18 de setembro de 2015 | Saúde, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Saúde Mental – Por que isso não é frescura
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Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, transtornos alimentares. Você já deve ter ouvido falar de tudo isso. Está nos jornais, nas revistas, nos filmes, nas novelas. Todo mundo sabe de alguém que já foi diagnosticado com alguma doença mental, seja um amigo seu de infância ou uma celebridade hollywoodiana.

 

Nunca se falou tanto em saúde mental. E isso é muito bom! É importante aumentar a conscientização das pessoas. Esse mês, por exemplo, a campanha Setembro Amarelo tem ganhado espaço nas redes sociais, alertando para os riscos de suicídio (o dia 10 de setembro é desde 2003 o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio). O problema é que nem sempre o assunto é abordado na mídia de maneira correta. É legal que exista representação de pessoas com transtornos mentais, por exemplo, em novelas e filmes. Mas se não houver cuidado, isso pode levar à perpetuação de estereótipos e à banalização.

 

Atualmente, se observam dois grandes fenômenos perigosos, aparentemente paradoxais em relação aos transtornos psiquiátricos. O primeiro deles se chama superdiagnóstico, que é o que acontece quando um monte de gente que não tem uma doença passa a ser erroneamente diagnosticado e tratado para aquela doença. No caso de transtornos mentais isso é bem mais fácil de acontecer do que com doenças orgânicas, já que não existe nenhum exame de imagem ou teste sanguíneo que se possa fazer para confirmar esse diagnóstico; tudo se baseia no que a pessoa ou a família diz. Esse excesso também é bastante influenciado por uma pressão enorme da indústria farmacêutica, que está muito interessada em vender cada vez mais remédios. Infelizmente tornou-se comum hoje em dia pessoas tomarem antidepressivos ou calmantes sem qualquer indicação, seja porque um médico receitou de forma equivocada ou porque algum conhecido ou amigo recomendou o remédio – e é incrível a facilidade com que se conseguem remédios supostamente controlados.

 

O outro fenômeno que ocorre é o inverso, o subdiagnóstico. Como o nome sugere, é quando quem de fato tem uma doença não é diagnosticado e consequentemente não recebe o tratamento adequado. É bem comum que isso ocorra devido ao desconhecimento (vamos lembrar que toda essa conversa sobre saúde mental na mídia é relativamente recente e com certeza não atinge todas as camadas da população) e também à própria natureza desses transtornos, que vão se instalando devagar, sem chamar muita atenção. A pessoa que sofre em geral não tem uma percepção muito certa do que está acontecendo. Afinal, o que está doente é justamente o órgão que a faz ser capaz de julgar e analisar situações. Quem está em volta também nem sempre percebe o que está havendo. Além disso, há o problema do estigma associado a transtornos mentais que faz com que muita gente tenha medo ou vergonha de buscar ajuda.

 

As percepções equivocadas em relação às doenças mentais são muitas. Quem nunca ouviu que só “maluco” se trata com psiquiatra? Ou que para superar ansiedade ou depressão basta um pouco de força de vontade ou fé? Tudo isso é bobagem.

 

Transtornos mentais não têm nada a ver com falta de força de vontade ou de religiosidade. Doença mental também não é fraqueza ou frescura. Fatores ambientais podem contribuir para o seu desenvolvimento, mas estudos mostram que na verdade o maior determinante mesmo é a genética. O que quer dizer, por exemplo, que se os pais ou avós de alguém tiveram depressão, as chances dessa pessoa de desenvolver o transtorno são maiores. Se for mulher, as chances aumentam ainda mais: a prevalência de depressão no sexo feminino é duas vezes maior do que no masculino. A psicoterapia pode ajudar a buscar elementos na história da pessoa que tenham influenciado no aparecimento da doença, mas em geral é importante lembrar que nem sempre há uma causa evidente. Mesmo gente com uma vida aparentemente perfeita pode desenvolver ansiedade e depressão.

 

E quando alguém de fato tem uma doença mental, não bastam amor, carinho e apoio dos amigos e familiares. Claro, tudo isso é fundamental. Mas não é o suficiente. Quem tem um transtorno precisa de tratamento especializado: isso pode significar ter que tomar remédios psicotrópicos, como ansiolíticos e antidepressivos – sempre sob supervisão médica e de preferência em associação com psicoterapia.

 

Saúde mental é uma coisa muito séria e precisa ser tratada dessa maneira pela sociedade. De acordo com dados da OMS, as doenças mentais já são as mais prejudiciais e incapacitantes entre todos os grupos de doenças, sendo a depressão sozinha já a doença mais incapacitante do mundo. Só no Brasil, estima-se que 8% da população tenha depressão. Talvez por transtornos mentais não serem mensuráveis da mesma forma que outras doenças como hipertensão ou diabetes, as pessoas muitas vezes não os encarem como algo real. Mas nas sábias palavras de Dumbledore:

“Naturalmente está acontecendo dentro da sua cabeça, mas por que é que isto deveria significar que não é verdadeiro?”

 

O Centro de Valorização da Vida dispõe de um Programa de Apoio Emocional. Você pode ligar 141 ou contatar diretamente o posto na sua região (veja a lista aqui). O atendimento é feito por voluntários, com respeito, anonimato, não aconselhamento, não julgamento e que guardarão sigilo sobre tudo o que for dito.

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

  • Noruniru

    Amei a matéria. Tenho TOC há 5 anos, e muitos na minha família por parte de mãe também têm, ou tiveram (olha a genética aí!). Fiquei durante todo esse tempo sofrendo em silêncio porque tinha medo de ser tachada de louca, sem falar na demora do diagnóstico já que na televisão geralmente o TOC é associado a mania de limpeza, mas isso não é regra (e o meu TOC não envolve limpeza). Comecei meu tratamento há 1 mês e os resultados estão sendo ótimos. Estou voltando a ter uma vida normal. Caso alguém tenha algum transtorno mental, eu só queria avisar que tem tratamento sim, e que todos somos igualmente importantes e capacitados!

    • Mariana Fonseca

      Valeu a pena ter escrito o texto só para ler esse comentário :)

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    ADOREI, se trata de um assunto delicado, importantíssimo e que devíamos ter mais conhecimento.

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