5 de dezembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Se divorciar dos pais

Quando pensamos em casamento, a primeira imagem que vem à cabeça é de um relacionamento amoroso, geralmente entre duas pessoas e mais geralmente ainda – principalmente na sociedade em que vivemos – entre homem e mulher (embora hoje – AINDA BEM! – esses padrões antigos já estejam se modificando). Entretanto, apesar de não ser tão perceptível, muitas vezes o nosso relacionamento com nossos pais também pode ser enquadrado como uma espécie de casamento.

Mas como assim, Luciana? Bom, pensem comigo: partindo da ideia de que um casamento (aquele que pensamos lá no comecinho mesmo, entre pessoas que mantêm aquele relacionamento amoroso) é baseado, dentre várias outras coisas, em uma espécie de acordo afetivo de exclusividade… Faz muito sentido. Mesmo que alguém possua duas mães ou dois pais, cada um possui o seu papel na criação dos filhos em questão; e como ninguém é igual ao outro só por causa de gênero ou função social, fica bem claro que não dá pra gostar de outro pai ou outra mãe da mesma forma que você gosta dos seus – nem que seja de forma negativa. Assim como você pode amar várias pessoas, mas se você e seu marido ou esposa foram monogâmicos, fica proibido amar alguém da mesma forma que você ama aquela pessoa com quem divide o anel. Casamento.

Nossos pais (sejam eles biológicos, adotivos ou até mesmo de consideração) são, em tese, o primeiro contato que temos com carinho. Por conta desse laço afetivo, é muito comum sentir que eles serão os únicos a se manter firmes e fortes do nosso lado em qualquer situação. A superpropagação da ideia do amor incondicional que os pais (em especial as mães) supostamente sentem pela gente a partir do momento em que nascemos faz com que, mesmo inconscientemente, contemos com esse amor de forma ilimitada.

O que a experiência de ter os pais sempre por perto faz a gente esquecer é que o amor, assim como qualquer outro sentimento, precisa de manutenção para se manter firme. Ah! E algo que pouquíssimos romances esquecem de incluir é que, assim como acontece também com qualquer outro sentimento e dependendo da situação, às vezes essa manutenção pode não ser saudável.

Um ponto muito interessante tratado na psicologia é a necessidade que todos nós temos, em algum momento da vida, de matar os nossos pais. CALMA! – não de verdade. A morte simbólica das figuras maternas e paternas é importante para que possamos fazer a transição da infância para a adolescência e dela para a fase adulta, e esse momento de transição tem muito mais a ver com o valor afetivo que cada um atribui aos seus pais do que à idade em si. Tem a ver com virar a própria mãe, se entender como dona de si mesma e, a partir daí, conquistar certa independência emocional.

Já percebeu, por exemplo, como somos criadas para a obediência? Todo adulto adora crianças que nunca contestam nada, as quietinhas. Uma criança que questiona é inconveniente porque tira dos adultos que a educam a sensação de deuses; mas como esse senso questionador nos é tirado muito cedo, crescemos com a ideia de que nossos pais são donos da verdade. Um exemplo claro disso é quando alguém critica determinada atitude em um amigo ou conhecido mas consegue pensar em várias desculpas que justifiquem aquela mesma atitude se quem a cometeu foi seu pai ou sua mãe.

A gente sabe: nossos pais são humanos. Mesmo assim, é bem difícil entender de verdade que aquela pessoa que geralmente cuidou de você durante toda a sua vida, além de não ser perfeita, possui expectativas próprias, sonhos além da sua existência, segredos que nunca te contaria e outras milhares de coisas que estão no âmago de cada um – inclusive no seu. E isso pode ser relacionado ao casamento quando a gente lembra que os primeiros problemas que o casal enfrenta geralmente estão ligados a essa percepção das “falhas no percurso”, da humanidade do outro.

Claro: cada situação é diferente e essa reflexão não pode nem conseguiria contemplar todas as milhares de dinâmicas familiares que existem por aí. Mesmo assim, muita coisa fica muito mais clara quando a gente lembra que aquele cordão umbilical afetivo que nos liga aos nossos pais não é necessariamente nocivo, mas como o nome sugere, prende – e muito amadurecimento pode ser perdido na insistência em uma vida de casados que poderia ter sido muito mais tranquila se a relação tivesse evoluído pra uma bonita amizade.

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

  • Ivis

    Olá, me chamo Ivis tenho 22 anos. Descobri a revista no programa esquenta e decidi procurar na internet.
    Li seu artigo, pois eu estou passando exatamente por esse processo, sai da casa da minha mãe para morar com meu namorado,(pq tivemos algumas brigas e ficou insustentável a convivência), fato é, sinto exatamente o que vc escreveu, como se agora a responsabilidade fosse minha e dele, não tem mais mãe pra lavar roupa, lembrar o que falta e comprar no supermercado,ou o que vamos comer e etc. Mas onde eu quero chegar é que sinto que muito da minha maturidade foi perdida, tenho 22 anos mas sinto que tenho 30,e muitas vezes não sei onde esta toda essa maturidade que sei que existe, e que só agora,depois de cortar esse laço,é que eu estou descobrindo.
    È isso…

  • PauloRafael

    Adorei! De verdade!

  • Laris Neal

    Gostei muito do texto! Só achei que talvez a conclusão pudesse ter incluído mais algumas coisas. De qualquer forma, me vi no texto. Faz alguns meses que me mudei pra SP e estou morando sozinha. E o que tenho sentido é que muitas vezes os pais têm medo de cortar o cordão umbilical, eles simplesmente não querem. Ainda que saibam, e digam, que já é uma adulta e que você toma as suas decisões, eles acabam agindo diversas vezes querendo reestabelecer a ordem de ‘pai e filho’ que existia antes (como quando você volta pra casa pras férias, por exemplo, sendo estudante). Reclamam se você não passa o mesmo tempo em casa, com eles; querem saber pra onde vai, que horas volta, com quem, e tudo mais (se no caso, como meu, sempre deu essas informações). E isso me fez perceber que me sinto presa. E quando tentamos reafirmar ou demonstrar de alguma forma que esse laço foi cortado, que nos ‘divorciamos’ já, eles se chateiam. Mas é necessário, afinal, viramos adultos e teremos nossa própria vida, nossa própria família.

  • S.

    Olá, Luciana!
    Gostaria de dizer que seu texto me ajudou bastante. Estou passando por um problema gravíssimo com a minha mãe e agora vejo o quanto é importante esse “divórcio”. Estou passando exatamente por essa transição de “matar” a figura da mãe, e já sou adulta. Isso foi muito difícil para mim, até porque muitas pessoas encararam como drama. Ainda diziam “poxa, mas você é adulta, não precisa mais da sua mãe, pare de fazer draminha! Está agindo como criança!”, mas muita gente não viu a trajetória. Por muitos anos fomos apenas minha mãe e eu, cuidei dela com depressão e criou-se um laço forte. É realmente difícil cortar esse cordão umbilical, talvez seja a coisa mais difícil que já fiz em toda minha vida, mas é preciso.
    Além disso, você ponderou uma coisa importante: nossos pais são humanos, tendenciosos a erros. Eu encarava minha mãe como minha inspiração, a mulher mais perfeita do mundo. Afinal, saía para trabalhar todo dia, super elegante, me criou sozinha (meu pai não participou muito da minha vida, como de muita gente que passa por essa situação), tinha um caráter, digamos, de acordo com meus princípios e formas de pensar. Mas depois que cresci, comecei a vê-la de uma forma totalmente diferente e isso começou a deteriorar a nossa relação. Fui descobrindo segredos que jamais poderiam ser revelados a um filho, vi que ela não tinha os princípios como os meus, se tratava de uma máscara para não mostrar a uma criança sua verdadeira faceta.
    É muito difícil romper, porque é um amor muito forte, e como você disse, “A superpropagação da ideia do amor incondicional que os pais (em especial as mães) supostamente sentem pela gente a partir do momento em que nascemos faz com que, mesmo inconscientemente, contemos com esse amor de forma ilimitada.”. Realmente achamos que é incondicional e que sua mãe nunca vai te abandonar, mas acontece. Minha mãe saiu de casa e foi um processo bastante complicado para mim. Me senti de fato abandonada e descartável, sem importância alguma na vida dela, mas faz parte do processo das brigas e do corte do cordão umbilical.
    Enfim, obrigada, Luciana, por esse texto. Ajudou-me bastante e me sinto melhor por saber que não sou a única a passar por isso.

  • S.

    Olá, Luciana!
    Gostaria de dizer que seu texto me ajudou bastante. Estou passando por um problema gravíssimo com a minha mãe e agora vejo o quanto é importante esse “divórcio”. Estou passando exatamente por essa transição de “matar” a figura da mãe, e já sou adulta. Isso foi muito difícil para mim, até porque muitas pessoas encararam como drama. Ainda diziam “poxa, mas você é adulta, não precisa mais da sua mãe, pare de fazer draminha! Está agindo como criança!”, mas muita gente não viu a trajetória. Por muitos anos fomos apenas minha mãe e eu, cuidei dela com depressão e criou-se um laço forte. É realmente difícil cortar esse cordão umbilical, talvez seja a coisa mais difícil que já fiz em toda minha vida, mas é preciso.
    Além disso, você ponderou uma coisa importante: nossos pais são humanos, tendenciosos a erros. Eu encarava minha mãe como minha inspiração, a mulher mais perfeita do mundo. Afinal, saía para trabalhar todo dia, super elegante, me criou sozinha (meu pai não participou muito da minha vida, como de muita gente que passa por essa situação), tinha um caráter, digamos, de acordo com meus princípios e formas de pensar. Mas depois que cresci, comecei a vê-la de uma forma totalmente diferente e isso começou a deteriorar a nossa relação. Fui descobrindo segredos que jamais poderiam ser revelados a um filho, vi que ela não tinha os princípios como os meus, se tratava de uma máscara para não mostrar a uma criança sua verdadeira faceta.
    É muito difícil romper, porque é um amor muito forte, e como você disse, “A superpropagação da ideia do amor incondicional que os pais (em especial as mães) supostamente sentem pela gente a partir do momento em que nascemos faz com que, mesmo inconscientemente, contemos com esse amor de forma ilimitada.”. Realmente achamos que é incondicional e que sua mãe nunca vai te abandonar, mas acontece. Minha mãe saiu de casa e foi um processo bastante complicado para mim. Me senti de fato abandonada e descartável, sem importância alguma na vida dela, mas faz parte do processo das brigas e do corte do cordão umbilical.
    Enfim, obrigada, Luciana, por esse texto. Ajudou-me bastante e me sinto melhor por saber que não sou a única a passar por isso.

  • Ana

    Eu sinceramente nem acredito no amor paterno. Nunca conheci nenhum homem que criasse os filhos sozinho. Na ausência da mãe, seja por morte ou por irresponsabilidade, quem fica lá é uma das avós. É preciso entender que o fato de um homem botar comida na mesa não tem muito haver com amor, mas sim com manutenção da masculinidade. Já minha mãe é bem chata e retrógrada, atrasa minha vida de várias maneiras, mas eu tenho muita compreensão a ela pelo próprio fardo da maternidade que a sociedade finge que é uma maravilha.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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