28 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Se organizar direitinho, todo mundo come

Talvez você já tenha ouvido falar, em alguma aula de geografia, de um cara chamado Thomas Malthus. Se não ouviu ou não lembra, vem cá que a tia te explica, porque entender isso é fundamental para entender o porquê de a gente ver o problema da fome no mundo do jeito que vemos hoje.

O Malthus era um cara que achava que a fome e a miséria existiam por razões simplesmente matemáticas. O ponto central da teoria dele é: a população cresce em projeção geométrica, enquanto a produção de alimentos cresce em projeção aritmética, e por isso, essas duas variáveis são incompatíveis, ou seja, não é possível alimentar a humanidade se ela continuar se reproduzindo indiscriminadamente, porque a produção de alimentos não seria capaz de acompanhar esse ritmo de crescimento. Calma, não desespera, não precisa manjar de matemática para entender! O ponto central é que o Malthus não via a fome como um problema político –que é a forma que a maioria das pessoas vê hoje, graças à deusa. Para ele, como o problema era simplesmente um “muita gente para pouca comida”, o controle de natalidade era a única forma de manter a estabilidade do mundo, porque se entrasse mais gente ia faltar comida, e ia dar ruim.

A questão aqui é que tem um dado bem interessante da ONU que quebra bastante essa teoria do Malthus, que diz que um terço da comida do mundo é jogada fora, enquanto existem 800 milhões de pessoas que ainda passam fome. A partir daí, a teoria de que a quantidade de alimentos é insuficiente para alimentar o mundo cai por terra, porque fica claro que só a comida que é jogada no lixo todos os dias dá e sobra para alimentar pessoas que, em pleno 2015, estão morrendo de fome. Mas, então, se o problema não é a capacidade de produção, o que é?

Essa enorme perda do que a gente produz se dá nas três fases pelas quais o nosso alimento passa: produção, distribuição e comercialização. Ou seja: se perde comida na lavoura, no transporte até ao mercado ou à feira, e também na venda. Agora, para e pensa nos “buracos” que estão acontecendo nesses processos para que eles sejam tão não-eficientes no cuidado com a nossa comida.

Muito alimento se perde nas plantações por infestações de pragas, e isso tem muito a ver com a nossa forma de produzir alimentos, que vai totalmente de encontro com os ciclos da natureza e causa um desequilíbrio ambiental atrás do outro, o que faz com que insetos que estragam a nossa comida cresçam em proporções gigantescas, uma vez que a cadeia alimentar e o ambiente estão alterados. Muitos alimentos saudáveis e perfeitos são jogados fora também nessa etapa simplesmente por não seguirem os padrões de tamanho, formato ou cor do mercado. Sim, as pessoas jogam coisas boas no lixo só porque os consumidores não gostam de alimentos pequenos ou que não sejam perfeitamente redondos. Aprendam a gostar, oras! Mas enfim, depois nós transportamos alimentos de uma ponta do país para a outra, de uma forma que, além de gastar um montão de combustível fóssil, ainda aumenta muito as chances de tudo estragar no meio do caminho. Por último, o mercado e as feiras jogam muita coisa fora, que é danificada pelo manusear das pessoas, que não cumpre aqueles padrões que eu expliquei que são exigidos, ou que simplesmente estraga mesmo, afinal é difícil ficar inteiro e bonito depois de correr essa maratona toda.

Lendo assim, parece uma burrice enorme que a nossa cadeia de produção de comida funcione assim, mas é assim mesmo, apesar de não fazer sentido nenhum para nós. Mas então deve estar fazendo sentido para alguém, né? Se não, não seria assim. E faz mesmo. Faz sentido para os produtores de venenos que baseiam as vendas deles nesse tipo de produção que causa desequilíbrios e, consequentemente, perdas. Faz sentido para quem é dono da transportadora que leva a comida do Norte para o Sul. Faz sentido para os mercados que vendem mais quando têm alimentos grandes, vistosos e não deformados. Mas não faz sentido para quem quer comer uma comida boa, limpa e justa, como você já deve imaginar.

Percebem agora porque a fome é um problema político? Ter comida boa para todo mundo é possível! Se produzíssemos perto da gente, a comunidade e as espécies vegetais locais seriam valorizadas, além de evitar perdas e gastos no transporte. Isso se não fizessem com que nós nos importássemos tanto com a imagem e não com a qualidade da nossa comida. Se não nos distanciassem tanto de quem produz o que a gente come a ponto de nós não fazermos nem ideia de como, quem e quando ela foi produzida. Se as coisas fossem assim, aquele um terço que vai para o lixo não seria mais um terço, e os 800 milhões de famintos não seriam mais 800 milhões.

Por isso, é muito perigoso afirmar que o problema da alimentação do mundo é um problema de produção! É muito subjetivo dizer que a terra não consegue produzir comida para tanta gente. Não consegue produzir como? Em qual modelo? Com quem plantando? Plantando o quê? Via de regra, a terra dá para quem cuida dela, e se um terço das coisas que ela produz está indo para o lixo, vamos combinar que a culpa nessa história não é bem dela, né. Além disso, há maneiras de mudar a forma como nós nos alimentamos, para colocar um modelo que produz nossa comida, autonomia e saúde no lugar de um que produz fome e doença. Quase nada iria para o lixo se nós optássemos pelo primeiro.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

  • Ana Clara Campanelli

    além disso, cerca de metade da produção mundial de grãos são destinados à pecuária. engordamos vacas e porcos por meses enquanto poderíamos estar alimentando seres humanos que passam fome..

  • Tuane Almeida

    O problema da fome no mundo não é pela má distribuição de alimentos, mas sim pela má distribuição de renda. É simples, não tem dinheiro pra comprar então não vai comer.
    É triste, mas temos alimentos para todos -os que podem pagar por eles. 🙁

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