23 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: and | Ilustração: Kiki
Se o campo não planta, a cidade não janta

Eu tenho um par de tênis que comprei quando morava em São Paulo. Na época, ele era de uma cor creme-quase-branca. Eu me mudei pro interior de São Paulo e levei meu tênis junto comigo. Por ele ser muito confortável e combinar com quase todas as minhas roupas, eu uso para ir pra faculdade praticamente toda semana. Com o tempo, de tanto andar em estrada de terra, de ir visitar as vaquinhas e entrar dentro do mato com ele, a cor agora – independente de quanto sabão você queira usar para lavar – é marrom.

A esmagadora maioria das pessoas que mora aqui também tem os sapatos (e as calças, e as camisas, e as unhas) sujos de terra, então a cor do meu tênis nem importava muito, nem para mim nem para ninguém. Daí minha surpresa quando, ao voltar para São Paulo com meu tênis, ouvi meus amigos e minha família dispararem comentários sobre a cor marrom.

O engraçado é que, quando eu morava em São Paulo, meu tênis não era limpo, ele só era sujo de outra cor: cinza. E vamos combinar que a sujeira cinza – de escapamento de carro, de graxa, de poeira – é bem mais suja do que a terra. Aí eu parei pra pensar que só é estranho/engraçado/absurdo o meu tênis estar marrom em São Paulo porque ninguém em São Paulo sabe o que é ver qualquer coisa que não asfalto a não ser nas férias, e olhe lá!

Mas, se a gente for parar pra pensar, é bem bizarro que a gente não tenha contato com essas pessoas, e ainda por cima ache estranho que elas existam, porque são pessoas que fazem quase tudo o que a gente come. São essas pessoas as responsáveis por cuidar da maioria das nossas florestas, são essas pessoas que entendem sobre a contaminação da nossa água, e que são as responsáveis diretas por várias coisas que são vitais para que a gente possa existir. Então eu e Helena vamos explicar: mais de 70% daquilo que a gente come vem da agricultura familiar.

“Quê? Agricultura familiar? Agricultura não é tudo uma coisa só?”

Então… não. A coisa é mais complexa. Há vários requisitos que indicam uma produção como vinda da agricultura familiar, mas basicamente ela tem que ter vindo de um pedaço de terra relativamente pequeno. A maior parte dos trabalhadores e das trabalhadoras que trabalham na produção tem que ser membros da família, e a renda da família tem que vir majoritariamente da agricultura, basicamente.

Na cabeça da maioria das pessoas, todo mundo que vive no campo vive mais ou menos desse jeito, né? Numa casinha com a família, todo mundo acordando com o galo, todo mundo vivendo disso, tirando leite da vaca e correndo atrás da galinha. E ok, muita gente ainda vive assim. Mas não é apenas isso que acontece nas terras brasileiras. Boa parte do nosso campo foi ocupado, historicamente, por latifúndios (isto é, por pedaços enormes de terra que pertencem a uma pessoa só), e assim segue, ainda que uma certa ministra da agricultura diga o contrário… Os latifundiários claramente não cabem na categoria de “agricultor familiar”. Até porque nem o dono nem os filhos trabalham na propriedade porque, adivinha só: quase ninguém trabalha na propriedade deles! Quase todos os processos agrícolas já foram totalmente mecanizados, e as pessoas que trabalham nestes lugares geralmente não são funcionários fixos, ou seja, trabalham só em um período do ano, sem estabilidade, sem direitos trabalhistas, e ganhando muito muito muito pouco.

“Ah, tá, mas que que isso tem a ver com a comida que eu como, com a água que eu bebo e com o ar que eu respiro?”

Tem absolutamente tudíssimo a ver. Os latifundiários – donos daqueles latifúndios que, como eu disse lá em cima, não empregam ninguém – não produzem comida para a gente comer! Lembra que a agricultura familiar produz mais de 70% do que vai pra nossa mesa? E lembra também que esses caras não são agricultores familiares? Pois é, se eles têm tanta terra e não produzem a nossa comida, o que eles fazem então? Bom, boa parte deles não produz quase nada. Essas fazendas enormes, nesses casos, ficam abandonadas, com dois boizinhos no meio para contar história, só ocupando um espaço que poderia estar gerando muito alimento saudável e barato para o Brasil todo. A outra parte deles, que produz alguma coisa, geralmente produz coisas que 1) não são de comer e 2) não ficam no Brasil.

É, pois é. O que eles plantam geralmente vira energia, ração animal, ou matéria prima para a indústria, e mesmo essas coisas são majoritariamente destinadas para exportação, ou seja, vão embora sem a gente nem ver a cor. Além disso, os agrotóxicos que eles usam em massa contaminam nosso ar e nossa água, assim como os combustíveis fósseis que as máquinas usam. Esse modelo de produção e de economia segue a lógica do capital e do lucro, e não se preocupa com a vida e o bem-estar das pessoas – nem as que produzem, nem as que comem os alimentos. Isso porque, pensando apenas no lucro, este tipo de produção passa muuuito longe de debates importantíssimos, como o da soberania alimentar, que entende e defende que a prioridade da agricultura seja as necessidades e formas de vida dos produtores, distribuidores e consumidores dos alimentos. Por isso, a importância de entender o processo como um todo, as origens dos nossos alimentos e quais os impactos de sua produção. Por isso, é tão legal dar preferência a alimentos cujas produções não foram baseadas na exploração dos mais pobres e, consequentemente, na geração de lucro pros ricaços proprietários de terra. As experiências de cooperativas e pequenos empreendimentos agrários da economia solidária são um ótimo exemplo de como as coisas podem funcionar de um jeito menos destrutivo e desigual. A ideia da economia solidária – que também tem tudo a ver com a economia feminista – é subverter a lógica do lucro e do capital que falamos ali em cima. Em vez disso, a prioridade é o trabalho e aprendizado coletivo e o fortalecimento dos trabalhadores e das trabalhadoras para que tenham autonomia e humanidade em suas vidas.

Então tá, vamos lá: quem de fato produz o que a gente come é uma agricultura que tem só 24% das terras do Brasil e, ao mesmo tempo, emprega 74% da mão de obra do campo. Ou seja: são pessoas sem dinheiro e sem terra que dão de comer para todo o Brasil e empregam a maior parte das pessoas do campo. Por isso, pautas como a da reforma agrária não podem ser esquecidas: porque a reforma agrária, ou seja, a redistribuição de terras entre quem precisa, diz respeito às vidas de uma parcela enorme da nossa população.

Eu me deparei com esses dados no meu primeiro ano da faculdade. Foi um choque para mim que, apesar de amar o interior, vivi a vida toda na capital. Ver que aquele camponês contente e satisfeito que eu encontrava nas histórias não parecia ter motivos para estar tão feliz assim, na vida real. Também foi um choque para mim quando descobri que o Brasil era um dos países com maior índice de homicídios de ambientalistas, que é o que eu pretendo ser.

A maioria das pessoas da cidade, e mesmo aquelas que são ligadas a movimentos sociais, não tem muita noção disso, ou deixam isso meio em segundo plano por acharem que não é tão importante. Fato é que o movimento popular do campo é muito combativo, tem muita história de luta e já produziu muito conhecimento sobre a questão agrária e a reforma agrária no Brasil. O MST, que existe há só 30 anos, é o maior movimento social da América Latina, e tem gente que diz do mundo! E nasceu aqui no Brasil, pelos direitos e pela vida dessas pessoas que, espero que a essa altura, você já esteja convencido, são tão importantes para todo mundo. A Marcha das Margaridas também precisa ser lembrada e aplaudida quando vamos falar de movimentos do campo: de 4 em 4 anos, a Marcha reúne mulheres camponesas (e mulheres urbanas apoiadoras das causas campesinas) para expor suas reivindicações e mostrar que, apesar do machismo, das desigualdades sociais e das dificuldades no capitalismo, outro mundo é possível.

Mas não só de camponeses se faz o meio ambiente! Existem também os quilombolas, os indígenas, os ribeirinhas, e muitas outras comunidades que exercem atividades em lugares que não as cidades, mas que são vitais para quem vive na cidade! A conservação das águas, da biodiversidade e a proteção contra o desmatamento são apenas exemplos de algumas das coisas que só acontecem no Brasil por causa do trabalho deles. Existem algumas teorias em ecologia que afirmam, inclusive, que as áreas de conservação biológica – lugares “intocáveis”- se mantêm melhor quando temos comunidades dentro delas, porque o manejo que as pessoas realizam na área, o alimento que elas dão para os animais, a forma como elas dispersam as sementes, ajudam as espécies a se estabelecerem.

Ou seja, fica no campo quem quer, fica na cidade quem quer – ou nem tanto, às vezes é difícil ficar no campo em um país ainda desigual como o nosso. Mas, para além disso, é importante que a maior parte da população hoje, que é urbana, saiba que a água não surge na torneira e que o leite não surge da caixinha. Que essas coisas, antes de “aparecerem” frente aos nossos olhos, percorreram um caminho enorme, que muita gente participou desse caminho, que nós só estamos aqui porque outros estão lá, e que a gente deveria ter, no mínimo, admiração por essas pessoas que lutam e trabalham tanto, têm tão pouco, e sustentam tanta gente.

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Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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