet The Spy e Veronica Mars), gatos e glitter. No entanto, detesta bombom de abacaxi e frutas cristalizadas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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