26 de abril de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
São Crianças Como Nós
Ilustração: Helena Zelic

Ilustração: Helena Zelic

É muito difícil nos colocarmos no lugar do outro. Quando passamos por uma situação incômoda ou somos contrariadas, nosso primeiro impulso é sentir revolta ou tristeza. Culpamos o outro por nos fazer passar por aquilo. Só em momentos de cabeça mais fria, com certo distanciamento, conseguimos, então, analisar o que levou a outra pessoa a tomar tais atitudes que nos agrediram tanto. Às vezes, nem assim. Nos sentimos tão injustiçados por algo, que não conseguimos compreender o raciocínio por trás de quem nos fez sentir dessa forma. Fazemos muito disso com nossos pais, julgando suas preocupações e proibições como grandes injustiças cometidas contra nós. Mas será que podemos mesmo reduzir essas atitudes dos pais a isso?

Eu fui uma adolescente muito presa em comparação aos meus amigos e amigas. Enquanto alguns tinham liberdade até demais, eu não podia fazer muita coisa ou quase nada que queria. Tinha hora para tudo. Ia da escola para o curso de inglês, para o curso de espanhol, passando por natação e piano, tudo de carona com meu pai e, nos fins de semana, via filmes. Não saía muito de casa, porque, normalmente, meus pais não me deixavam ir às festas que as pessoas iam ou, se chegavam a deixar, eu tinha que ir embora mais ou menos na hora em que todos estavam chegando ou tinham acabado de chegar. Era muito frustrante. Em época de férias, não era muito diferente. Passávamos as férias em Iguaba Grande, uma cidadezinha na Região dos Lagos no Rio de Janeiro. Com 15 anos de idade, eu tinha hora para voltar da rua (22h) e hora para entrar no apartamento (23h), pois nem no condomínio fechado eu podia ficar. Um pouco depois, já lá pelos 16 ou 17, mudou para 23h para entrar no condomínio e meia-noite (uma grande vitória!) para entrar no apartamento. Era difícil desenvolver algumas amizades, porque, normalmente, eu era a chata que tinha que largar o jogo no meio da partida porque precisava ir embora para casa cedo. Além disso, como eu não podia sair sempre com os amigos, quando finalmente chegávamos a fazer algo juntos, o grupo já tinha uma série de piadas internas que eu desconhecia e histórias para contar de situações das quais eu não tinha feito parte.

Namorar também não era fácil. Minha mãe tinha uma regra de que o máximo de diferença de idade que poderia haver entre mim e um menino que me interessasse era de três anos. Infelizmente, eu costumava me interessar por alguns um pouco mais velhos. Como eu tinha horário para tudo e meu pai me levava e buscava em todos os lugares, ficava difícil sair com eles. Às vezes eu até conseguia um início, mas, com o tempo, eles desistiam, já que eu não podia acompanhá-los em lugar nenhum que eles queriam frequentar. Dormir na casa de amigas (ou mentir que dormiria na casa de uma amiga) também não era uma opção. Meus pais não gostavam disso de dormir na casa dos outros, achavam que era um grande incômodo para a família que estivesse me recebendo e só permitiam em casos extremos, já conhecendo a amiga e família dela e confirmando tudo. Para mim, então, era sempre uma festa poder dormir na casa de uma amiga, pois era um momento de interação fora da escola ou dos cursos que eu raramente tinha na vida.

Por muito tempo, culpei meus pais por me privarem de uma vida social. Até hoje, na verdade, acho que eles poderiam ter agido diferente comigo em várias ocasiões, pois, tive tão pouco de vida social durante a adolescência que, agora, sou uma quase adulta louca por vida social e sem tempo ou condições para tê-la, pois tenho obrigações de uma quase adulta. Sinto que não aproveitei o que eu podia ter aproveitado na idade certa. Mas fazer o quê? Meus pais queriam meu bem. E dá para culpá-los por isso?

Com o tempo, você começa a entender seus pais – ainda que não chegue a concordar com eles. Nunca foi a intenção deles me privar de tantas coisas que eu desejava. A intenção era apenas me proteger, me educar. E talvez eles tenham errado aqui e ali, mas não posso dizer que eles erraram feio comigo na minha educação, porque estou aqui sendo um ser humano normal, levando minha vida e, pasmem, tenho muitos amigos e amigas. Minha prisão adolescente também não foi de todo improdutiva. Afinal, foi graças a ela que, dentro de casa, aprendi as maravilhas da internet e, por meio dela, conheci várias pessoas com gostos parecidos com os meus, com vidas parecidas com as minhas e, também, muita gente diferente que eu jamais teria tido oportunidade de conhecer dentro do meu círculo de convivência. Uma das minhas melhores amigas, por exemplo, conheci na internet aos 13 anos. Mantivemos contato constante por todo esse tempo e nos conhecemos pessoalmente há uns quatro anos. Ela mora em São Paulo e me hospeda toda vez que viajo para lá. Será que eu teria desenvolvido uma amizade tão bonita com ela se não tivesse passado tanto tempo em casa durante a adolescência? Não há como saber, mas tá aí uma aspecto que eu não mudaria.

O que acontece é que, conforme vamos crescendo, vamos ganhando consciência de que nossos pais fizeram o melhor que puderam e estavam apenas tentando ser bons pais. Da mesma forma que os meus foram, a meu ver, superprotetores, outros pecaram pela liberdade em excesso: deixaram seus filhos e filhas soltos demais, o que acabou gerando problemas e carências. Cada um tem seu estilo de ser pai ou mãe. Não há uma fórmula pronta. Imagina que assustador deve ser ter um filho ou uma filha e ter que educar esse indivíduo e prepará-lo para o mundo e protegê-lo desse mesmo mundo e lidar, diariamente, com uma variedade de situações inesperadas e imprevisíveis. Imagina só o trabalhão que ter um filho deve dar. Imagina só como é difícil ser responsável por alguém. Quando têm filhos, os pais não recebem uma cartilha que ensina a ser um pai ou mãe, listando o que fazer e como agir quando o/a filho/a fizer tal coisa. Eles vão tentando como acham que podem conforme as situações vão surgindo. Eles nem sempre têm certeza do que estão fazendo, se estão fazendo certo ou errado. Eles estão aprendendo também.

De certa forma, acho que podemos dizer que ser pai/mãe e ser filho/a é uma forma de educação de mão dupla. Ao mesmo tempo em que é responsabilidade dos pais nos educar, é também responsabilidade nossa educá-los. E não poderia ser diferente disso. É testando e errando conosco que eles aprendem a ser pais. E não adianta ser a segunda filha, porque cada um é cada um, as pessoas são diferentes e passam por situações, problemas e necessidades diferentes. Não dá para acertar em tudo, mas também não dá para errar sempre. Será que nossas brigas e desentendimentos com nossos pais na adolescência são mesmo tão graves assim? Será que não podemos tentar entender o lado deles de vez em quando e tentar mostrar a eles o quanto somos gratos por tudo que eles fazem por nós? Não será, talvez, que mostrar que compreendemos como nossos pais estão apenas tentando acertar conosco não os ajudaria a tentar entender mais o nosso lado às vezes?

Por fim, acho que, hoje em dia, entendo o que o Renato Russo queria dizer em “Pais e Filhos” quando afirmou que é um absurdo culpar seus pais por tudo, pois eles são “crianças como vocês”. Acho que, como conhecemos nossos pais desde o momento em que nascemos e começamos dependendo deles para tudo, dificilmente os enxergamos como gente que não sabe o que está fazendo. Já parou para pensar que eles são crianças também, estão aprendendo também e que não gostam de nos ver sofrer?

 

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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  • Paula Segantini

    Laura, eu adoro a capitolina e primeiramente vim parabenizar os otimos textos que vocês fazem! Esse é atualmente meu texto favorito aqui do site, eu tenho 16 anos passo por essa situação, na verdade é pior, o que é uma via de mão dupla pq ao mesmo tempo que quero lutar pela minha opinião e liberdade tbm fico com pena dos meus pais, fazer oq , vida que segue.
    Excelente texto

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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