6 de julho de 2015 | Edição #16 | Texto: e | Ilustração: Heleni Andrade
Segredos: tê-los ou temê-los
Ilustração: Heleni Andrade.

Quem não tem segredos que atire a primeira pedra. Todo mundo tem um ou outro pensamento ou história que guarda para si e morre de medo da ideia de que um dia descubram. Mas aí aquela história não sai da sua cabeça. Fica lá, martelando, crescendo…e aquele gosto amargo não vai embora. Até o momento em que você conta para alguém. E pronto. Que nem balão em fim de festa, o que antes era um megaproblema, que você mantinha em segredo, se esvazia. A treta se resolve. Não era o fim do mundo.

Acontece que é difícil pacas romper essa barreira do medo de dividir nossos segredos mais íntimos. Pior, às vezes, até mesmo sem querer, todo mundo, inclusive as pessoas que nos amam, acabam nos desencorajando a deixarmos nossas emoções transparecerem. Em Divertida mente, por exemplo, quando Riley acaba de se mudar e está descontente com a nova casa, sua mãe vai em seu quarto para dar boa noite e, com a intenção de ter um diálogo construtivo, fala sobre como as coisas estão meio difíceis, mas que eles pelo menos (mãe e pai) podem contar com o sorriso da Riley para mantê-los positivos. E Riley sorri, apesar de toda a sua vontade de chorar, pois não quer desapontar aqueles que ama. E pouco a pouco vamos achando que alguns dos nossos pensamentos mais preciosos – os quais muitas vezes são confusos, cheios de dúvidas, insegurança, vergonha e medo – devem ser mantidos em segredo. Também engolimos nossos sentimentos – achando que assim poupamos os outros de se preocupar com nossas abobrinhas. Diminuímos nossos problemas. E isso ainda misturado ao medo de nos expor. Sofremos em segredo. Engolimos nossos soluços.

Só que de tanto engolir, nos contaminamos com as lágrimas.

Nossas emoções não sabem o que estão fazendo, elas só fazem: o medo vai buscando as piores possibilidades e cenários; aparece a vergonha, fazendo com que nós nos fechemos cada vez mais, e a raiva, por fim, vai nos ajudando a dar motivos para as outras pessoas também se afastarem da gente. E para sair desses ciclos é interessante saber o que nos prende a esses segredos. Preparamos uma pequena lista de situações para te ajudar a lidar com alguns tipos mais comuns de segredos que surgem e que nos deixam na dúvida se devem ser compartilhados ou não.

Quando temos um segredo pessoal e rola um medo de nos expor e pedir ajuda:
Olha, talvez seja bom contar. Nem que seja só para desenvolver com uma amiga aquela relação de confiança e confidencialidade que se constrói com uma pessoa especial para quem se conta as coisas. Mas não é só isso. Dividir as coisas ajuda a te dar uma nova perspectiva sobre o assunto. Basta falar do problema para alguém para já o vermos de outro ponto de vista, menos distorcido, menos cheios de hipóteses e pesadelos.
E, além disso, sem pedir ajuda, ficamos presos com nossas próprias limitações; se você fosse capaz de resolver uma situação sozinha não seria um problema. É preciso pensar: o peso de manter esse problema só para mim REALMENTE vale mais do que a vergonha de pedir ajuda? Assim que você contar para alguém que se importa com você, é provável que essa pessoa imediatamente te mostre que não há porque ter vergonha.

Quando temos um segredo pessoal e não sabemos como a outra pessoa vai reagir se contarmos:
Acontece que ainda não foi inventada a bola de cristal universalmente eficaz (se foi e não ficamos sabendo, conta para gente!). E também ainda não inventaram manuais de instruções para seres humanos incluídos no pacote. Então, amiga, a outra pessoa só vai saber o que está rolando na sua cabeça se você contar. Isso é principalmente verdade quando existe algum tipo de interferência na comunicação de vocês – ou vocês vêm de culturas diferentes, usam expressões diferentes, têm idades diferentes – e por isso os sinais não-verbais, mais sutis, acabam perdidos nessa tradução.

Se você não percebeu até agora, por sinal, estamos falando sobre se declarar para alguém, vulgo, dizer que você tá “gostandinho” de tal pessoa. Essa categoria mistura um bocado de medo também, mas aguenta firme.

Quando dividimos nossos pensamentos, fica também mais fácil de aceitar que certas coisas não vão acontecer do jeito que queremos. Fica muito mais fácil parar de obcecar sobre o assunto e partir para outra quando colocamos nossos sentimentos para fora. Até porque, nesse obcecar, nossa cabeça vai alimentando e dando aos assuntos que nos angustiam uma proporção que demanda MUITA energia. E você não precisa alimentar esse monstrengo chamado angústia. Precisamos encarar a realidade: se eu quero e a outra pessoa não quer…entramos na categoria POP – problema da pessoa. O problema é da pessoa (ela deve ter lá suas questões) e cabe à gente [ficar neném] e seguir em frente. Relaxa, descansa, usa aquela energia para outra coisa, para algo que te faça mais feliz.

E quando o segredo não é nosso, mas de alguém que nos conta alguma coisa?
O imperativo moral é não contar de jeito nenhum. Mas até nesses casos há exceções. Uma boa regrinha para seguir com segredos alheios é a seguinte: se tem alguém em perigo real, tente convencer a pessoa a procurar ajuda mais qualificada. Se mesmo assim a pessoa não quiser, tenha noção de que você pode contar o caso para alguém em quem você confie e que possa fazer algo para resolver a situação – mas conte antes para sua amiga que você vai fazê-lo. Talvez ela fique com raiva, mas talvez você perdesse a amiga de qualquer forma… E, no fundo, não tem como você se responsabilizar por essas situações de real perigo.

Se o fato do segredo continuar segredo não resultar em risco para ninguém, deixe como está. Afinal, o segredo não é seu para dividir. Aproveita a adrenalina da história da amiga e curte saber que ela confia o suficiente em você para dividir ele contigo. <3

Por fim, tem aquele segredo-rancorzinho que você está guardando e envolve uma outra pessoa:
Quando uma amiga esquece de te chamar para uma festa de pijama, pensamos mil teorias sobre como ela não gosta mais da gente. Nesse caso, a melhor resposta é ligar direto para ela. Aí, talvez, você descubra que ela te ligou várias vezes, mas que foi justo naquele dia em que você passou a tarde sem bateria. Problema resolvido, sem segredos e fofocas, sem a dor da dúvida que é tão poderosa na hora de corroer amizades.

Resumão para quem ficou com preguiça de ler: quando o segredo vai de alguma forma aumentar nossos problemas, às vezes até ao ponto de nos deixar imóveis, sem conseguir vislumbrar saída possível, ele não precisa continuar sendo segredo. Conversar, por outro lado, tem o poder de trazer para perto pessoas dispostas a nos ajudar a enfrentar esses problemas, que voltam ao seu tamanho original.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

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