5 de março de 2017 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós
greve_feminista

Esse é o lema da greve que mulheres de mais de 40 países estão organizando para o Dia Internacional da Mulher.  Devido a adesão mundial à Marcha das Mulheres, as ativistas feministas  defendem um “novo movimento feminista” interseccional, que lute pelos mais desfavorecidos. Esse movimento feminista é chamado de  feminismo para os 99%.

Grupos feministas da Austrália, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, República Checa, Equador, Inglaterra, França, Alemanha, Guatemala, Honduras, Islândia, Irlanda do Norte, Irlanda, Israel, Itália, México, Nicarágua, Peru, Polônia, Rússia, El Salvador, Escócia, Coreia do Sul, Suécia, Togo, Turquia, Uruguai e EUA confirmaram a convocatória.  A ideia dessa greve internacional, segundo manifesto, é mobilizar mulheres cis e trans e todos os que as apoiam num dia internacional de luta – um dia de greves, marchas e bloqueios de estradas, pontes e praças; abstenção do trabalho doméstico, de cuidados e sexual; boicote e denúncia de políticos e empresas misóginas, greves em instituições educacionais. Essas ações visam visibilizar as necessidades e aspirações que o feminismo do “faça acontecer” ignorou: as mulheres no mercado de trabalho formal, as que trabalham na esfera da reprodução social e dos cuidados e as desempregadas e precárias.

A greve de 8 de março começou a ser planejada depois do forte movimento argentino de mulheres de 19 outubro, o Ni Una a Menos, e da segunda-feira negra de 3 de outubro na Polônia, quando milhares de mulheres pararam e protestaram contra a restritiva lei de aborto impulsionada pelo Executivo polaco, que depois foi rechaçada pelo Parlamento pela pressão das marchas.

Um grupo de ativistas norte-americanas convocou há alguns dias para o dia 8 de Março, uma greve internacional “contra a violência masculina e pela defesa dos direitos reprodutivos”. O manifesto, publicado no jornal The Guardian, é assinado por ativistas e acadêmicas de renome, como  Angela Davis e Nancy Fraser.  Confira um trecho do manifesto que foi traduzido por Daniela Mussi, originalmente para o Blog Junho.

“ As condições de vida das mulheres, especialmente as das mulheres de cor e as trabalhadoras, desempregadas e migrantes, têm-se deteriorado de forma constante nos últimos 30 anos, graças à financeirização e à globalização empresarial. O feminismo do “faça acontecer”* e outras variantes do feminismo empresarial falharam para a esmagadora maioria de nós, que não têm acesso à autopromoção e ao avanço individual e cujas condições de vida só podem ser melhoradas através de políticas que defendam a reprodução social, a justiça reprodutiva segura e garanta direitos trabalhistas. Como vemos, a nova onda de mobilização das mulheres deve abordar todas essas preocupações de forma frontal. Deve ser um feminismo para 99% das pessoas.

O tipo de feminismo que buscamos já está emergindo internacionalmente, em lutas em todo o mundo: desde a greve das mulheres na Polônia contra a proibição do aborto até as greves e marchas de mulheres na América Latina contra a violência masculina; da grande manifestação das mulheres de novembro passado na Itália aos protestos e greve das mulheres em defesa dos direitos reprodutivos na Coréia do Sul e na Irlanda. O que é impressionante nessas mobilizações é que várias delas combinaram lutas contra a violência masculina com oposição à informalização do trabalho e à desigualdade salarial, ao mesmo tempo em que se opõem as políticas de homofobia, transfobia e xenofobia. Juntas, eles anunciam um novo movimento feminista internacional com uma agenda expandida – ao mesmo tempo anti-racista, anti-imperialista, anti-heterossexista e anti-neoliberal.

Queremos contribuir para o desenvolvimento deste novo movimento feminista mais expansivo. Como primeiro passo, propomos ajudar a construir uma greve internacional contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos no dia 8 de março.”

No Brasil, um dos países que já organiza a paralisação de mulheres no dia 08, a luta é contra a reforma da previdência (que quer acabar com o direito garantido às mulheres de se aposentarem antes, devido à dupla jornada de trabalho), a luta contra o desemprego e a retirada dos direitos das mulheres promovida pelo governo de Michel Temer. Além das pautas já históricas, como o fim da violência contra mulher e direito ao próprio  corpo.

Como nem todas as mulheres podem se ausentar dos seus postos de trabalho (principalmente mulheres negras e pobres) porque nossos direitos enquanto trabalhadoras têm sido retirados, a organização clama para que todas as mulheres que possam parar e protestar, que façam. Não só por elas, mas por todas que estão vivendo em condições de vulnerabilidade, exploração e violência.

Segundo o site do 8M Brasil há diversas formas de protestar:

  • Vista uma peça de roupa ou adereço da cor lilás com símbolo de participação no movimento. Ou coloque uma bandeira da mesma cor na sua janela ou no carro
  • Pare por um dia as tarefas domésticas como: cozinhar, limpar, cuidar
  • Interrompa as atividades laborais remuneradas por toda uma jornada
  • Caso não consiga, pare no seu trabalho durante a Hora M, que será definida localmente. Algumas cidades brasileiras adotarão o intervalo de 12h30 a 13h30.
  • Durante a Hora M, reúna-se com suas colegas de trabalho para conversar sobre a desigualdades que afetam a todas as mulheres
  • Saia às ruas para protestar junto a outras mulheres no horário definido localmente em sua cidade.

Não sabemos ainda se o dia 08 de março vai entrar para a história como o “ Dia sem mulher” e nem se essa greve internacional vai ter a adesão pretendida, mas o importante é ver essa mobilização do movimento feminista. Juntas somos sim mais forte e precisamos estar sempre pensando em estratégias para trazer visibilidade para nossas pautas e reivindicações,

Para mais informações sobre a Greve internacional Feminista, acesse:

https://www.8mbrasil.com/inicio
http://parodemujeres.com
https://blogdaboitempo.com.br/2017/02/07/por-uma-greve-internacional-militante-no-8-de-marco/
https://www.facebook.com/events/1846507865622383/

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
  • Coordenadora de Se Liga
  • Coordenadora de Esportes
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Sociedade
  • Colaboradora de Educação

Vitória Régia tem 21 anos, estuda jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. Adora conhecer diferentes culturas e é apaixonada pela arte de contar histórias. Dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT e acorda todos os dias pensando em como mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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