27 de agosto de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Sapatilha “cor da pele”

Imagine uma bailarina. Movimentos delicados e precisos, leveza, força… Pense nas bailarinas que você conhece. Aquelas que marcaram história ou mesmo as famosas hoje em dia. Em quantas negras você pensou? Provavelmente poucas. Não porque haja menos mulheres negras que desejem ser bailarinas de sucesso. Elas também não se empenham menos para isso. Precious Adams, Lauren Anderson, Mercedes Baptista, Michaela de Prince, Ingrid Silva, Bethânia Gomes, Regina Advento e tantos outros nomes marcaram a história e resistem, mas é inegável que o racismo estrutural reduz muito essa contagem.

Em 75 anos desde a criação da companhia do American Ballet Theatre, por exemplo, é a primeira vez que uma bailarina afro-americana ocupa o lugar principal. Misty Copeland, 32, que estreou as sapatilhas aos 13 (é, gente, nunca é tarde!), representa muito para meninas de todo o mundo. Sua ascensão é motivo de alegria, porém, ressalta Bethânia Gomes: não é um fenômeno. Misty é protagonista de uma luta que se estende a inúmeros setores da sociedade.

Dançar em papéis de destaque não só representa fama — que, claro, também gera resultados no imaginário coletivo sobre uma atividade imageticamente tão viciada — mas também algo que é muito caro a mulheres negras, em todos os âmbitos: valorização profissional e empoderamento financeiro. Viver de arte não é fácil e ter acesso a ela também não. Quando criança sonhei em ser bailarina, mas morava em uma cidade no interior de São Paulo onde não existem escolas com foco profissional. Durante minha trajetória curtinha no ballet, pouco me reconheci nas estrelas que admirava. Eu: negra, pobre e fora dos grandes centros urbanos não podia ser bailarina. Para mim era apenas uma fantasia.

Por isso, referencial é importante e devemos, sim, exigir nosso direito a esse espaço! Por que um cabelo trançado ou crespo seria dificuldade para fazer aulas de dança? A linda colaboradora de EVP da Capitolina, Amora Ribeiro, lembra que não foi aceita em uma escola de ballet infantil sob a alegação de que seu penteado era “inadequado à atividade”. Renata Reis, estudante de Serviço Social da UNIFESP Campus Baixada Santista, sempre sonhou em ser bailarina e deu muitos passos para realizar esse desejo. Depois de conseguir uma bolsa em uma escola reconhecida, sofreu sanções pesadas quanto ao formato de seu corpo. Embora vivesse em uma família consciente e ativa na luta antirracista, encarou por muito tempo os conselhos para “dar um jeito em suas coxas grossas demais” como toques de pessoas que admirava e pelas quais tinha muito respeito: “Eu nunca imaginei que elas seriam racistas comigo. Minha professora também tinha pernas grossas e cabelo crespo, mas ela não mudava o discurso. Sempre falou que o cabelo não podia estar ‘relaxado’.” Ainda que tenha desistido de seguir carreira profissional, Renata recorda das aulas com uma mistura de carinho e pesar pelas cobranças a que foi submetida. Aos 19 anos, não deixa de aconselhar quem se reconhece na situação que ela viveu aos 11: “Conte para seus pais ou adulto responsável TUDO o que você está passando, não guarde NADA! Eles vão te ajudar sempre, porque eles te amam absurdamente. O ballet clássico é demais! Você também pode explorar outras danças. Tem vários tipos de corpos no mundo e todos eles podem dançar ballet!”

Foi essa diversidade que Ingrid Silva, carioca de Benfica, filha de empregada doméstica, conseguiu encontrar em Nova York. Aos 19 anos, ela passou a integrar o conjunto da Harlem Theatre Company e hoje é bailarina do corpo principal. Ingrid, que tem um canal maravilhoso no YouTube (https://www.youtube.com/user/ingridgirlstar), no qual mostra detalhes de sua carreira no exterior e ensina (inclusive) a fazer coque em cabelos crespos, conversou um pouco conosco sobre sua rotina atarefadíssima, racismo e a importância do ballet para milhares de jovens negras.

Você começou a fazer ballet clássico com 8 anos. Nem todo mundo gosta de ballet de primeira. Foi seu caso? Ou a paixão vem de longe?

Então, eu fazia diversos esportes, ballet veio por acaso. Um vizinho, tio Arizo, mencionou para minha mãe que havia um teste na Vila Olímpica da Mangueira e aí fui lá fazer o teste e passei. Eu já fazia ginástica olímpica, então ballet no início não foi tão ruim.

Eu amo ballet, mas não sou nada flexível! Tem algum exercício que possa me ajudar?

Sim, alongar todos os dias. Nada especificamente, se alongar mesmo. Em geral ajudará bastante.

Você teve alguma bailarina inspiração/referência?

Sim. Ana Botafogo sempre me inspirou e me inspira.

O que é mais legal em ser bailarina? E sua principal dificuldade?

Acho que as dificuldades de ser uma bailarina e as conquistas me inspiram. O nosso desgaste é muito grande, tanto físico como mental.

Já fez algum outro tipo de dança?

Sim jazz contemporâneo, hip hop, sapateado moderno e por aí vai…

A vida de bailarina é bem disciplinada, certo? Dá tempo de acompanhar alguma série? Você é fã de alguma?

Então, a vida de bailarina é super disciplinada, mas você tem que ter um balanço pra tudo.

Sim, assisto a várias séries, adoro Scandal.

Nossa edição desse mês fala sobre comida. Você gosta da comida de Nova York? E de cozinhar?

Sim, adoro a comida de Nova York, acho que aqui é bem legal porque você encontra todos os tipos de comida ao seu redor.

Adoro cozinhar, faço uma feijoada anual lá em casa para os meus amigos.

Você já realizou algum sonho profissional? Quais são os planos para o futuro?

Já realizei meu sonho de ter saído de uma comunidade brasileira e ter carreira profissional como bailarina. Meus planos pro futuro, no momento, são continuar dançando e estudar psicologia.

E pessoalmente? Quais as melhores experiências que morar fora/viver do que ama te propiciaram?

Você aprende bastante e amadurece bastante.

O que você diria para meninas negras que desejam seguir carreira na dança?

Acredite no seu potencial e talento e sempre trabalhe duro! 

É isso aí! A Ingrid nos diz que devemos continuar lutando, nos importando umas com as outras e conquistando nossos espaços. Se você tem interesse em fazer ballet, não se desanime com os preços ou outras dificuldades! Linkamos abaixo alguns locais que oferecem aulas gratuitas ou a baixo custo e você pode tentar negociar com escolas ou centros culturais mais próximos de você. Enquanto as sapatilhas cor da pele (branca?) forem universalmente rosadas, nossas linhas estarão prejudicadas e nossas cores não estarão nos palcos.

Ceará

Edisca

http://www.edisca.org.br/br/

Goiás

Projeto Dance Mais do Centro de Estudos Musika:

http://www.musikacentrodeestudos.com.br/acontece/projeto-dance-mais/

Espírito Santo

Escola Fafi

http://www.vitoria.es.gov.br/cidade/fafi

Rio de Janeiro

Dançando para não dançar:

http://www.dancandoparanaodancar.org.br/root_br/index.htm

Escola de dança Maria Olenewa

http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/escola.html

São Paulo

Escola de Dança de São Paulo

http://theatromunicipal.org.br/formacao/escola-de-danca-de-sao-paulo/

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Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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